Tribuna Ribeirão
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A invasão que começou no campo e terminou no prato

Rodrigo Gasparini Franco *
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A mesa de jantar britânica esconde, entre talheres de prata e receitas seculares, as marcas indeléveis de uma invasão que alterou para sempre a estrutura da língua inglesa e a percepção social de seus falantes. Quando um falante nativo de inglês se refere ao animal vivo no campo como pig ou cow, mas utiliza invariavelmente os termos pork ou beef para descrever a carne servida no prato, ele não está apenas seguindo uma convenção culinária ou um capricho gastronômico, mas sim ecoando uma divisão de classes profunda que remonta ao ano de 1066. Naquele período histórico, a Conquista Normanda impôs uma nova elite sobre a Inglaterra, criando um abismo linguístico e social entre quem produzia o alimento com o suor do rosto e quem o consumia com exclusividade nos banquetes reais.

Essa dualidade terminológica, que intriga estudantes de idiomas ao redor do mundo, é o resultado direto da convivência forçada entre o inglês antigo, de raiz germânica e falado pelos camponeses anglo-saxões, e o francês normando, idioma da nobreza vitoriosa liderada por Guilherme, o Conquistador.

Durante séculos, a Inglaterra viveu sob um sistema de castas linguísticas: enquanto os trabalhadores rurais, subjugados e empobrecidos, lidavam com o sujo e exaustivo cotidiano da criação de animais, mantendo os nomes originais germânicos para os bichos que pastavam, a aristocracia instalada nos castelos e solares recebia o produto final já abatido, limpo e preparado por cozinheiros.

Para esses nobres, que raramente pisavam na lama dos chiqueiros, a comida era identificada exclusivamente pelos nomes de sua terra natal. Assim, o porc francês tornou-se o pork inglês, enquanto o bœuf transformou-se em beef, consolidando uma distinção que separava o animal vivo da mercadoria de luxo.

O mesmo fenômeno capturou o destino de outros animais que compunham a dieta da elite. O carneiro, cuidado pelo pastor que o chamava de sheep, chegava à mesa como mutton (do francês mouton), e o bezerro, o calf da fazenda, era servido como a refinada vitela, ou veal (do francês veau). Diferente do que ocorreu com línguas latinas como o português, o espanhol ou o italiano, onde a raiz do nome do animal e de sua carne costuma ser a mesma devido à origem comum no latim, o inglês optou por um caminho de acumulação.

O idioma não substituiu os termos antigos pelos novos; em vez disso, ele os organizou em camadas de prestígio. Essa estratificação social do vocabulário não se limitou à cozinha, expandindo-se para quase todas as esferas da vida pública e moldando a psicologia da língua. Onde o povo via a necessidade simples de “ajuda” (help), a corte oferecia “assistência” (assistance); onde o camponês buscava a “liberdade” visceral (freedom), o jurista discutia a “liberdade civil” (liberty).

Essa herança transformou o inglês em um idioma de sinônimos hierarquizados, no qual palavras de origem germânica costumam carregar uma força emocional, direta e doméstica, enquanto as de origem francesa ou latina evocam formalidade, autoridade e erudição acadêmica.

Curiosamente, essa distinção não foi aplicada de forma universal a todos os seres vivos, revelando nuances fascinantes sobre o valor econômico e o status de cada espécie na Idade Média. Animais como o frango e o peixe, que eram amplamente acessíveis a todas as camadas da população e não representavam o mesmo luxo ostensivo das carnes vermelhas nos grandes banquetes, mantiveram nomes únicos para o bicho e para o alimento.

O fato de chicken e fish terem escapado dessa “dupla identidade” reforça a tese de que a mudança linguística foi impulsionada estritamente pelo prestígio e pelo consumo da mesa aristocrática. Assim, cada vez que um menu contemporâneo apresenta um corte de pork, ele está, ainda que de forma inconsciente, prestando uma homenagem linguística a uma antiga hierarquia medieval que separava, pelo vocabulário, o trabalho braçal do campo do refinamento palaciano. O inglês moderno é, portanto, um museu vivo dessa conquista, onde cada mordida em um bife carrega consigo quase mil anos de história política e social.

* Advogado e consultor empresarial de Ribeirão Preto, mestre em Direito Internacional e Europeu pela Erasmus Universiteit (Holanda) e especialista em Direito Asiático pela Universidade Jiao Tong (Xangai)

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