Tribuna Ribeirão
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Psicologia da vida cotidiana: (25): O dia de Sir Charles Darwin

José Aparecido Da Silva*

 

O dia 12 de fevereiro, conhecido como o dia de Darwin  (1809-1882), é celebrado anualmente para honrar o nascimento de Charles Darwin e suas contribuições fundamentais à ciência. No seu livro mais conhecido, publicado em 1859, e que o tornou muito.  A Origem das Espécies, ele esboçou a teoria que o fez um dos cientistas mais famosos do mundo. Nele, ele apresenta a teoria da evolução por meio da seleção natural, desafiando crenças da época e redefinindo a biologia moderna. A despeito da distância temporal, a importância de suas ideias ainda hoje ecoa nos quatro quadrantes do planeta e as controvérsias por ele criadas ainda persistem vigorosamente em nossa sociedade. Sua influência na ciência do século XX foi tamanha que, sem sombra de dúvida, sua teoria da evolução tornou-se uma das pedras fundamentais da moderna biologia. De fato, tanto a descoberta do DNA e a revolução molecular emergente do último século, erigiram-se a partir de suas ideias. Outro livro importante que muito aprecio é A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, um estudo pioneiro em psicologia comparativa. Publicado em 1872, a abra é considerada um marco fundador da etologia (estudo do comportamento animal) e da psicologia comportamental moderna. Nesta obra, Darwin defende que as expressões emocionais são inatas e universais, servindo como evidência da continuidade evolutiva entre seres humanos e outras espécies.

Entre 1830-40, especulando sobre as espécies já conhecidas, e as que iam sendo originadas e descobertas, surgia-lhe a ideia da evolução e da seleção natural como o mecanismo da evolução biológica. A Teoria da Evolução enfatizava a variação hereditária como a matéria-prima sobre a qual a seleção natural opera e, portanto, destacava a significância biológica das diferenças individuais porque o Homo sapiens não teria evoluído sem a existência da variação individual. Entretanto, receoso em divulgá-la amplamente, pelo impacto que esta poderia suscitar, Darwin preferiu discuti-la, somente, com alguns poucos privilegiados. Treze meses rascunhando o que viria a ser a famosa obra, a qual só conheceria o lume em novembro de 1859. Congregando um conjunto de evidências e sólidas argumentações, que comprovavam suas afirmações, estas constituíram uma “dinamite intelectual”, ou seja, a de que a natureza poderia operar sem necessitar de qualquer intervenção divina. Imediatamente à tomada de conhecimento dela, centenas de comentários, hostis e favoráveis, começaram a ser tecidos. Até que, na pena de um antigo amigo, Darwin viria a ler as mais duras palavras que até então lhe foram dedicadas, “Li seu livro com mais dor do que prazer… algumas partes li com profunda tristeza, pois, achei-as falsas e extremamente danosas”. Outro, não menos decepcionante, viria a chamar-lhe a seleção natural de “a lei da confusão-bagunça”, e outros, mais cruéis, imputaram-lhe a afirmação pejorativa de que o homem descendia dos macacos, afirmação esta que ele jamais fizera.

Entretanto, reações positivas logo viriam a reanimá-lo, dos que, acreditando, comunicavam-lhe que suas ideias viriam a revolucionar a ciência, “A ideia de seleção natural tem a característica comum a todas as verdades universais: clarificando o que estava obscuro e simplificando o que estava intrincado, colocá-lo irá como o maior cientista deste século, senão de todos”. Mas, a todas as críticas recebidas, fossem boas ou más, Darwin não recuou em afirmar que “Eu não posso pensar que se a teoria fosse falsa, ela pudesse explicar tanto os fatos, como ela o faz”. Nunca afirmando nada acerca da origem da vida, o cientista conseguiu preservar-se da ideia religiosa de criação divina do mundo. Mas, a partir daquela data, tinha consciência de que permitirá à Natureza seguir a ordem que, em sua teoria, ele tinha ordenado.

Com seis edições, e traduzida para onze línguas, ainda no período vitalício de seu autor, tal obra nunca deixou de ser, constantemente, reimpressa. E, em apenas uma década, a teoria darwiniana já prevalecia, com poucos cientistas ainda refutando suas afirmações, e isto se deveu não porque a teoria estivesse em voga, mas, sim, porque a evidência era abundante e imediatamente condizente com a teoria geral. Assim, em poucos anos após sua publicação, a quase totalidade da comunidade científica já aceitava a teoria da evolução como a da origem das espécies. Não se limitando a apenas uma alteração de paradigmas, tal teoria constitui-se numa verdadeira mudança de pensamento da humanidade. Hoje, ao referenciar Darwin, muitos são os cientistas que o identificam como o único filósofo causador da maior revolução no pensamento humano em apenas ¼ de século. Em adição, ele nos legou novas concepções do mundo da vida e uma teoria que é, por si própria, um instrumento poderoso de pesquisa. Até hoje ele nos mostra como combinar, num todo consistente, os fatos acumulados por todas as classes separadas de trabalhadores, revolucionando, portanto, o estudo global da natureza. Na atualidade, entretanto, a despeito da robustez adquirida por suas concepções, alguns segmentos sociais ainda insistem em contestar as premissas básicas de sua teoria da evolução e seleção natural. Para estes é preciso recordar que o pior mal que fazem ao intelecto é não discutir, em profundidade, quaisquer que sejam as implicações sociais, culturais, filosóficas, teológicas, psicológicas e biológicas, não só desta, mas de qualquer outra teoria. Ideia perigosa que foi, continua sendo e será sempre perigosa.

Professor Titular Sênior da USP-RP*

 

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