Antonio Carlos A. Gama *
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O revólver estava pousado sobre a mesa e ele sentado em frente.
— Não creio que essas coisas se resolvam com um tiro na cabeça, eu disse.
Ele continuou em silêncio.
— Para falar a verdade, pode ser que resolva.
E ele quieto. Nem mesmo levantava a cabeça para me olhar.
— Mas por que é que nós temos de resolver as coisas? — prossegui.
— As coisas que se resolvam por si mesmas. Ou não se resolvam. Dá na mesma.
Sou tido como um homem convincente e sem preconceitos. Deixo que os outros levem a vida ou acabem com ela como bem quiserem. Desde que não me incomodem.
Mas, ele e, sobretudo, sua mulher estavam me incomodando. Ela me telefonara, em pânico, dizendo que o marido ia se matar. Que eu viesse o mais rápido possível. Se não chegasse em dez ou quinze minutos, talvez já o encontrasse morto.
Pensei em retardar o percurso até a casa deles, desculpando-me com o congestionamento do tráfego. Esta cidade está se tornando um inferno, com as ruas entupidas.
Mas, se eu já o encontrasse morto, haveria outros incômodos, e piores: a gritaria e o choro desesperado da mulher, as providências para chamar e esperar a Polícia e o médico, a remoção do corpo, os depoimentos a serem prestados, a necropsia, o enterro e a missa de sétimo dia, com a dificuldade de achar um padre complacente para rezá-la.
Em menos de dez minutos estava na casa dele.
— Não vou lhe dizer que a vida é boa ou péssima, ou que você deve pensar em sua mulher e nos filhos, ou que ainda tem muita coisa pela frente. Pela frente, você tem é o revólver.
Ele não me respondia, mas acho que estava me ouvindo. Sei que ele tem veleidades literárias. Durante vinte anos escreveu a torto e a direito. Mais a torto que a direito. Publicou um livrinho de poemas, escreve croniquetas semanais num dos jornais da cidade e sonha ingressar na veneranda Academia de Letras local.
Era um paradoxo um postulante da imortalidade suicidar-se. Pensei em lhe dizer isso, mas a emenda podia ser pior do que o soneto.
Então me ocorreu outra coisa.
— E a carta, você já escreveu a carta de despedida? O testamento? Não convém estourar os miolos sem, antes, escrever uma carta de despedida. Do próprio punho. Além de ser de boa educação, livra os outros de eventual suspeita. Não escreveu? Pois escreva, isso eu recomendo, como seu advogado.
Afinal, ele levantou a cabeça e me encarou.
— Escreva a carta — eu insisti.Depois nós podemos pensar, também, no testamento. Não há pressa. Há sempre tempo para encostar o cano do revólver na cabeça e puxar o gatilho.
Ele abriu a gaveta e retirou de dentro algumas folhas em branco e a caneta.
— Vou deixá-lo com a carta a escrever, eu disse. Não se apresse. E você deve meditar para escrever coisa que preste. Afinal, será a sua última carta.
Retirei-me e fechei a porta atrás de mim. Na sala, a mulher andava de um lugar para outro torcendo as mãos e fumando. Ela me abraçou e depois me puxou pela manga do paletó.
— Então?
— Calma. Temos tempo. Ele vai, antes, escrever uma carta.
Duas horas depois, ele saiu do escritório. A mulher pulou do sofá.
Ele pediu um café. Sugeri um gole de uísque, com pedras de gelo. Também a mim agradaria uma dose de uísque. Ele concordou.
Bebemos o uísque.
— Então, escreveu a carta?
Ele levou-me de volta ao escritório. O revólver continuava sobre a mesa, mas afastado para o lado, para dar lugar às folhas de papel.
— Posso ler?
Ele deu de ombros. Peguei a carta e li. Três folhas rabiscadas. Ele olhava pela janela. Eu lhe falei:
— Para ser franco, não gostei da carta. Você foi cruel com algumas pessoas.
Para quê? A carta de um suicida deve ser magnânima. Você quer atravessar o limiar da eternidade deixando aqui mesquinharias? E depois, você escreve muito melhor quando capricha. Há até mesmo uns dois ou três erros de português. Escreva outra carta, rasgue esta.
Tornei a sair para a sala, fechando a porta. Vinte minutos depois, abri uma fresta da porta e espiei para dentro. Ele continuava escrevendo. Mais dez minutos, olhei novamente e ele ainda escrevia. Despedi-me.
— Quando você acabar a carta, me telefone.
A mulher quis me reter, mas eu a convenci de que naquele dia não aconteceria mais nada. Veríamos, no dia seguinte.
Nos dias subsequentes, ele escreveu mais quatro ou cinco cartas, e eu punha reparos em todas elas.
No sexto dia, ele deixou de escrever cartas e me comunicou que estava escrevendo uma novela.
* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

