Antonio Carlos Augusto Gama *
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O vocábulo “animal”geralmente é usado para indicar o “ser vivo organizado, dotado de sensibilidade e movimento” que se situa, na escala zoológica, abaixo do homem.
O vocábulo está impregnado de conotações depreciativas: “animal”é a pessoa ignorante, bruta, estúpida, desumana, cruel, ainda que em matéria de brutalidade, estupidez e crueldade, os homens possam ir muito além dos animais postos mais abaixo na escala zoológica.
De outra parte, se há defeitos ou má qualidade injustamente imputados a certos animais, outros são exornados de atributos especiais que os magnificam e distinguem. O burro é teimoso e estúpido; o rato é covarde; o porco é porco; o cão é fiel, o melhor amigo do homem; os elefantes nunca esquecem; o cordeiro é manso; a pomba é terna, símbolo da paz.
“Besta”é outra palavra depreciativa, muito empregada pelos nossos parlamentares para protocolarmente se insultarem uns aos outros nas tribunas: “Vossa excelência é uma reverendíssima besta”; “o nobre deputado é uma besta quadrada”. Mas, nossos irmãos portugueses denominam de “bestial” uma coisa ótima.
“Quadrúpede”, em oposição ao “bípede sem plumas”de Platão, que seria o homem, se indica o animal de quatro pernas, ou que se apoia nas quatro patas, é também o“estúpido”, aquele que, se cair no chão, imediatamente começa a pastar. E como essa espécie é pródiga nos dias de hoje!
E aqui se indaga: os animais, os bichos, têm alma?
Não querem crer os teólogos, e os filósofos, que a tenham. Ou, pelo menos, que a tenham imortal. Teriam uma alma inferior, perecível, que se extingue com eles, chegada a morte. Não tendo alma imortal, não vão para o céu nem para o inferno.
Não obstante, os poetas, que pressentem e adivinham o que os filósofos e teólogos penosamente lucubram com acertos e desacertos, reservam um céu para os seus bichinhos de estimação, não admitindo que a morte os afaste deles definitivamente. Manuel Bandeira fez um poemeto sobre o pardalzinho de Sacha:
“O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!”
Se Cristo disse que “a casa de meu pai tem muitas moradas”, não é absurdo supor que se reserve lá um horto para os passarinhos mortos, um jardim para as borboletas que vivem tão pouco, uma pradaria para o galope dos cavalos, para pasto dos burrinhos e dos bois que sofreram longamente no jugo dos carroções e das carroças, e para outros animais explorados e tiranizados pelo homem.
Mas, não vamos insistir na discussão dessa matéria impalpável que vem a ser a alma, cuja imortalidade nem sempre foi admitida até mesmo para o homem.
Afinal, que é a alma?
Responde Mário Quintana, outro poeta:“A alma é essa coisa que pergunta o que é a alma.”
Imagine-se a Terra sem os animais. Que desolação! Nem o canto dos passarinhos, nem o adejar das borboletas e a lanterninha dos vaga-lumes; nem o ladrar dos cães, o rugido dos leões, o arrulho das pombas, o coaxar dos sapos; nem os potes quebrados da saracura, a cantiguinha dos sabiás, o zurro do burro, o cricrilar dos grilos… E depois, as formas e as cores mais inesperadas, desde o estipe das girafas com a sua pequena cabeça, as corcovas do camelo, a bocarra dos hipopótamos, a graça do voo das garças…
* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

