André Luiz da Silva *
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Agora, sim, pode-se dizer que o ano começou. E não me venha com a tese repetida de que, no Brasil, tudo só engrena depois do Carnaval. O verdadeiro marco inicial acontece logo após a ressaca do Réveillon, quando os dias avançam sem trégua pelo chamado “super janeiro” — esse mês longo e implacável em que as contas surgem com mais entusiasmo do que as promessas de mudança, impondo à rotina um ritmo que ninguém consegue ignorar.
Dispenso, também, a afirmação de que o Carnaval seja “o maior espetáculo da Terra”. Pode até encantar os olhos, mas é o término das férias escolares e o retorno às aulas que, de fato, movimentam o país. É nesse momento que o Brasil desperta mais cedo, reorganiza horários, ativa a logística familiar e recoloca em marcha pais, estudantes e profissionais da educação. Com o início do ano letivo, dá-se início à jornada oficial dos 200 dias de aula previstos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional — um compromisso que simboliza não apenas o recomeço da rotina, mas a retomada coletiva de um projeto essencial: a educação.
Nas cidades grandes e médias, o trânsito reassume sua vocação para o caos, sobretudo nos arredores das escolas. As crianças reagem de formas variadas: algumas caminham curvadas sob mochilas enormes, coloridas e nada ergonômicas; outras chegam animadas para rever os colegas e compartilhar as aventuras das férias. Há ainda as sonolentas e aquelas que só entram após uma bronca estratégica.
Do lado de fora, mães, pais e responsáveis demonstram um alívio discreto. Depois de semanas esgotando o repertório de brincadeiras, a presença dos filhos em casa — tão sonhada durante a gravidez — passa a ser sentida como um desafio diário. Ninguém diz em voz alta, mas o portão da escola vira, por alguns segundos, um lugar de respiro.
E os profissionais da educação? Muitos enfrentam noites mal dormidas, ansiedade e estresse típicos do chamado “pré-retorno”. Soma-se a isso a realidade de salas superlotadas, infraestrutura precária, falta de recursos e, em alguns casos, insegurança profissional, como vivenciam professores da rede estadual paulista, especialmente os da categoria “O”, atingidos por demissões em massa atribuídas a critérios considerados arbitrários.
Paradoxalmente, a educação segue como estrela dos discursos eleitorais. Apesar de atacada e desvalorizada, continua sendo essencial para formar cidadãos e transformar a sociedade. Prova disso são os inúmeros casos de alunos da escola pública aprovados em universidades de excelência, como os quatro estudantes da Escola Estadual Bairro Francisco Castilho, em Cravinhos, aprovados em Medicina na USP Ribeirão Preto.
Sempre deixo duas mensagens nas escolas: aos professores, “não desistam”; aos alunos, “aproveitem a oportunidade”. Hoje acrescento uma terceira, aos familiares: educação exige parceria. O ensino começa em casa. Criem rotinas, cultivem afeto, acompanhem as tarefas e ensinem suas crianças a valorizar a escola. Porque, no fim das contas, mochila pesada mesmo não é a do aluno — é a responsabilidade coletiva de educar e formar alguém para o mundo.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

