Tribuna Ribeirão
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Canários-da-terra

Rui Flávio Chúfalo Guião *
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Durante nosso café da manhã, na varanda em frente ao quintal de casa, somos muitas vezes acompanhados por um casal de canário-da-terra, que se apoleira no comedouro com alpiste e faz também sua primeira refeição do dia.

São ariscos, o que nos obriga a prolongar o café-da-manhã em silencio e imóveis, pois a qualquer barulho, voam rapidamente.

Para quem, em criança, tinha grande viveiro com pássaros variados, é muito gostoso apreciar os canários em liberdade, vindo nos agraciar com suas cores vibrantes e seu canto estridente.

Sempre me intrigou saber o porquê de seu nome. Pesquisando, descobri que desde o início da colonização do país, no século XVI, os portugueses se encantavam com a diversidade de aves na nova terra e lhes davam nomes populares, pois somente muito mais tarde expedições científicas classificaram a nossa fauna.

Assim, um pássaro amarelo fulgurante era muito parecido com o canário existente na Europa. Para diferenciá-lo, os usos e costumes acrescentaram um – da-terra, nome que, até hoje, denomina o belo passarinho brasileiro.

Partilhamos com os demais países latino americanos, exceto o Chile, a incidência dessa ave, cujos machos têm um pequeno penacho vermelho e penas amarelo-limão, com pequenos traços cinzas, nas asas. A fêmea tem a mesma cor, porém mais suave, sem penacho.

Apesar de sua aparência pacífica, o canário-da-terra é briguento, luta pela fêmea, que incentiva esta contenda. Antigamente, era usado em rinhas de canários, prática hoje combatida e abandonada.

Nidifica em ninhos vazios de joão-de-barro, pequenos buracos em muros e a fêmea pode chocar até quatro vezes por ano, dando uma ninhada total de perto de vinte filhotes. Estes nascem sem a cor característica, que só aparece após nove meses do nascimento.

Os canários-da-terra alimentam-se de sementes, gostam muito de alpiste e também comem pequenos insetos.

Temos notado recentemente um aumento da população do canário-da-terra, ao mesmo tempo que desaparecem os pardais. Uma explicação para isto pode ter vários componentes. O pardal não é originário do Brasil, tendo sido introduzido pelos colonizadores. Os pássaros introduzidos são mais sensíveis às mudanças ecológicas do que os nativos. O pardal é um pássaro eminentemente urbano e as cidades não têm privilegiado a existência de grandes quintais, bem como a produção de restos alimentícios que os alimentam. Por orientação de saúde, os lixos são armazenados em sacos plásticos, dificultando o acesso. Também é insetívoro e o uso continuado de defensivos agrícolas tem diminuído a oferta desta comida.

Ao contrário, o canário-da-terra se alimenta de sementes, que podem ser encontradas abundantemente em áreas urbanas e rurais.

Existindo no nosso país desde antes do descobrimento, o canário-da-terra é objeto de várias crenças. É mensageiro de boas novas, quando ele canta vai chegar visita ou notícia boa. Sua cor amarela é sinônimo de riqueza, assim, sua presença é sinal de boa colheita. Só se alimenta de sementes que caem das plantas, nunca comendo as mesmas no pé, assim é um companheiro da lavoura.

No grande livro da vida, que só os mais simples podem ler, o seu canto é indicativo do que vai ocorrer na natureza. Se é intenso e contínuo, tempo firme. Se é curto e espaçado, chuva próxima.

Para mim, a presença do casalzinho de canário-da-terra traz a alegria de um bom começo do dia.

* Advogado e empresário, é presidente do Conselho da Santa Emília Automóveis e Motos e secretário-geral da Academia Ribeirãopretana de Letras

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