Elson de Paula *
“Se não se comportar, o homem do saco vai te levar.” (Mito popular)
O mito do Homem do Saco assombra crianças no mundo desde o século 17, conhecido e propagado em países europeus e das américas, especialmente os de língua latina, e sempre foi utilizado pelos adultos como pedagogia do medo para educar seus filhos.
No Brasil, o mito é frequente há pelo menos dois séculos, e especialmente nos estados de Pernambuco, Bahia e Paraíba é conhecido também como Papa-Figo.
A lenda do Papa-Figo teve origem na história do Crime de Gádor, ocorrido em 1910 em Gádor, município da província de Almería na Espanha, quando um menino de 7 anos foi sequestrado e morto para que seu sangue e fígado fossem servidos à um nobre morador da cidade, acreditando que isso o salvaria da tuberculose.
Até hoje ainda é possível ouvir de um pai ou de uma mãe, aterrorizando seus filhos, que “se não se comportar, o homem do saco vai te levar”, e menos que educando, e mais que causando-lhes traumas permanentes e o sentimento do preconceito, na tentativa de personificar esse terror, estes pais usam as pessoas em situação de rua como exemplo, apontado-as à sua prole assustada.
Ah, como são cruéis estes pais!
Ah, como são inconsequentes e imbecis!
Mas percebo que pior que eles têm sido os governantes modernos que embevecidos do poder que ocupam, usam das tecnologias deste tempo insanamente midiático para mostrar aos que lhes “seguem”, gravando vídeos aos montes, e culpando as pessoas em situação de calçada pela sujeira da cidade, pelo desmazelo que lhes é de competência governamental, como se dissessem para a população mal orientada que estes são homens(e mulheres) do saco.
Ao apontar-lhes o dedo indicador, afirmando que a pessoa em situação de vulnerabilidade extrema, suja, largada na calçada, drogada e embriagada é a razão da imundície da cidade que governa, um prefeito só demonstra a que veio, sem olhar para as razões sociais que atingem essa gente sofrida, e com isso, descumpre sua promessa feita em campanha, de que governará para o povo.
Oras, um prefeito também deve governar para os vulneráveis, mais para eles que para o munícipe que tem um teto, um emprego, uma vida segura, mas creio que isso seja utopia da minha parte, ledo engano deste que vos escreve, pois uma boa parte da leva de governantes deste país, não passa de pessoas egoístas, preconceituosas e higienistas, nada mais que isso.
Quando vejo um prefeito se expondo num vídeo promocional elaborado por sua equipe de marketing (porque hoje todos tem a sua, a imagem é o que o ajuda a manter-se no poder) dizendo que a culpa da sujeira, do roubo de fios e cabos, da insegurança pública, do tráfico de drogas, e de toda mazela de sua cidade é daqueles que ele chama de “moradores” em situação de rua, percebo que este governante é como os pais terroristas que usam dessa mesma figura para “educar” seus filhos, comparando uma pessoa em situação de calçada ao homem do saco, ao papa-figo.
Triste realidade a que vivemos neste nosso Brasil em pleno século 21, quando aqueles que foram eleitos para governar para o seu povo, não apenas excluem os que definham e morrem nas calçadas, mas os definem como a causa maior dos males do seu território, e não enxergam que estes são as vítimas de uma sociedade preconceituosa e cruel, e sentados em seu trono maltratam-nas mais ainda.
Será que quando apontamos para um maltrapilho e miserável deitado numa calçada, definindo-os como o homem do saco, estamos certos?
Ou será que o papa-figo está escondido nas linhas do poder, em todas as instâncias governamentais, bem vestido e trajado de “homem de bem”?
Pensemos nisso!
* Jornalista, representante técnico do Movimento Nacional de Luta na Defesa da População em Situação de Rua( MNLDPSR) cofundador do Fórum de Defesa da População em Situação de Rua de Ribeirão Preto e vice-presidente do Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS)

