Rosemary Conceição dos Santos*
De acordo com especialistas, David Sánchez Juliao (1945-2011) é um escritor colombiano que deixou para o mundo da literatura um importante repertório de narrativas registradas em sua própria voz. Algumas de suas obras mais conhecidas incluem “El Flecha”, “Cachaco, paloma y gato”, “Abraham al humor” e “El Pachanga”. Nessas histórias, ele narra com enorme talento verbal, de forma tão dramática quanto humorística, situações que evocam os modos de falar, agir, pensar e ser das pessoas não apenas de Lorica (sua cidade natal, Departamento César, Colômbia), mas de uma região muito mais ampla: a costa caribenha. Profundo conhecedor do legado verbal e cultural que a tradição migratória contribui para o cotidiano de sua terra natal e do Caribe, não apenas a interpreta com sua própria voz, mas também escreve sobre ela, criando literatura a partir dela e empregando centenas de expressões e idiomas característicos dessa tradição migratória em suas narrativas. É notável que sua narrativa (inspirada na fala dos caribenhos) também reflita as diferenças entre o “cachaco” (pessoa de Bogotá) e o “costeño” (pessoa do litoral). Dessa forma, adquire um caráter que transcende as fronteiras caribenhas, em um processo no qual a hibridez se torna uma constante a ser considerada para compreender como ele narra as experiências caribenhas, que ele mesmo define como “uma mistura de branco, índio, negro, árabe; comemos arroz com tahine, quibe com peixe bocachico e tabule com milho”. A obra de Sánchez Juliao é nutrida por esse caráter multiétnico. Seus contos são um esboço da cultura popular caribenha, deixando a impressão de serem “transcrições” textuais da fala regional.
Sua obra abrange romances, contos, poemas, fábulas, roteiros para televisão, relatos de viagem e colunas de opinião. Seu livro, “Viajando pelo Mundo com David Sánchez Juliao”, é um guia de viagem maravilhoso para o México, Espanha, Venezuela, Estados Unidos, Egito, Índia e Antilhas Holandesas. Nele, ele descreve grande parte da vasta e rica diversidade cultural dessas nações. Comparando o ano de sua publicação (2011) com o período em que atuou como diplomata colombiano na Índia e no Egito, constatamos que sua carreira diplomática terminou por volta de 1995; dezesseis anos depois, ele escreveu este livro que, à luz do exposto, pode ser lido como um registro, refinado pelo passar do tempo, dessa experiência. Considerado o criador do gênero literário conhecido como literatura em cassete, que consiste em gravar o conteúdo de suas obras com sua própria voz: monólogos que encantaram um vasto público nacional e internacional: El Flecha, Abraham al humor, Fosforito e sua história “Por que você está me levando para o hospital de canoa, pai?” e El Pachanga, entre outros. Suas fontes de inspiração vêm de personagens e situações da vida real em Lorica. É o caso de El Flecha, um personagem criado a partir de um de seus amigos mais próximos, Gustavo Díaz Naar (a quem ele chamava de “sua chave sagrada”), um homem iluminado que “sempre usava calças esfarrapadas e remendadas, um suéter velho e sapatos com quatro buracos. Não parecia um ladrão comum, nem um mendigo qualquer”;
Ainda segundo especialistas, o autor aprendeu a ver a vida de uma maneira diferente, como uma espécie de “ritmo” que o caracterizava. O Mago da Oralidade, como era conhecido, ganhou inúmeros prêmios literários e discos de ouro e platina, e suas adaptações para o cinema e a televisão conquistaram 17 prêmios India Catalina no Festival de Cinema de Cartagena. Juião tinha formação em literatura, comunicação e sociologia, com doutorados pela Universidade Simón Bolívar e pela Universidade de Córdoba, com estudos em Cidoc (Cuernavaca, México), onde mais tarde trabalhou como professor. Tendo ganho diversos prêmios nacionais de contos, bem como prêmios por sua coletânea de contos, e o Prêmio Nacional de Romance Plaza y Janés por *Pero sigo siendo el rey* (Mas eu ainda sou o rei), este romance, assim como algumas de suas outras obras, foi adaptado para a televisão e transmitido em vários idiomas. Sua obra foi traduzida para 12 idiomas, e ele residiu em quatro continentes por motivos acadêmicos e diplomáticos. Foi professor visitante em universidades da América do Norte e do Sul, Europa, Ásia, África e Oceania, e atuou como embaixador da Colômbia na Índia e no Egito entre 1991 e 1995. Recebeu o Prêmio Internacional Dulcinea de 2000, concedido pela Associação Cervantes de Barcelona. A Fundação Livros e Letras concedeu-lhe o Prêmio Nacional de Literatura de 2003 pelo conjunto da obra.
Uma de suas obras mais conhecidas é *Histórias de Racamandaca*, que narra as dificuldades do povo da região de Sinú, sua fome, sua condição de camponeses sem-terra, a repressão e o descaso do Estado que sofrem, e suas lutas por dignidade, por meio de uma carta endereçada ao então Ministro da Agricultura, Hernán Vallejo Mejía, e assinada por um delegado dos habitantes de Chuchurubí chamado Julio Velázquez. Trata-se de um testemunho literário das margens da nação colombiana. É aqui que sua obra se cruza com a de Orlando Fals Borda, que a publicou pela Fundação Rosca juntamente com outros textos apresentados em panfletos ilustrados, peças teatrais, gravações e canções vallenato. Esses textos influenciaram o movimento camponês em Córdoba durante a década de 1970 e a fundação da ANUC (Associação Nacional de Usuários Camponeses). Faleceu em Bogotá, aos 65 anos de idade.
*Professora Universitária





