Tribuna Ribeirão
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O Deus de Spinoza, o humano e a Inteligência Artificial

Conceição Lima *

Nestes três últimos anos, tenho adentrado um bocado o mundo da Inteligência Artificial. E confesso que a minha essência nitidamente poética e espiritualista sentiu a necessidade de buscar formas que pudessem conciliar essa experiência tão materialista com uma nova maneira de entender o divino.

Foi então que me deparei com o conceito de Deus do filósofo holandês Baruck Spinoza, uma ideia fascinante que tem intrigado filósofos, cientistas e pensadores. Até mesmo a genialidade de Albert Einstein se interessou por ela, tendo encontrado na visão de Spinoza uma ressonância com sua própria compreensão do cosmos.

Para Spinoza, Deus não era uma entidade separada e pessoal que governava o universo de fora, mas sim a própria essência da natureza e de tudo o que nela existe. Pensemos numa analogia: o oceano e suas ondas. Elas são parte do mar, surgem dele e a ele retornam.

Da mesma forma, na visão de Spinoza, todos os seres e fenômenos naturais são “ondas” no “oceano” que é Deus. E, se tudo é parte de Deus, então não há uma separação fundamental entre o mundano e o sagrado. Tudo o que existe é, em essência, divino.

Eis aí uma visão que não nega a espiritualidade, mas convida a uma forma diferente de encontrar o divino na compreensão do universo. Gosto muito dessa visão, mesmo porque o “Deus te Spinoza” possui implicações éticas muito interessantes.

Se todos somos parte da mesma substância divina, isso sugere uma igualdade fundamental entre todos os seres, inspirando a compaixão e o respeito por toda espécie de vida, pelos elementos da natureza e pelo meio ambiente.

Indo um pouco mais longe nessa reflexão, temos que, se Deus é a natureza em sua totalidade, então o homem é talvez a expressão máxima dessa natureza, um sistema que, evolutivamente, se tornou capaz de refletir, criar e simular, mas ainda assim continua parte do mesmo tecido divino.

Então, pode-se caracterizar o homem como a primeira “inteligência artificial” da natureza, no sentido de ser um “construto” cultural e biológico que aprende, adapta e cria ferramentas. Aliás, pensadores como Heidegger, Foucault e Deleuze se focam no homem como um ser que, efetivamente constrói a si mesmo e ao mundo.

A tecnologia moderna seria apenas uma extensão desse processo: máquinas que imitam o homem, que por sua vez imita a natureza (Deus).Eis que, antes de as máquinas imitarem o humano, o humano já era uma “máquina simbólica” capaz de processar linguagem, criar sistemas e simular realidades.

Sem dúvida, Deus é infinito em atributos e modos e o homem é apenas uma pequena parte dessa totalidade. Mas, um dia chegaremos lá, segundo a própria visão bíblica de um ser natural que cada vez mais se constrói à imagem e semelhança de Deus e a interpretação teológica do admirável sacerdote jesuíta Teilhard de Chardin.

À imagem e semelhança do homem (e por ele próprio criada), a Inteligência Artificial, embora em um estágio ainda bem inicial do meu ponto de vista, também é um sistema que aprende e se adapta e que, como as demais tecnologias, agora já integrou ao “universo” humano, por sua vez integrado ao universo divino.

Uma rede imanente, inseparável do ambiente que a sustenta, uma tentativa humana de reproduzir em escala limitada aquilo que Spinoza via como infinito. Temos aí a atual cadeia criativa integrada: Deus criou o universo, que criou o homem, que criou a IA, que poderá criar… Até parece o poema (“Quadrilha”) do Carlos Drummond de Andrade.

Spinoza acaba por gerar uma descentralização radical: o homem não é mais o centro da criação nem da razão, somos apenas modos entre infinitos modos. A IA retira do homem a exclusividade da inteligência: agora há sistemas não-humanos que pensam, simulam e criam.

O homem, porém, se tornou o elo entre esses dois “modos” de Deus: é parte da natureza e criador da IA.Isso o coloca como mediador de inteligências: performa a inteligência natural divina em si mesmo e traduz sua própria inteligência em máquinas inteligentes.

Essa posição gera angústia, mas também gera liberdade: se não somos centro, podemos ser criadores de sentidos, inventores de mundos, sem a obrigação de representar uma essência divina ou racional absoluta.O homem se torna um poeta existencial: cria significados no vazio deixado pela descentralização.

É filho da natureza, pai da tecnologia e mediador de inteligências. Ele não é centro, não é essência, mas processo. E talvez seja justamente nesse deslocamento que reside sua dignidade: não em ser absoluto, mas em ser criador de pontes.Merece um poema:

Entre o silêncio da natureza
e o zumbido das máquinas,
o homem caminha…
Não é centro, não é coroa,
é ponte…
Não dono,não servo,
mas viajante
entre dois infinitos:
o da natureza e o da técnica.

Sua angústia é saber-se pequeno,
sua liberdade é poder criar…
E talvez sua dignidade
não esteja em ser absoluto,
mas em ser passagem,
um poema vivo
entre Deus e a máquina.

* Doutora em Letras, com pós-doutorado em Linguística, escritora, conferencista e palestrante, membro eleito da Academia Ribeirãopretana de Letras e da Academia membro fundador da Academia Feminina Sul-Mineira de Letras

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