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Psicologia da Vida Cotidiana (26): Deus por um dia

José Aparecido Da Silva*

 

Com o passar dos anos, não raro, percebemo-nos megalomaníacos. Ora imaginamo-nos Presidente da República deste gigante Brasil, ora dos Estados Unidos, a mais poderosa nação do mundo. Em outros momentos, imaginamo-nos sendo Pelé, o atleta do século; Maradona, a mão de Deus e Cristiano Ronaldo, ainda um dos melhores jogadores do mundo. Ainda incansável. Há também os dias em que imaginamo-nos ganhando na megasena; fazendo hospitais; ou sendo o mais pobre homem do mundo. Por quê? Porque, de fato, dinheiro não compra felicidade, o que até as pesquisas da área indicam.

Não faz muito tempo, imaginei-me sendo um Papa, para o qual até nome arranjei: Francisco José I. Carismático, como João Paulo II e mais bondoso que João XXIII. E, como tal, tomava atitudes corajosas, como a doação de toda a riqueza acumulada pela igreja aos pobres dos quatro quadrantes do mundo, assim como, o SUS e o Minha Casa, Minha Vida às nações que carecem de atendimento básico e moradia como os nossos. Mas, contando este sonho a um amigo filósofo, não tardou para que dele eu ouvisse a seguinte ironia: “Ora, José, ser um Papa? Não seria melhor ser Deus?”. Surpreendentemente, eis que, no dia seguinte, sonhei que eu era Deus por um dia. O que pensei em fazer, então? Com todo este poder, possibilitar a cura do câncer. Eliminar a ocorrência do Alzheimer e do Parkinson em todas as raças. Por fim às todas as formas de discriminação, estereótipos, desigualdades e maldades sociais, raciais, étnicas e religiosas. Extinguir as guerras e violências de todo tipo. Findar a fome que assola o belo continente africano. Mas… enquanto Deus…ainda seria pouco.

Eliminar as consequências das desigualdades não podia ficar de fora. Demitir todos os políticos que fizessem mau uso dos recursos públicos os quais, muitos deles, só pensam num programa de enriquecimento pessoal e familiar rápido, e a maioria há muito já perdeu sua razão de existir. Conceder ao cidadão a Educação merecida, o trabalho digno, o pão na mesa, a felicidade eterna. Fortaleceria a fauna e flora de todo o mundo em conjunto ao ócio criativo. Eliminaria o dinheiro da face da terra, substituindo-o pela meritocracia honesta, considerando especialmente as diferenças individuais. Dissolveria as catástrofes da natureza. Faria, portanto, tudo que fosse perfeito, de forma que todos os anseios da população mundial pudessem ser atendidos. Mas, pergunto: ainda assim, teríamos um mundo perfeito? Atrevo-me a dizer que não. Num passado muito distante, a Humanidade resumia-se a Adão e Eva e a Abel e Caim, lembram-se? Eva traiu Adão, comendo o fruto proibido, a maçã ofertada pela serpente. Caim matou Abel motivado pelos ciúmes que sentia do tratamento que este recebia de Deus. A violência, portanto, era de 25%. Eu poderia intervir neste passado? Não. Também não poderia intervir no presente, com as pessoas se corrompendo de acordo com o meio em que vivem. Logo, para que servia meu poder como Deus?

Na verdade, a teoria que defendo sustenta a noção de que a inteligência geral tem um papel significativo nas sociedades modernas. De acordo com ela, são as diferenças na inteligência as responsáveis pelas diferenças do sucesso econômico, educacional e profissional, assim como, pelas diferenças nas desigualdades sociais, nos cuidados com a própria saúde, nas políticas públicas, nas escolhas dos dirigentes municipais, estaduais e federais, na prevenção de acidentes e catástrofes, mesmo os naturais, entre outros.

Portanto, se considero a inteligência detentora de papel fundamental na contemporaneidade, bem como, que poderia ser Deus por apenas um dia, decretaria que todo governo seria obrigado a fomentar a inteligência dos seus cidadãos. Só não me perguntem como. Oh, quase ia me esquecendo: não permitiria que a gratidão e a esperança não morressem, nunca. Talvez nem Deus tenha a resposta.

Professor Titular Sênior-USP-RP*

 

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