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Pobreza desde o berço

Reprodução / Getty Images

A pobreza não começa a produzir efeitos apenas na adolescência ou na vida adulta. Ela já se manifesta nos primeiros meses de vida. Estudo recente publicado em revista científica internacional, com acompanhamento de bebês no interior paulista, identificou que, aos seis meses, crianças que vivem em condições socioeconômicas mais vulneráveis apresentam repertório motor reduzido, com atrasos para sentar, rolar e manipular objetos. O dado reforça um alerta que organismos internacionais como o Unicef e a Organização Mundial da Saúde vêm reiterando há anos: a desigualdade compromete o desenvolvimento infantil desde o berço.

O impacto não se limita ao campo motor. Pesquisas consolidadas na área de neurodesenvolvimento indicam que os primeiros mil dias de vida são decisivos para a formação de conexões cerebrais relacionadas à aprendizagem, atenção e regulação emocional. O próprio Unicef estima que centenas de milhões de crianças no mundo vivem em situação de pobreza, expostas a privações que afetam saúde, nutrição, estímulos cognitivos e vínculos afetivos. No Brasil, dados do IBGE mostram que a pobreza atinge de forma mais intensa lares com crianças pequenas, ampliando o risco de ciclos intergeracionais de exclusão.

O estudo brasileiro traz, contudo, um dado relevante: os atrasos motores identificados podem ser revertidos com estímulos simples e acessíveis. Práticas como colocar o bebê de bruços sob supervisão, conversar, cantar, oferecer objetos simples para exploração sensorial e permitir maior tempo no chão mostraram impacto positivo em curto prazo. A constatação dialoga com diretrizes do Ministério da Saúde e da Estratégia Saúde da Família, que defendem a orientação precoce às famílias como ferramenta essencial de promoção do desenvolvimento infantil.

Ainda assim, a realidade expõe fragilidades estruturais. Bebês em contextos mais pobres tendem a permanecer mais tempo contidos em carrinhos ou espaços limitados, muitas vezes por falta de ambiente seguro ou por sobrecarga dos responsáveis. Dados oficiais apontam que famílias chefiadas por mães solo e com menor escolaridade enfrentam maiores dificuldades de acesso a informação e apoio. A ausência de políticas integradas de visita domiciliar, acompanhamento multiprofissional e apoio à parentalidade fragiliza justamente quem mais precisa.

A evidência científica é clara: pobreza não é apenas ausência de renda, é privação de oportunidades desde os primeiros meses de vida. Se o país pretende romper ciclos de desigualdade, precisa investir de forma consistente na primeira infância — com políticas públicas que articulem saúde, assistência social e educação. O custo da omissão aparece anos depois, na evasão escolar, na baixa qualificação profissional e na perpetuação das desigualdades. O desenvolvimento infantil não pode ser tratado como responsabilidade exclusiva das famílias; é um indicador direto do compromisso de uma sociedade com seu próprio futuro.

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