Por Hugo Luque
A Série A4 do Campeonato Paulista não chegou ao fim para o Comercial como a torcida esperava. Inicialmente cotado para buscar o acesso, o Leão do Norte encerrou sua participação no estadual com uma eliminação precoce, após brigar contra o rebaixamento em boa parte da primeira fase.
Das 16 equipes que disputaram a competição, oito passaram de fase: Inter de Bebedouro, São Caetano, Penapolense, São-Carlense, Barretos, Taquaritinga, Jacareí e Lemense. Outro dois foram rebaixados para a Segunda Divisão (a popular “Bezinha”: Nacional e Araçatuba.
Já o Bafo evitou o desfecho mais trágico, que seria a terceira queda seguida. No entanto, deixou a desejar, demorou a engrenar e ficou de fora do mata-mata que poderia recolocar o clube na Série A3 depois de anos traumáticos.
Foram meses de preparação entre o fim da Copa Paulista de 2025 e o início da atual temporada, mas o péssimo início condicionou a campanha alvinegra para uma despedida melancólica. O elenco, que aparentava ter sido montado antes da A4, mostrou que precisava de mudanças: reforços e saídas ocorrerem durante toda a primeira fase e, sem estabilidade, o final foi a décima colocação, com 20 pontos, dois atrás do G-8.
Pela segunda vez em sua história, o Comercial disputou a quarta divisão do futebol paulista. Diferente da primeira, em 2018, o clube não conseguiu o acesso de primeira. Agora, “preso” na divisão, ainda há o resto do ano pela frente, mas 2027 já aparece no horizonte com uma pressão maior para encerrar o pior momento, ao menos esportivamente, da história centenária da agremiação.
Início lento
O planejamento para 2026 começou ainda em 2025, quando a diretoria conseguiu renovar o contrato de Roberval Davino. A equipe vinha com moral depois de alcançar a semifinal da Copa Paulista e ficar a um jogo do calendário nacional. No entanto, um verdadeiro desmanche assolou o Palma Travassos.

Algumas das principais peças da competição do segundo semestre do ano passado, como o goleiro João Lucas, os zagueiros Cristopher e Sergipe, o meia Carlos Bajé e o centroavante Felipe Rodrigues ganharam destaque e deixaram o time. Outros, como o lateral-direito Wellington Petuba, o lateral-esquerdo Alex Silvério e o volante Felipe Mian, permaneceram.
Com os contatos e a experiência de Davino, a diretoria foi ao mercado e trouxe peças de reposição. Chegaram nomes como veterano zagueiro Dogão e os atacantes Mikael e Gustavo França.
“O grande ponto da situação é quando há planejamento. Eu cheguei aqui para disputar a Copa Paulista, então montamos o time e a ideia era manter aquela base. Como os meninos foram bem e fizeram contrato apenas até o final da Copa Paulista, nós perdemos oito titulares. Se nós tivéssemos mantido uma base, contrataríamos apenas pontuais”, lamentou, na época, o técnico.
Pela terceira vez consecutiva, todavia, a largada de estadual foi assustadora. Dentro de campo, o time não se encontrava. Assim, após três rodadas, o Leão somava apenas um ponto e enxergava mais uma vez o “fantasma” do rebaixamento presente. Davino não resistiu e sua saída marcou o fim de um ciclo que prometia estabilidade, mas entregou apenas incertezas.
O bicampeão
Com a saída de Roberval, a diretoria buscou um perfil oposto. Raphael Pereira chegou com a missão de oxigenar o ambiente. Atual bicampeão da Série A4, o técnico tinha o objetivo de fazer o Comercial finalmente engrenar para chegar às quartas de final.
O começo empolgou, especialmente após a primeira vitória na competição, fora de casa, sobre o Colorado Caieiras, por 2 a 1. Foi então que as movimentações no elenco se movimentaram. Jogadores como os meio-campistas João Pigozzo e Vinicius, que tinham chegado recentemente, foram dispensados.
Por outro lado, chegou o principal personagem da campanha: David. Descoberto no futebol amador de Ribeirão Preto, o jogador de 28 anos chegou desacreditado, mas foi fundamental para a recuperação. Ainda assim, a falta de entrosamento do plantel constantemente alterado atrapalhou.
“Estamos buscando tirar o Comercial dessa situação incômoda e esse é o pensamento. Não falamos em classificação. Temos feito bons jogos, temos sido regulares, mas alguns jogadores têm oscilado em alguns momentos. Estamos buscando”, afirmou Raphael Pereira após a derrota para o Lemense.
O time apresentou lampejos de melhora e respirou na briga contra o rebaixamento. Entretanto, depois de apenas três jogos, com uma vitória e duas derrotas, Raphael Pereira foi mais um treinador demitido.
Reação surpreendente e fim melancólico
Parecia “déjà vu”, mas novamente a diretoria comercialina decidiu recorrer à experiência de Pinho em um momento complicado. Até o ano anterior gerente de futebol, o profissional de 81 anos retornou como técnico, mas, após desentendimento com o auxiliar Osny, rapidamente deixou o cargo, mesmo com a vitória sobre o Nacional.
Sobrou para o próprio Osny, ex-jogador do clube, que abraçou o desafio. Inicialmente, o discurso era apenas de evitar a queda. Se os resultados viessem, a conversa seria outra.

Foi o que aconteceu. O Bafo empatou com o Araçatuba e, em seguida, emendou uma sequência de três triunfos consecutivos contra Vocem, Jacareí e a então líder Inter de Bebedouro. O momento finalmente era diferente. Assim, com a torcida ao lado e o retorno de Cristopher, o sonho da classificação ficou mais próximo do que nunca, na hora certa.
“O que mudou foi o entendimento da equipe e os reforços que chegaram. Eles tiveram entendimento para chegar neste nível. Os conscientizei que a quarta divisão é muito difícil. Já disputei vários campeonatos de acesso. (…) Os fiz entender que é uma competição imprevisível, porque mesmo as equipes saindo atrás não desistem de jogar”, comentou Osny.
O comandante conseguiu injetar ânimo no elenco, que apresentou sua versão mais competitiva na reta final. Foi, contudo, justamente a fala do treinador sobre a dificuldade da divisão que voltou para “assombrar” o conjunto ribeirão-pretano.
Na penúltima rodada, uma vitória poderia fazer o Comercial entrar no grupo de classificação para o mata-mata. Em excelente momento, o Bafo tinha pela frente o Jabaquara, um adversário frágil e que brigava para não cair. Mas o time santista não desistiu da partida e, nos minutos finais, com um gol do meio de campo, levou a melhor por 2 a 1.
Com os outros resultados desfavoráveis, o Leão acabou eliminado e duramente criticado por Osny, mesmo após o triunfo sobre o Tanabi, na rodada final, em jogo apenas para cumprir tabela. Assim, os pontos deixados pelo caminho no início da caminhada e o jogo ruim contra o Jabaquara atuaram como o fiel da balança.
“Eles vieram obedecendo a um esquema tático em todos os outros jogos, mas dessa vez quiseram fazer o jogo do jeito que eles queriam. Subestimaram o adversário e a bola pune. Quando você subestima, o castigo vem. (…) Se tratando de seis partidas, nós ganhamos quatro, empatamos uma e perdemos outra. A não classificação do Comercial não foi nessas partidas, mas no início de campanha catastrófico”, analisou o técnico.
Sequência da temporada
Enquanto assiste aos adversários na luta pelas duas vagas na Série A3 do ano que vem, resta ao Comercial refletir sobre os erros de um estadual em que a dança das cadeiras no banco de reservas foi o reflexo da desorganização fora de campo.
Na última sexta-feira, o pressionado Antônio Campanelli renunciou ao cargo de presidente do clube. Agora, mesmo com Wesley Rios como interino e as eleições em agosto, o Leão do Norte deve, mais uma vez, iniciar em breve a preparação para a Copa Paulista.
Diferente do ano passado, porém, a equipe tem uma base para a competição. Alguns atletas já deixaram o Palma Travassos, enquanto outros, que possuem contrato apenas até o mês que vem, podem renovar. Grande parte dos jogadores assinaram vínculos pelo menos até o final deste ano.
Para participar do torneio, o clube depende novamente de um convite da Federação Paulista de Futebol (FPF), já que não garantiu vaga. Se o interesse de participação dos classificados na competição for semelhante ao dos últimos dois anos, a tendência é que o Bafo volte a campo na segunda metade da temporada.

