Por Hugo Luque
O Botafogo fez sua melhor campanha no Campeonato Paulista desde 2022. Ainda assim, o sentimento de frustração da torcida, do elenco e da comissão técnica parece maior do que em temporadas marcadas por luta contra o rebaixamento, como as duas anteriores.
O Pantera só dependia de si mesmo para voltar ao mata-mata pela primeira vez desde 2023. Mesmo com um aproveitamento melhor do que naquele ano, o time perdeu em casa para o Capivariano por 1 a 0, no último fim de semana, e ficou novamente de fora das fases mais agudas da competição. O adversário, por sua vez, garantiu a classificação pela primeira vez na história.
A palavra da vez, como ficou claro no discurso do técnico Claudio Tencati, é “frustração”. A equipe terminou a primeira fase na décima posição, com 11 pontos em oito jogos (aproveitamento de 45,8%). Nos dois anos anteriores, marcados pela luta contra o rebaixamento até o final, o time teve apenas 30,5% (2025) e 33,3% (2024).
Já na última vez que chegou às quartas de final – acabou eliminado pelo Red Bull Bragantino –, o Tricolor somou 38,8% dos pontos disputados durante a fase inicial. Em 2022, ano em que parou no estágio inicial como o melhor clube não classificado às eliminatórias, por conta do formato com grupos, a marca alcançada foi de 50%.
“É frustrante da nossa parte. É duro, uma derrota pesada, porque você cria uma expectativa. A gente conseguiu fazer mais do que se imaginou para chegar com chances e só dependendo de nós. É frustrante porque, quando você depende de si e não consegue executar, é uma frustração grande”, afirmou o comandante.
Montanha-russa
A trajetória do Botafogo foi repleta de altos e baixos neste pouco mais de um mês de Paulistão. Com um calendário apertado, houve pouco tempo para a nova comissão técnica se adaptar e desenvolver o entrosamento entre os atletas, muitos deles também recém-chegados em meio a um processo de reformulação no Estádio Santa Cruz/Arena Nicnet.
O começo não foi animador: empates com Velo Clube e Noroeste. O segundo foi classificado por Tencati como o principal tropeço do início do torneio, o que se provou verdade no fim, já que o gol da igualdade foi sofrido no fim e os dois pontos desperdiçados em casa fizeram falta. Na sequência, uma goleada por 5 a 0 sofrida para o Red Bull Bragantino. A chave virou na quarta rodada, com a vitória por 1 a 0 sobre o Primavera.

Após mais um revés, a briga parecia mesmo ser novamente contra a Série A2. Todavia, um triunfo surpreendente sobre o Palmeiras, o primeiro diante do adversário paulistano em 12 anos, e outro resultado positivo contra o Guarani, em Campinas (SP), colocaram o conjunto ribeirão-pretano na zona de classificação. Bastava uma vitória em casa sobre o Capivariano, o que não aconteceu.
“Ficamos bem chateados, porque trabalhamos muito para conseguir essa classificação. Primeiramente, a gente agradece o apoio da torcida, não faltou apoio deles fora de campo”, disse o meio-campista Morelli, um dos contratados ao fim da última temporada e peça importante no plantel.
“A gente veio para uma competição extremamente difícil. O clube passou, mais uma vez, por uma reestruturação interna, tanto de membros da comissão como jogadores. Quando você troca muito o elenco, mesmo tendo mantido uma base, até adaptar [demora]”, acrescentou Tencati.
Mais uma vez, o comandante deixou claro que a frustração é grande. A ênfase neste termo específico deixa claro que o profissional busca entender o sentimento da torcida, que vaiou os atletas na última descida das escadas rumo ao vestiário nesta edição do estadual.
“O torcedor está com o sentimento dividido, na minha opinião. Não posso falar do torcedor, porque a gente criou essa expectativa. Até para nós mesmos é frustrante. Se nós, que somos do ramo e vivemos isso, temos uma frustração grande, imagina o torcedor, que é mais emotivo, vem para torcer e é a paixão dele.”
“Quando a gente ganha e vai bem, o aplauso vem. Quando não acontece, a vaia vem e foi o que disse para os jogadores: temos de permanecer unidos e focados num objetivo. A vaia vai vir, o grito de ruindade, mas a gente tem de seguir e respeitar o torcedor, que é um patrimônio do clube. Temos de saber que o torcedor é pelo momento da equipe. Neste momento, ele está frustrado assim como nós”, analisou.
Hora da mudança
Desde que assumiu o comando técnico do Botafogo, Claudio Tencati reforça a necessidade de ter tempo para trabalhar a fim de conseguir desenvolver da melhor forma possível seu trabalho. No Paulista, o relógio não ajudou.
Durante a primeira metade da fase inicial, os jogos a cada três dias eram regra, o que pode explicar o início lento de competição do Tricolor. Porém, quando as semanas passaram a ficar “cheias” para treinamentos por conta do início da Série A do Brasileiro, o rendimento melhorou.
Agora, o Pantera terá um mês de intertemporada pela frente. Além de ter o desafio de transformar o plantel em uma unidade, o treinador também busca incorporar novos nomes ao grupo, como o lateral-esquerdo Felipe Reis, contratado na última semana junto ao Vitória, e o zagueiro Wallace, que chegou em janeiro, mas ainda não estreou.

“Nós não conseguimos nem fazer a estreia de alguns atletas, como o Wallace, que chegou com um problema na panturrilha já vindo da Ponte Preta. Agora, está melhor, mas é só para o Brasileiro que entra em igualdade para brigar por espaço. A gente sofreu muito com isso e com as ausências”, lamentou Tencati.
Agora, o foco é no nacional. Primeiro, a busca é para, mais uma vez, evitar a queda. Entretanto, com um técnico que já subiu à elite quando comandava o Criciúma e um novo regulamento, 2026 pode terminar de forma mais animada para o torcedor botafoguense.
Pela primeira vez na história da Série B de pontos corridos, um “playoff” será realizado após as 38 rodadas convencionais. Os dois primeiros colocados sobem direto para a Série A, mas a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) vai promover um breve mata-mata: o terceiro enfrenta o sexto e o quarto enfrenta o quinto. Os vencedores sobem.
“O futebol é isso, nos prega peças, a gente com um a mais teve bastante volume [contra o Capivariano], a gente tinha de se jogar para fazer o gol, mas o futebol é isso. (…) Temos uma intertemporada para pensar na Série B, são mais 38 rodadas para a gente conseguir o objetivo principal deste ano”, completou Morelli.
A estreia do Botafogo na Série B está programada para o fim de semana de 21 de março, no Estádio Santa Cruz/Arena Nicnet, contra o Fortaleza. A fase de pontos corridos da competição está prevista para terminar em novembro.

