Luiz Paulo Tupynambá *
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Quando a família tinha um filho ou neto “arteiro”, aquele que vivia bagunçando a vida dos adultos, quebrando as coisas em casa ou arrumando confusão com os vizinhos, dizia-se que “tinha curuquerê no fiofó”. Não tinha sossego para nada, era um tormento para todos. Outra “figura” familiar das antigas era a pessoa mais velha que “caducava”. Era alvo de pilhérias e grosserias de parentes. Hoje, isso é etarismo. A psicologia infantil avançou e desenvolveu métodos que possibilitam tratamento para adequação dessa criança ao convívio social. O mesmo aconteceu com os mais velhos, via diagnósticos acessíveis e tratamento médico-ambulatorial proporcionado pelo SUS, através das redes de atendimento municipais, estaduais e filantrópicas.
Nesses dias bicudos de desinformação e meias-verdades que, desembaladas, se revelam inteiras-falsidades, se você juntar a ideia do “moleque arteiro” com a de “velho caduco”, pode imaginar no que dá, não é? Isso mesmo: Donald Trump.
Ele cresceu num ambiente rico e branco em uma cidade cosmopolita, com cores, sentidos e linguagens diferentes, originados no mundo todo. A fechada elite econômica de Nova Iorque foi o ambiente em que se alimentou e respirou. Não consta que, um dia, gostou de negros, imigrantes europeus de baixa formação ou latinos. Nova Iorque, nos anos 60 e 70, era uma confusão completa, com economia baseada nas comunidades judaicas e WASP, que dominavam a indústria, o comércio e o sistema financeiro. As outras comunidades, como os italianos, poloneses e irlandeses, ficavam com os pequenos comércios e prestação de serviços, como táxi, coleta de lixo, entretenimento, polícia e serviço público. Era uma cidade dividida. Havia os bairros italianos, os bairros negros, os bairros latinos e os de comunidades menores. Tinha outra divisão, subterrânea: o crime organizado.
Em meados da década de 60 os EUA estavam à beira de um colapso da sua organização civil. A publicação do “Civil Rights Act of 1964” (Ato de Direitos Civis de 1964) deixava em pé de igualdade os direitos civis antes negados às minorias raciais estadunidenses. A militância, principalmente ligada a comunidade negra, foi para as ruas da cidade exigir o cumprimento do novo Ato. As manifestações gigantes contra a Guerra no Vietnã eram diárias. Porém, o fim dela, despejou milhares de jovens veteranos sem rumo ou dinheiro na cidade. Sem empregos na fora dos sindicatos dominados pela Máfia, esses jovens formaram gangues violentas para traficar drogas. No início e meados da década de 70, esta era a capital mundial da produção de pornografia. O Times Square com a Broadway, onde hoje é comemorado o Réveillon, era um gigantesco parque de diversões sexuais. Eram centenas de prédios residenciais e comerciais abandonados e a cidade era um retrato do caos. Fugindo disso tudo, os endinheirados foram para subúrbios de luxo. Em 1975, com a diminuição da arrecadação de impostos, a cidade estava falindo, o que só foi evitado com empréstimos estaduais e demissões em massa de funcionários.
A recuperação começou com uma “aliança” dos empresários de construção civil, que viram uma grande oportunidade no início da década de 80. A superação da crise do petróleo e o fim da Guerra do Vietnã, trouxeram alívio nas pressões sociais. Esse grupo de empresários, onde um dos mais influentes era o pai de Donald Trump, associou-se a classe política tradicional para criar um plano de recuperação de Manhattan. Com a diminuição da influência da Cosa Nostra, pelo enfraquecimento das Cinco Famílias com a ação do grupo de trabalho do promotor Rudy Giuliani (aquele mesmo que foi advogado de Trump), em menos de uma década jã não existia mais a indústria pornográfica. A venda de drogas desabou. Nova Iorque hoje é essa que faz o Réveillon famoso no mesmo lugar onde, décadas atrás, os “pimps” (cafetões”) desfilavam em carrões conversíveis, vestindo roupas exageradas.
Nesse ambiente cresceu o atual presidente dos EUA. Mas falta um pedaço da história da formação de Donald Trump. Sua formação como empresário e político. Conto isso na próxima semana.
* Jornalista e fotógrafo de rua

