Por: Adalberto Luque
A Quaresma, período de 40 dias que antecede a celebração da Páscoa no calendário cristão, é tradicionalmente associada a práticas de penitência, jejum e caridade. A Quarta-feira de Cinzas marca o início desse tempo litúrgico, que se estende até a Quinta-feira Santa, em referência simbólica aos 40 dias de jejum de Jesus no deserto, narrados nos Evangelhos, e a outros períodos de preparação presentes na tradição bíblica, como os 40 anos do povo hebreu no deserto e os 40 dias de Moisés no Monte Sinai.
Desde os primeiros séculos do cristianismo, a Quaresma foi compreendida como período de preparação espiritual para a Páscoa, especialmente para catecúmenos que se preparavam para o batismo e para fiéis em busca de reconciliação e conversão. Ao longo da história, esse tempo litúrgico foi estruturado como momento de reflexão, penitência e fortalecimento da vida religiosa.
Os chamados sacrifícios quaresmais surgiram como práticas voluntárias de renúncia e disciplina espiritual, voltadas à conversão pessoal, à reflexão interior e ao aprofundamento da fé.
Origens do jejum e da penitência
As primeiras comunidades cristãs herdaram do judaísmo a prática do jejum como sinal de arrependimento e busca de aproximação com Deus. Documentos cristãos antigos, como a Didaquê, já mencionavam dias específicos de jejum, indicando que a disciplina corporal fazia parte da vida religiosa dos fiéis.
Com o passar dos séculos, a Igreja estruturou normas para o período quaresmal, estabelecendo dias de jejum e abstinência, sobretudo em relação ao consumo de carne. No período medieval, o jejum assumiu caráter rigoroso em diversas regiões, com restrições também a laticínios, ovos e outros alimentos, além de práticas penitenciais como peregrinações, esmolas e orações.
Sentido teológico
Na teologia cristã, os sacrifícios quaresmais são compreendidos como exercícios de conversão interior, inspirados nos três pilares tradicionais da Quaresma: oração, jejum e esmola. A renúncia voluntária a hábitos e confortos cotidianos é interpretada como meio de disciplinar a vontade, fortalecer a vida espiritual e promover solidariedade.
O jejum não se limita à privação alimentar, mas inclui moderação no consumo, sobriedade no uso de bens materiais e disposição para partilhar recursos. A esmola é entendida como expressão concreta de caridade, enquanto a intensificação da oração busca aprofundar a relação com o sagrado.
Práticas tradicionais
Entre as práticas mais difundidas estão o jejum e a abstinência de carne, especialmente na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa. A renúncia a alimentos considerados prazerosos, como carnes, doces e bebidas alcoólicas, tornou-se comum em diversas culturas.
Outras práticas incluem participação mais frequente em celebrações religiosas, leitura do Evangelho, confissão e engajamento em obras de caridade. Em algumas regiões, também se difundiram penitências pessoais, como silêncio em determinados períodos, limitação de entretenimento e aumento do tempo dedicado à oração.
Adaptações ao longo dos séculos
As normas canônicas relativas ao jejum e à abstinência foram sendo adaptadas, especialmente a partir do século XX, com reformas litúrgicas e pastorais que buscaram adequar a disciplina às realidades contemporâneas. O Concílio Vaticano II reforçou o sentido espiritual da Quaresma, enfatizando a conversão interior e a caridade.
Atualmente, a Igreja Católica mantém a obrigatoriedade do jejum e da abstinência em dias específicos, mas permite que os fiéis escolham outras formas de penitência conforme suas circunstâncias pessoais. Outras denominações cristãs também observam o período quaresmal, ainda que com práticas distintas.
O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2043, afirma que o jejum prepara o cristão para vivenciar as festas litúrgicas e contribui para o domínio dos instintos, sendo uma prática espiritual de privação voluntária de alimentos com o objetivo de cultivar disciplina interior e buscar maior união com Deus.
Sacrifícios nos tempos atuais
Nos tempos atuais, os sacrifícios quaresmais assumiram formas diversificadas, refletindo mudanças sociais, tecnológicas e culturais. Além da abstinência alimentar, há fiéis que optam por renunciar ao uso de redes sociais, televisão, jogos eletrônicos, compras supérfluas e outras formas de entretenimento.

Também se difundiram iniciativas sociais, como arrecadação de alimentos, doações financeiras, voluntariado e ações comunitárias voltadas a populações vulneráveis. Em vários países, a Quaresma é associada a campanhas oficiais de solidariedade promovidas por conferências episcopais.
No campo espiritual, práticas como retiros, leituras bíblicas diárias, meditação, recitação do terço e participação em vias-sacras continuam sendo incentivadas. A intensificação da vida sacramental, por meio da confissão e da participação na Eucaristia, também é apontada como elemento central do período. Em muitas igrejas, é celebrada a Missa da Penitência, geralmente no final da madrugada.
Dimensão cultural e social
Além do aspecto religioso, a Quaresma influencia costumes culturais, especialmente em países de tradição cristã. A restrição ao consumo de carne contribuiu historicamente para o desenvolvimento de pratos típicos à base de peixes, frutos do mar e vegetais, que se tornaram parte da identidade culinária de diferentes povos.
O período também impacta o calendário de festas populares, como o Carnaval, que antecede a Quaresma e, em sua origem, estava ligado à ideia de despedida dos excessos antes do tempo de penitência.
Desafios contemporâneos
Apesar das transformações sociais e da pluralização religiosa, a Quaresma e os sacrifícios quaresmais continuam presentes na vida de milhões de cristãos. A renúncia voluntária permanece como elemento simbólico de preparação para a Páscoa, associada à busca de renovação pessoal e compromisso com valores espirituais e sociais.

Líderes religiosos também destacam a necessidade de que as práticas quaresmais se traduzam em atitudes concretas de justiça, solidariedade e cuidado com o próximo, ampliando a reflexão sobre estilo de vida, consumo e responsabilidade comunitária.
Campanha da Fraternidade
No Brasil, a Quaresma é marcada pela Campanha da Fraternidade, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) desde 1964. Realizada anualmente, a campanha propõe um tema e um lema voltados a questões sociais, ambientais, culturais ou eclesiais, com o objetivo de estimular reflexão e ação solidária.
A iniciativa está associada à Coleta Nacional da Solidariedade, realizada no Domingo de Ramos, com recursos destinados a projetos sociais por meio do Fundo Nacional de Solidariedade e dos fundos diocesanos. A campanha envolve paróquias, comunidades, escolas e organizações ligadas à Igreja Católica.
Na edição de 2026, a Campanha da Fraternidade tem como tema “Fraternidade e Moradia” e lema “Ele veio morar entre nós”, com enfoque no direito à moradia digna e nas condições de habitação no país. O objetivo é sensibilizar a sociedade para o déficit habitacional e defender a moradia como direito humano fundamental.
Oração
A funcionária pública do Judiciário Karina Morais de Oliveira Caldeira fará o rosário três vezes na semana acompanhando o Frei Gilson, do Ministério Som do Monte, através do YouTube. Em outros dois dias da semana pretende rezar o terço convencional.

Karina também fez o jejum da carne em algumas quaresmas anteriores e já rezou o Rosário, mas na Quaresma deste ano optou por fazer mais orações.
“Faço em agradecimento por todos os benefícios e peço pela minha família em especial para direção de caminho para minha filha”, conclui Karina.
Sacrifício
A funcionária pública municipal Rosangela Fernandes decidiu não ingerir refrigerantes durante o período da Quaresma. Ela sabe que não será um sacrifício fácil, mas vai se dedicar a cumpri-lo.

Rosângela se dedica a sacrifícios, orações e doações durante a Quaresma e faz isso há vários anos. Já praticou outros jejuns, como a penitência do chocolate. “Quaresma é um tempo de entrega e reflexão”, observa.
Menos redes sociais
A empregada doméstica Vanda Siqueira dos Santos sabe que terá um grande desafio pela frente. “Minha penitência nesta quaresma será trocar as redes sociais e jogos online pela Oração. Pretendo diminuir o tempo nos aplicativos e rezar o Terço com mais frequência”, acrescenta.
Ela entende que passa muito tempo online e acaba, algumas vezes, deixando de fazer coisas realmente importantes. Vanda pratica caridade e jejum já há alguns anos.

“Aprendi a Jejuar pelo menos na quarta-feira de cinzas e sexta-feira Santa com minha família que é católica. Gosto muito de ajudar as pessoas, sempre me disponho a ajudar alguém quando precisa. Entendo que Caridade não é doar o que te sobra e sim dividir o pouco que se tem”, ensina.
Vanda admite tem coisas que começou a fazer como sacrifício na Quaresma e que acabou incorporando. “Hoje em dia levo pra vida com tranquilidade”, encerra.
Campanha da Fraternidade
A Arquidiocese de Ribeirão Preto lançou, na manhã da Quarta-feira de Cinzas, 18 de fevereiro, a Campanha da Fraternidade 2026, com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). A coletiva ocorreu na Residência Arquiepiscopal, com a presença do arcebispo metropolitano Dom Moacir Silva, do coordenador da Equipe de Campanhas, padre André Luiz Massaro, do diácono Francisco Alves Ferreira Neto e da Cáritas Arquidiocesana.
Dom Moacir destacou que a campanha tem como objetivo geral promover, a partir da Boa-Nova do Reino de Deus e em espírito de conversão quaresmal, a moradia digna como prioridade e direito, junto aos demais bens e serviços essenciais à população. Segundo ele, o tema revela que o problema da moradia ainda é um desafio no país e que a iniciativa busca estimular reflexão e ação.

“O que orienta sempre a Campanha da Fraternidade é o chamado texto-base. É o texto mais importante da campanha, porque é onde ele aborda a profunda temática”, observou Dom Moacir.
O arcebispo explicou que o texto-base da campanha está estruturado em três partes: ver, julgar e agir. A segunda parte é orientada pelo lema bíblico e pela Sagrada Escritura, pela Doutrina Social da Igreja e por ensinamentos de pontífices. Ele afirmou que a reflexão busca indicar caminhos para enfrentar o déficit habitacional, citando que mais de seis milhões de pessoas no Brasil não têm moradia.
Na terceira parte, Dom Moacir ressaltou as propostas concretas de ação comunitária e eclesial, inclusive no âmbito político, e manifestou o desejo de que o texto-base seja discutido nas câmaras municipais dos 20 municípios da arquidiocese. O arcebispo também afirmou que sonha com a reestruturação da Pastoral da Moradia na Arquidiocese de Ribeirão Preto.

