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Aumentam os pedidos de recuperação extrajudicial

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Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais comum acompanhar nos noticiários anúncios de empresas que ingressam com pedidos de recuperação judicial ou que negociam acordos de recuperação extrajudicial com seus credores. O maior número de casos, com expressivo crescimento em 2025, está no agronegócio.

Somente no mês de março deste ano, a Raízen, gigante da produção de etanol no Brasil e com vários negócios na região de Ribeirão Preto, entrou com pedido de recuperação extrajudicial, em meio às negociações com credores para reestruturar uma dívida estimada em R$ 65 bilhões.

Outro caso recente foi o do Grupo Pão de Açúcar, uma das redes mais tradicionais do varejo brasileiro. A companhia anunciou plano para renegociar R$ 4,5 bilhões em dívidas financeiras. Nesses dois casos, a decisão foi pela recuperação extrajudicial, em que a companhia negocia diretamente com parte de seus credores e, posteriormente, busca a homologação judicial do acordo.

Já na recuperação judicial tradicional, o processo não inclui todos os tipos de dívidas, ficando de fora, por exemplo, obrigações trabalhistas, salários, pagamentos a fornecedores e contratos.

Em entrevista ao Tribuna Ribeirão, o especialista em reestruturação empresarial e gestão de crise, André Rocha, falou sobre os motivos do aumento desses pedidos. Sócio-fundador da Triunfae, empresa de Ribeirão Preto especializada em reestruturação e gestão de crise, ele já atuou em mais de 70 casos dessa natureza e é autor do livro “O Combate à Fraude na Recuperação Judicial”, da editora Thomson Reuters.

 

Tribuna Ribeirão – Em sua avaliação, o aumento das recuperações judiciais sinaliza má gestão dos negócios ou fragilidade estrutural da economia?

André Rocha – É uma combinação dos dois, mas hoje há um componente estrutural muito claro. Com a taxa Selic próxima de 15% ao ano (hoje em torno de 14,75%), o custo da dívida ficou incompatível com a geração de caixa de muitas empresas, especialmente em um cenário de: queda de preços, custo elevado de insumos e margens comprimidas. Isso expõe fragilidades estruturais importantes como falta de gestão financeira, ausência de controle de caixa e margem, compras sem estratégia, baixa gestão de risco, crescimento alavancado sem disciplina.

 

Tribuna Ribeirão – Por que grandes grupos têm recorrido mais à recuperação judicial ou extrajudicial em vez de renegociações privadas?

André Rocha – Porque o problema deixou de ser simples. Os grandes grupos passaram a operar com uma estrutura de dívida muito mais sofisticada, envolvendo bancos e fornecedores. Isso cria um ambiente com muitos credores, interesses diferentes e conflitos entre dívidas que entram e não entram na recuperação. Na prática, a renegociação privada trava. A recuperação judicial ou extrajudicial passa a ser usada como um mecanismo para organizar essa complexidade e coordenar os credores.

“Com a taxa Selic próxima de 15% ao ano (hoje em torno de 14,75%), o custo da dívida ficou incompatível com a geração de caixa de muitas empresas”, comentou Rocha | Reprodução

Tribuna Ribeirão – Como o ambiente de juros altos e crédito restrito impacta diretamente essa escalada de pedidos?

André Rocha – Impacta diretamente no coração do problema: o caixa. Quando o juro sobe e o crédito fica restrito, o custo da dívida aumenta, a rolagem fica mais difícil, o capital de giro desaparece e o credor fica muito mais seletivo. O produtor ou a empresa deixa de conseguir financiar a operação. O problema deixa de ser apenas pagar dívida antiga, mas continuar operando.

“A recuperação judicial ou extrajudicial passou a ser usada como um mecanismo para organizar essa complexidade e coordenar os credores”

Tribuna Ribeirão – O Brasil está mais exposto a esse tipo de crise de gestão (especialmente no agronegócio) do que outros países? Por quê? Como evitar?

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André Rocha – Sim, está mais exposto. Não por falta de eficiência produtiva, considerando que o agro brasileiro é extremamente competitivo, mas por fatores estruturais como juros historicamente mais altos, maior volatilidade econômica, custo de capital elevado, insegurança jurídica e baixo nível médio de governança no produtor rural.

Além disso, ainda é comum no Brasil misturar patrimônio com operação, não ter orçamento de safra, tomar decisão sem dados, comprar insumos sem estratégia,

não gerir risco. Em mercados mais maduros, a gestão é mais profissional. Para evitar a atuação deve ocorrer em pelo menos em cinco frentes gestão financeira, controle de caixa e margem, compras estruturadas, gestão de riscos, governança e sucessão.

O problema do agro brasileiro não é produzir. É gerir.

 

Tribuna Ribeirão – O modelo brasileiro de recuperação judicial é mais permissivo ou menos eficiente que o de países como EUA?

André Rocha – O modelo brasileiro é, ao mesmo tempo, mais acessível e menos previsível. Por outro lado, o sistema ainda enfrenta insegurança na aplicação das regras, disputas sobre garantias e extraconcursalidade (créditos que não se submetem aos efeitos de uma recuperação judicial ou falência), decisões divergentes e dificuldade de coordenação entre credores. Comparado aos EUA, por exemplo, o Brasil ainda tem menor previsibilidade, maior litigiosidade e mais incerteza para quem quer financiar a reestruturação. O problema não é a lei. É a consistência da sua aplicação.

“É comum no Brasil misturar patrimônio com operação, não ter orçamento de safra, tomar decisão sem dados, comprar insumos sem estratégia, não gerir risco”

Tribuna Ribeirão – O número de pedidos também cresceu entre pequenos negócios. Quais as diferenças entre maiores e menores devedores?

André Rocha – A diferença é grande. Grandes devedores têm uma estrutura complexa, muitos credores, instrumentos financeiros sofisticados e problema de coordenação. Já os pequenos enfrentam falta de caixa, algumas vezes sazonalidade ou dependência da safra, pouca ou nenhuma governança, baixa capacidade de negociação e estrutura contábil limitada. Mas ambos têm um ponto em comum: Sem gestão, a volatilidade do agro vira insolvência. O ideal é buscar ajuda especializada aos primeiros sinais de crise, independente do setor ou do porte da empresa.

“O ideal é buscar ajuda especializada aos primeiros sinais de crise, independente do setor ou do porte da empresa”

Tribuna Ribeirão – Na sua avaliação, quais são os principais entraves que ainda impedem o Brasil de ter um sistema de insolvência mais previsível?

André Rocha – Três entraves estruturais se destacam: o uso tardio da recuperação judicial, a assimetria de informação e o déficit de governança e enforcement. A esses fatores soma-se a morosidade do Judiciário, incompatível com a dinâmica econômica das empresas em crise, já que decisões tardias e incidentes sucessivos acabam por destruir valor.

Outro problema relevante é a cultura excessiva de litigância, que transforma o processo em um ambiente de disputas fragmentadas, afastando soluções econômicas viáveis e investidores interessados em operações de reestruturação.

Por fim, a falta de sujeição ampla dos créditos ao processo recuperacional compromete a previsibilidade do sistema. A exclusão de passivos relevantes impede que o plano funcione como solução definitiva e faz com que a recuperação judicial seja utilizada como mecanismo de postergação da crise.

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