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Estudo da USP revela hanseníase silenciosa

Prof. Dr. Filipe Lima: Os resultados mostram que, em Ribeirão Preto, a transmissão é predominantemente difusa, sem concentração significativa em bairros ou regiões específicas | Arquivo pessoal

Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) revelou que a hanseníase ainda circula de forma ativa e silenciosa no município. A pesquisa, publicada na revista científica internacional BMC Infectious Diseases, utilizou amostras de sangue coletadas durante a pandemia da Covid-19, exames laboratoriais e ferramentas de inteligência artificial para mapear a presença da doença e fortalecer as estratégias de vigilância em saúde.

O trabalho foi conduzido pelo grupo de pesquisa do Centro de Referência em Dermatologia Sanitária e Hanseníase, sob coordenação do professor doutor Marco Andrey Cipriani Frade, da Divisão de Dermatologia do Departamento de Clínica Médica da FMRP-USP, com participação de pesquisadores do Departamento de Medicina Social e da Divisão de Moléstias Infecciosas e Tropicais da instituição.

Entre os autores está o professor doutor Filipe Lima, pesquisador e orientador da FMRP-USP, que explica que o estudo aproveitou dados já existentes para ampliar o alcance das análises e gerar informações estratégicas sobre a circulação da hanseníase em Ribeirão Preto.

O professor concedeu uma entrevista ao Tribuna Ribeirão comentando os principais resultados da pesquisa, o uso da inteligência artificial no rastreamento da doença e os impactos para a população e para o Sistema Único de Saúde (SUS).

Tribuna Ribeirão – O que esse estudo revela sobre a presença da hanseníase hoje em Ribeirão Preto? Em termos práticos, a doença ainda circula de forma silenciosa na cidade? Há mais casos do que se imaginava?

Prof. Dr. Filipe Lima – O estudo mostra que a hanseníase ainda circula de forma ativa e silenciosa em Ribeirão Preto, com a existência de casos não diagnosticados, muitos deles com sintomas principalmente neurológicos e iniciais, que precisam ser priorizados na triagem clínica. A transmissão ocorre de maneira difusa em todo o município, e não apenas em áreas específicas, o que ajuda a explicar a classificação recente de muito alta endemicidade. Sendo uma classificação que é resultado de um esforço da vigilância e atenção à saúde para controle da doença: identificar, diagnosticar, tratar e depois controlar de fato e diminuir os números.

Doutor Filipe Lima é pesquisador e orientador da FMRP-USP | Arquivo pessoal

É importante destacar que o aumento no número de casos identificados não é algo negativo, pois reflete uma vigilância epidemiológica eficiente e profissionais da atenção primária bem capacitados para diagnosticar. Diagnosticar e tratar mais cedo é essencial para interromper a transmissão e, a médio e longo prazo, reduzir os índices da doença na população.

A hanseníase é uma doença primariamente neural, e os casos que apresentam principalmente sinais neurológicos são mais difíceis de diagnosticar na prática clínica. Os resultados do estudo demonstram que o uso de novas ferramentas laboratoriais e de inteligência artificial tem grande capacidade de identificar precocemente esses pacientes, auxiliando a triagem e apoiando o diagnóstico clínico, especialmente quando as manifestações da pele ainda são discretas ou ausentes.

Tribuna Ribeirão – Um dos achados chama atenção: muitos moradores apresentaram anticorpos positivos sem saber que tinham a doença. Isso significa que a hanseníase pode estar sendo transmitida sem sintomas evidentes? Quais os riscos disso para a população e para o controle da doença?

Prof. Dr. Filipe Lima – O achado de anticorpos positivos em pessoas sem diagnóstico e sem sintomas evidentes indica que a hanseníase pode estar sendo transmitida de forma silenciosa, antes do aparecimento dos sinais clínicos clássicos da doença. Esses anticorpos mostram contato com o bacilo e, em alguns casos, infecção recente, mesmo quando a pessoa ainda não percebe alterações na pele ou nos nervos.

No entanto, é fundamental esclarecer que um teste de sangue positivo para esses anticorpos não confirma, por si só, a hanseníase. Esses exames não são definidores da doença, mas funcionam como ferramentas de triagem, ajudando a identificar pessoas que precisam de uma avaliação mais aprofundada. O diagnóstico definitivo é sempre clínico, realizado pelo médico, com base no exame dermatológico da pele e na avaliação neurológica dos nervos.

Os principais riscos dessa transmissão silenciosa é a manutenção da cadeia de transmissão e o diagnóstico tardio, o que pode levar a lesões neurais permanentes e incapacidades físicas. Por outro lado, o uso desses biomarcadores (novos exames) permite antecipar a investigação clínica, fortalecer a vigilância e interromper a transmissão, contribuindo de forma decisiva para o controle da hanseníase na população.

Tribuna Ribeirão – A pesquisa utilizou inteligência artificial para ajudar no diagnóstico. Como funciona esse sistema e de que forma ele pode acelerar a identificação precoce da hanseníase no SUS? Essa tecnologia já pode ser usada na rotina dos postos de saúde?

Prof. Dr. Filipe Lima – A pesquisa utilizou o Questionário de Suspeição de Hanseníase (QSH) em conjunto com o sistema de inteligência artificial MaLeSQs®, aplicados de forma digital, remota e voluntária. Os participantes responderam a um questionário online com perguntas padronizadas sobre sinais e sintomas neurológicos e dermatológicos. As respostas são analisadas automaticamente pelo MaLeSQs®, que identifica padrões de risco para hanseníase e aponta pessoas com maior probabilidade de estarem doentes.

O MaLeSQs® utiliza as 14 questões do Questionário de Suspeição de Hanseníase (QSH), mas vai além da simples soma de sintomas. Por meio de inteligência artificial, o sistema analisa a combinação e o padrão das respostas para identificar quais sinais são mais compatíveis com hanseníase, diferenciando-os de sintomas inespecíficos isolados e comuns a outras condições. Isso torna a triagem mais precisa e aumenta a chance de identificar casos reais da doença ainda em fases iniciais. Como também, diminui o tempo de avaliações médicas sem necessidade.

Esse sistema acelera a identificação precoce porque permite triar um grande número de pessoas rapidamente, priorizando aquelas que precisam de avaliação médica especializada, mesmo quando os sinais ainda são sutis ou predominantemente neurológicos. Quando há suspeição, o indivíduo é encaminhado para avaliação clínica por dermatologistas e hansenologistas, e posteriormente direcionado aos postos de saúde do SUS para seguimento e tratamento.

O QSH já demonstrou efetividade na prática, tendo recebido o Prêmio de Experiências Exitosas do SUS em 2022 e foi incorporado ao SUS como ferramenta de apoio à triagem de casos de hanseníase. Já o sistema de inteligência artificial MaLeSQs® mostrou grande potencial, mas ainda não foi incorporado à rotina do SUS, estando em fase de pesquisa para uso futuro como ferramenta complementar à vigilância e ao diagnóstico precoce da doença.

Tribuna Ribeirão – O estudo mostra um “mapa” de circulação da bactéria na cidade? Há bairros ou regiões mais vulneráveis ou a transmissão é realmente difusa em Ribeirão Preto? Que tipo de políticas públicas esse mapeamento pode orientar?

Prof. Dr. Filipe Lima – Os mapas não mostram circulação da bactéria, mas os casos novos de hanseníase diagnosticados pelo estudo e os níveis de diferentes anticorpos específicos, que indicam contato e exposição a bactéria. Esses dados permitem identificar pessoas que precisam de avaliação clínica, seja para confirmação do diagnóstico ou para acompanhamento.

Os resultados mostram que, em Ribeirão Preto, a transmissão é predominantemente difusa, sem concentração significativa em bairros ou regiões específicas. Isso indica que a hanseníase não está restrita a áreas tradicionalmente vulneráveis, mas distribuída por todo o município.

Esse tipo de mapeamento orienta políticas públicas mais amplas e integradas, como o fortalecimento da vigilância em toda a rede de atenção básica, a ampliação da busca ativa de casos, o monitoramento de contatos e o uso de ferramentas de triagem combinando exames laboratoriais e de triagem clínica em diferentes territórios. Em vez de ações pontuais, os dados apoiam estratégias municipais contínuas, focadas no diagnóstico precoce e na interrupção da transmissão da hanseníase.

Tribuna Ribeirão – Para o cidadão comum, qual é a principal mensagem desse trabalho? Quais sinais devem acender o alerta para procurar uma unidade de saúde e por que o diagnóstico precoce é tão decisivo para evitar sequelas e transmissão?

Prof. Dr. Filipe Lima – A principal mensagem deste trabalho para o cidadão é que a hanseníase ainda existe, pode estar presente sem sinais evidentes na pele e tem cura quando diagnosticada precocemente. O estudo mostra que a doença pode circular de forma silenciosa, muitas vezes começando pelos nervos, o que torna o diagnóstico mais difícil quando não há manchas visíveis ou profissionais treinados ou tecnologias de exames complementares disponíveis.

Por isso, alguns sinais precisam acender o alerta para procurar uma unidade de saúde, especialmente quando persistem por semanas ou meses: dormência ou formigamento nas mãos e nos pés, áreas da pele “adormecidas”, dor nos nervos, sensação de choques ou agulhadas, câimbras, fraqueza nas mãos ou nos pés, dificuldade para segurar objetos ou calçar chinelos, inchaço em mãos, pés ou rosto, caroços pelo corpo, perda de cílios ou sobrancelhas e manchas na pele que não coçam nem doem. Ter história de hanseníase na família também aumenta a atenção.

O diagnóstico precoce é decisivo porque evita lesões permanentes nos nervos, previne incapacidades físicas e interrompe a transmissão da doença. Quanto mais cedo a hanseníase é identificada e tratada pelo SUS, menor o risco de sequelas e maior a chance de cura completa, protegendo a própria pessoa, sua família e toda a comunidade.

 

Entenda a hanseníase

A hanseníase é uma doença infecciosa causada pela bactéria Mycobacterium leprae, que atinge principalmente a pele e os nervos. Ela pode provocar manchas com perda de sensibilidade, dormência, formigamento, dor nos nervos e fraqueza muscular. Em muitos casos, os primeiros sinais são neurológicos, o que dificulta o diagnóstico.

A transmissão ocorre pelo contato próximo e prolongado com pessoas que ainda não iniciaram o tratamento, por meio de gotículas respiratórias. A doença não é transmitida por aperto de mãos, abraço, objetos ou convivência ocasional.

A hanseníase tem cura e o tratamento é gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS) | Reprodução

Um dos maiores desafios é o longo período sem sintomas, que pode durar anos. Por isso, muitas pessoas convivem com a bactéria sem saber, favorecendo a transmissão silenciosa.

A hanseníase tem cura e o tratamento é gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Após o início da medicação, a pessoa deixa de transmitir a doença em pouco tempo.

O diagnóstico precoce é fundamental para evitar sequelas, prevenir incapacidades físicas e interromper a cadeia de transmissão. Ao perceber manchas sem sensibilidade, dormência ou dor nos nervos, a orientação é procurar uma unidade de saúde.

Informação, acompanhamento médico e combate ao preconceito são essenciais para o controle da doença.

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