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Alta na violência de gênero leva a ampliação de estrutura

Casos de estupro subiram 128,5% no primeiro bimestre deste ano, em comparação com mesmo período do ano passado | Reprodução

Por Adalberto Luque

 

O aumento dos casos de violência contra a mulher no Estado de São Paulo já aparece de forma clara nos primeiros meses de 2026 e escancara um cenário de pressão sobre os serviços de atendimento às vítimas. Dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP), no recorte do primeiro bimestre, mostram crescimento na maioria dos indicadores, ao mesmo tempo em que o poder público amplia a rede de proteção, com novas estruturas e reforço nas já existentes.

Na comparação entre os dois primeiros meses de 2025 e o mesmo período de 2026, apenas os casos de estupro de vulnerável apresentaram leve queda. Os homicídios de mulheres passaram de 26 para 29 registros, alta de 11,5%. Já os feminicídios tiveram aumento mais acentuado, saltando de 42 para 56 casos, crescimento de 33,3%.

Os registros de lesão corporal dolosa também avançaram, passando de 11.747 para 12.375 ocorrências, aumento de 5,3% e média de 209 casos por dia. As ameaças cresceram 11%, de 16.847 para 18.698 registros. Nos casos de estupro, houve elevação de 1,1%, com 564 ocorrências neste ano, ante 558 em 2026.

Na contramão, os estupros de vulnerável recuaram 7,5%, passando de 1.778 para 1.645 casos. Mesmo com essa redução pontual, o conjunto dos dados indica um cenário de agravamento da violência de gênero no estado, com aumento em crimes de maior gravidade.

Ribeirão Preto

Na cidade, os números seguem a tendência estadual, com destaque para o avanço nos casos de estupro. No primeiro bimestre de 2025, foram registrados 31 casos. No mesmo período de 2026, o total subiu para 44, alta de 41,9%.

Quando analisados separadamente, os dados mostram crescimento mais acentuado nos estupros contra mulheres não vulneráveis, que passaram de 7 para 16 registros, aumento de 128,5%. Já os casos envolvendo vítimas vulneráveis subiram de 24 para 28, crescimento de 16,7%.

Os números reforçam o avanço desse tipo de crime no município, com aumento em ambas as categorias analisadas pela SSP.

Feminicídio

Os dados históricos também apontam a dimensão do feminicídio na região. Desde a tipificação do crime, há 11 anos, Ribeirão Preto contabiliza 44 mulheres vítimas. O levantamento mostra ainda que cidades menores também apresentam registros relevantes.

DDM de Ribeirão Preto passou a funcionar 24 horas em 2025 e mais cinco cidades da região vão receber salas DDM nas delegacias, próprias para atendimento às mulheres que sofrem violência de gênero | Foto: Alfredo Risk

Em Santa Rosa de Viterbo, por exemplo, foram seis casos entre 2015 e janeiro de 2026. Metade deles ocorreu nos anos de 2023 e 2024, indicando concentração recente dos registros.

Entre os casos contabilizados em Ribeirão Preto está o da professora de pilates Larissa Talle Leôncio Rodrigues, morta aos 37 anos por envenenamento. O marido e a sogra são réus no processo e podem ir a julgamento ainda neste ano. Ambos negam as acusações do feminicídio.

A legislação também passou por mudanças. O feminicídio deixou de ser apenas uma qualificadora do homicídio e passou a ser crime autônomo, com a criação do artigo 121-A do Código Penal. As penas foram ampliadas e variam de 20 a 40 anos de reclusão.

Perfil

Os dados locais mostram ainda o perfil das vítimas e a distribuição dos casos. De acordo com o Painel da Violência da Divisão de Vigilância Sanitária da Prefeitura de Ribeirão Preto, foram registrados 2.182 casos de violência de gênero entre 1º de janeiro de 2024 e 1º de março de 2026.

Bairros da região Norte de Ribeirão Preto concentram o maior número de ocorrências, com 561 registros, o equivalente a 25,7% do total. Mulheres entre 20 e 29 anos são as mais atingidas, somando 566 casos.

Desse total, 17,4% envolvem violência sexual. A maioria das vítimas é branca, representando 57,42% dos registros. Já a violência psicológica aparece em 16,1% dos casos.

Outro indicador que reforça o cenário é o volume de violência doméstica. Em 2025, Ribeirão Preto registrou 3.380 casos, média de 13 ocorrências por dia. A maior parte das agressões, 73,21%, acontece dentro de casa, atingindo principalmente mulheres jovens.

Justiça

Diante do aumento dos casos, a estrutura do sistema de Justiça foi ampliada. A criação da 2ª Vara de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher representou um reforço no atendimento em Ribeirão Preto.

A delegada Patrícia Buldo constatou que mais mulheres procuram a delegacia, embora considere que ainda haja subnotificação de casos | Foto: Alfredo Risk

Com a nova unidade, instalada no ano passado, a cidade passou a ser a segunda do interior paulista a contar com duas varas especializadas. A estrutura é responsável por processar e julgar casos de violência doméstica, além de analisar pedidos de medidas protetivas de urgência.

A vara também oferece suporte multidisciplinar às vítimas, com atendimento psicológico, social e jurídico. A ampliação ocorreu menos de quatro anos após a instalação da 1ª Vara, criada em novembro de 2021, após aumento das agressões, registrado durante o período da pandemia de Covid.

Até então, Ribeirão Preto não contava com nenhuma unidade específica para esse tipo de atendimento.

Medidas

O número de medidas protetivas concedidas mostra a demanda crescente. Em 2025, foram 2.519 decisões desse tipo nas duas varas da cidade. Apenas em janeiro de 2026, foram 187 concessões, média de seis por dia.

Segundo a juíza Daniele Regina de Souza Duarte, o acompanhamento das vítimas conta com apoio de patrulhas específicas da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana.

Ela aponta, no entanto, a necessidade de aprimorar a integração da rede de atendimento, principalmente fora do horário comercial. Durante a semana, o acolhimento conta com facilitadoras da Justiça Restaurativa, mas há dificuldades de acesso aos serviços em períodos não comerciais.

“Aos finais de semana e durante o plantão noturno há grande dificuldade de acesso à rede protetiva e serviços. É algo que precisa ser refletivo e aprimorado, embora se reconheça a sensibilidade do município ao combate da violência doméstica”, aponta a juíza.

Delegacia

Na área policial, a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Ribeirão Preto passou a funcionar 24 horas por dia desde março do ano passado. A ampliação permite o atendimento a mulheres de 15 cidades da região, que integram a Delegacia Seccional de Polícia Civil.

A medida tem como objetivo facilitar denúncias e reduzir a subnotificação. Há ainda um projeto para instalação da delegacia em prédio próprio, com estrutura para atendimento multidisciplinar.

O local indicado é a antiga sede da Guarda Civil Metropolitana, na Vila Seixas, onde devem ser oferecidos serviços com psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais.

Com a ampliação do atendimento, houve aumento no número de registros. Segundo a delegada Patrícia Buldo, mais mulheres têm procurado a delegacia, movimento atribuído à maior divulgação e ao incentivo à denúncia. Ainda assim, ela aponta que há subnotificação.

A rede de atendimento deve crescer ainda mais. A região metropolitana de Ribeirão Preto vai receber cinco novas Salas DDM em 2026, nas cidades de Brodowski, Dumont, Jardinópolis, Santa Rosa de Viterbo e Serra Azul.

As estruturas serão instaladas em delegacias já existentes e vão oferecer atendimento especializado e reservado às vítimas. A iniciativa integra um pacote estadual que prevê a implantação de 69 unidades.

As Salas DDM oferecem escuta qualificada, orientação sobre medidas protetivas e encaminhamento para a rede de apoio. A proposta é ampliar o acesso ao serviço, principalmente em municípios menores.

Estrutura

Outra medida adotada pelo governo estadual foi a reclassificação de delegacias da mulher em diferentes regiões. A mudança leva em conta o volume de atendimentos e a população atendida.

Na prática, a reclassificação permite ampliar equipes, melhorar a estrutura e aumentar a capacidade de resposta das unidades, inclusive na solicitação de medidas protetivas.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública, a expectativa é reduzir o tempo de atendimento e dar mais efetividade à proteção das vítimas.

O conjunto de dados e medidas mostra um cenário em que o aumento da violência de gênero ocorre ao mesmo tempo em que há expansão da rede de enfrentamento. A ampliação das estruturas busca responder à demanda crescente por atendimento, acolhimento e proteção às mulheres. O enfrentamento é necessário para combater a “epidemia” de violência de gênero vivida em Ribeirão Preto, no Estado de São Paulo e pelo Brasil afora.

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