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O domínio pentecostal e a violência

Foto: Arquivo

José Eugenio Kaça *
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Parcela ínfima dos seres humanos sonha com uma sociedade em que a evolução não seja apenas a evolução tecnológica, pois além da tecnologia é preciso priorizar a qualidade de vida, a igualdade, a sustentabilidade e a valorização do ser humano. Contudo, este modelo de sociedade sonhado por poucos, não cabe dentro do sistema capitalista, que prioriza o capital em detrimento da convivência pacífica da vida humana. Passaram-se séculos e milênios, e a convivência humana quase não se alterou, mesmo nos momentos de grandes catástrofes, a solidariedade é passageira.

O momento atual, mostra que o ser humano vai perdendo aos poucos sua humanidade. Nunca se viu tanta iniquidade povoando o cotidiano. As pessoas estão praticando a crueldade, e sentindo prazer com seus atos. No passado, o povo brasileiro, apesar da maioria viver na miséria, havia um clima induzido de esperança no ar, pois éramos o País com um futuro brilhante, e o povo acreditava que um dia tudo iria mudar – passaram-se os séculos, e quase nada mudou. O povo pobre, que acreditava nas promessas vazias de gente engravatada, se decepcionou, ficando apenas com a esperança de ter uma vida melhor no paraíso, depois da morte.

Mas, este destino foi alterado, por uma nova visão teológica, que afirma ser possível ter uma vida confortável e feliz, aqui mesmo na Terra. Surgiu a Teologia da Prosperidade, para substituir o fatalismo de uma vida feliz só após a morte. Essa teologia surgida no meio pentecostal, começou a usar a fé, como moeda, e os dízimos e as ofertas passaram a ser as chaves para abrir as portas da prosperidade terrena, sem ter esperar o dia do juízo final, e surgiu a figura de Jesus violento. O sucesso desta teologia fez crescer exponencialmente o número de fies no seguimento pentecostal. Como o sucesso embriaga, resolveram alçar voos mais altos.

Não podiam ficar só nas relações intermediárias entre Deus e os fiéis, precisavam colocar “homens de Deus” na política, para melhorar o ambiente político. E para embasar suas teorias, sobre os poderes da República, importaram dos EUA a Teologia do Domínio, que é uma corrente ideológica cristã, que busca a dominação política e social dos cristãos sobre a esfera pública, baseada numa interpretação literal do Velho Testamento, defendendo uma sociedade teonomista, onde a lei divina, de acordo com suas interpretações governe o Estado, visando uma ordem social cristã radical na política e na sociedade.

O sucesso destas teologias está emburrecendo a população, pois levam ao pé da letra as falas dos chamados “homens de Deus”, e fala de um homem ungido é lei, e não pode ser contestada. As redes sociais são o exemplo deste domínio. Houve um tempo em que se acreditava na educação para desenvolver a cidadania. Paulo Freire, um dos maiores educadores do mundo acreditava que a prática de uma educação libertadora e crítica fosse capaz de intervir e transformar a formação da cidadania, e elevar a vida cotidiana. Acontece que a pedagogia de Paulo Freire, mesmo sendo uma das mais pesquisada no mundo, foi boicotado no Brasil, e com raras exceções, não ultrapassou os muros escolares.

A omissão e o descaso com Paulo Freire, ajudou a proliferar as teologias extremistas da prosperidade e do domínio, e o retrocesso na convivência social é visível. Eu vejo pessoas que foram beneficiárias do Bolsa Família, e por conta deste programa conseguiram sair da situação de miserabilidade e prosperar como ser humano, agora se posicionando contra o programa que os beneficiou, acham que os beneficiários de hoje são vagabundos que não querem trabalhar. Os parlamentares de extrema direita tentam o tempo todo acabar com todas as políticas sociais; teve até um “iluminado” que propôs que beneficiários dos programas sociais sejam proibidos de votar, e ainda enchem a boca para falar de liberdade.

A parcela ínfima que sonha com uma sociedade evoluída, onde a desigualdade não exista, e a vida humana seja o bem maior precisa proliferar, e tomar conta do ambiente. O sonho não pode acabar!

* Pedagogo, líder comunitário e ex-conselheiro da Educação

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