José Moacir Marin *
Autismo, ou Transtorno do Espectro Autista (TEA), é uma desordem neurológica na qual as crianças experimentam regressão no desenvolvimento caracterizada pela perda de habilidades adquiridasde ordem verbal, não verbal e social. Os sintomas começam a aparecer aos 3 anos, entretanto muitas vezes essas características passam desapercebidas até a idade escolar. A condição afeta os meninos quatro vezes mais que as meninas.
Evidências crescentes indicam que algumas situações específicas como a idade avançada dos pais, nascimento prematuro, diabetes materna durante a gravidez e algumas infecções (sarampo, rubéola e caxumba) estão associadas ao risco de TEA.
Uma análise sistemática demonstrou que nos últimos 25 anos ocorreu aumento brutal do número total de casos de TEA. Dados dos Estados Unidos indicaram em 2001 (1 caso em cada 150 crianças); em 2016 (1 em 54) e o dado mais recente (2024) aponta para 1 criança com TEA em cada 36 crianças, aumento que dispara todos os alarmes.
Diferentes estudos indicam que fatores genéticos e não genéticos (ambientais) contribuem igualmente para a ocorrência do TEA. Embora a genética contribua, a heterogeneidade genética encontrada indica uma composição multifatorial. Enquanto algumas mutações gênicas associadas ao TEA têm sido identificadas, como por exemplo a Síndrome do X frágil e outras, técnicas de biologia molecular já identificaram 1231 genes envolvidos com o desenvolvimento neuronal de alguma maneira. Entretanto, como estes genes contribuem individualmente ou coletivamente para o risco de autismo permanece incerto.
Assim, aproximadamente 80% dos indivíduos afetados não apresentam mutação gênica identificável, sendo mais provável a interação entre diferentes genes. Isso permite supor a ocorrência do TEA como uma relação complexa entre fatores genéticos alterados e uma exposição ambiental a diversas substâncias.
O alumínio (Al) possui uma toxicidade conhecida, entretanto o possível papel do alumínio no desenvolvimento de doenças neurológicas ainda é discutível. Sabe se que o metal pode se acumular no cérebro, mas os mecanismos envolvidos nesse processo não estão totalmente esclarecidos. Entre as fontes de exposição infantil ao alumínio estão fórmulas lácteas, soluções intravenosas e o uso do metal como adjuvante em algumas vacinas.
O mercúrio (Hg) também é reconhecido por sua toxicidade, especialmente para o fígado e o sistema nervoso central. Uma das formas de exposição ao mercúrio é o timerosal (TM), composto criado para atuar como conservante antimicrobiano. O timerosal já foi usado como conservante em algumas vacinas, e pesquisas estimaram que parte da exposição infantil ao mercúrio poderia vir desse composto.
Alguns autores levantam a hipótese de que a combinação entre timerosal e alumínio, mesmo sem causar reações aparentes em crianças saudáveis, poderia ter efeitos mais significativos em indivíduos com predisposição genética a TEA.
Já entre as drogas desreguladoras do sistema endócrino se destacam o perfluoroalquil e o polifluoroalquil (PFAS), os quais representam vasta família de produtos químicos sintéticos resistentes à água, óleo, e calor e por isso são amplamente utilizados como antiaderente (teflon), cosméticos, tintura para cabelo e tinta para as unhas, entre outros. São produtos facilmente absorvidos pela pele humana e cruzam a barreira placentária sem dificuldade, alcançando o feto em desenvolvimento com potencial impacto em muitos sistemas do corpo humano, por mimetizar, estimular ou bloquear os hormônios naturais, dessa maneira eles já foram relacionados com o déficit de atenção e hiperatividade em crianças e mais recentemente também com TEA.
Desta maneira parece evidente que o autismo representa uma desordem neurológica complexa, com a participação de fatores genéticos até este momento não facilmente identificáveis. Os fatores ambientais podem e devem ser melhor analisados e, na medida do possível, evitados, quebrando assim a somatória dos possíveis causas que acabam por desencadear o autismo..
* Professor aposentado de Genética e Biologia Molecular da USP / Campus Ribeirão Preto

