Por Hugo Luque
O mês de maio marca o início de um ritual que atravessa gerações no Brasil, mas que, neste ano, carrega um peso inédito no bolso dos brasileiros. Com o lançamento oficial do álbum da Copa do Mundo previsto para a próxima sexta-feira (1º), a tradicional busca pelas figurinhas deixou de ser uma brincadeira e virou uma atividade que requer planejamento financeiro.
Pela primeira vez, os colecionadores vão encarar um álbum com 48 seleções e quase mil figurinhas. A situação fica mais complicada por conta do aumento no preço dos pacotinhos, que supera a inflação acumulada nos últimos 12 anos. Assim, o hobby, que antes era símbolo da democratização do futebol, agora exige estratégia e até mesmo sacrifícios financeiros.
Para Jean Lucca de Brito Silva, metalúrgico de 23 anos, as figurinhas são um portal para a infância, mas o cenário atual exige a cautela e a responsabilidade da fase adulta. As memórias do jovem remetem ao Mundial de 2010, na África do Sul, quando ele tinha apenas sete anos. Naquela época, o álbum era um motivo para reunir amigos.
“Tenho algumas vagas memórias dos meus vizinhos indo em casa trocar figurinha, até bater figurinha pra ver quem que ia ficar com elas. Nós fazíamos uns montinhos e batíamos”, relembra Silva, que contava com o suporte financeiro da família.
“Meu pai e meu irmão não eram aqueles aficionados por querer completar o álbum. Era muito mais para ter algumas figurinhas do que realmente para completar”, explica.
Maior e mais caro
O susto com os preços de 2026 impacta todos os fanáticos. O pacotinho custará R$ 7,00 e, embora a Panini, editora que produz o álbum, tenha aumentado o número de cromos por envelope para sete, a percepção de valor mudou por conta do volume da coleção, que saltou para 980 figurinhas, sendo 68 delas especiais.

São 310 cromos a mais em comparação à edição de 2022, última com 32 seleções. Estima-se que serão necessários mais de R$ 7 mil para completar as 112 páginas deste ano sem considerar a tradicional troca entre colecionadores. Já quem for às bancas de jornal com uma boa estratégia deve atingir o objetivo com um investimento de pouco mais de R$ 1 mil. De toda forma, o valor mínimo para completar, sem tirar nenhuma repetida, é de R$ 980 – em 2014, custava R$ 128.
No ano em que o Brasil sediou o Mundial, o torcedor desembolsava apenas R$ 1,00 para adquirir um envelope com cinco cromos. Doze anos depois, o preço saltou e o aumento de 600% no valor do conjunto “atropela” o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Se o valor durante a Copa no Brasil fosse apenas ajustado ao passo da inflação, o pacote atual custaria R$ 1,94, segundo a calculadora oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O problema para o colecionador é que, em 2026, o R$ 1,00 que antes comprava um pacote hoje é o preço de uma figurinha solitária. Em 2022, o investimento era de R$ 4,00 por envelope por cinco cromos, o que representa R$ 0,80 por figurinha. Portanto, houve um aumento de 25% por cromo somente no intervalo entre o último torneio e o deste ano.
“Acho que [aumentar a quantidade de figurinhas por envelope] foi a maneira que a Panini encontrou para tentar ofuscar o preço. Eles colocaram sete figurinhas e aumentaram R$ 0,20 por cromo. Se você for ver assim, é até normal pelos quatro anos que se passaram. Mas quando pensamos que tem quase mil figurinhas no álbum e você começa a fazer conta, é a hora que o filho chora e a mãe não vê”, brinca Silva.
“Eu tomei por embasamento que o valor mínimo investido teria de ser esse (R$ 1 mil). Vão vir muitas repetidas, então é obrigatório ir a um ponto de encontro e trocar. Assim você consegue economizar um bom dinheiro. Com toda certeza, as figurinhas vão entrar na minha planilha. Eu acho que para mim, hoje, eu não precisaria cortar algum gasto ou me preocupar tanto, mas não é por conta disso que não precisa ter um planejamento”, acrescenta.
A reportagem procurou a Panini para entender os fatores que levaram ao novo patamar de preços, mas não obteve retorno até o momento.
Estratégia é fundamental
A estratégia é a única forma de não transformar o lazer em dívida. Por isso, o colecionador não descarta até mesmo vender cromos com alta demanda, como os dos principais craques do futebol mundial.
“Tem gente que não gosta de quem vende figurinhas separadas, mas esse mercado existe. Às vezes você tem duas ou três do Messi e precisa de um Cristiano Ronaldo, então a pessoa não consegue ou não quer trocar, mas ela vende. Ou você compra dela ou você vende. Vai tirar um dinheiro do seu orçamento, mas se você fizer com planejamento, eu acho que não vai dar dor de cabeça.”
O metalúrgico detalha um “ecossistema” paralelo que toma o colecionismo por todo o Brasil e fica mais forte a cada Copa. As figurinhas “legend” (as variantes raras) tornaram-se ativos financeiros. Para o jovem, tirar uma dessas peças não é motivo de celebração para a coleção pessoal, mas uma oportunidade de negócio.
“Eu as vejo como um bônus pra erguer a paixão, mas se eu tirar algum deles, eu provavelmente iria vendê-lo. Não tenho pretensão de ter na minha coleção”, confessa Silva. Essa visão pragmática se estende à forma como o mercado se adaptou aos preços proibitivos. De acordo com o colecionador, algumas pessoas esperam a emoção terminar e compram em mercado paralelo um álbum completo ou quase completo, o que muitas vezes sai mais barato.
As estratégias e os valores cada vez mais altos têm motivado o recuo de veteranos deste hobby, que resiste há décadas, de geração em geração. “Muitos completavam um álbum de cada tipo: prata, dourado, capa dura e capa mole. Vejo muitos falando que nessa Copa só vão conseguir completar um. Outros importavam a versão da Suíça, muito visada, e neste ano não vão conseguir por conta do preço.”
Para ele, o álbum deixou de ser democrático há tempos: “Eu acho que esse acesso já acabou. Desde quando o pacotinho custava R$ 4,00, R$ 2,00. Quem não tem condição já deixou de comprar há muito tempo”, lamenta o fanático.
Valor sentimental
Em 2014, a Panini revelou que o brasileiro era o principal consumidor de figurinhas no planeta. No auge daquele Mundial, eram produzidos cerca de 40 milhões de cromos diariamente na fábrica da empresa, na Grande São Paulo.

Embora acredite que o hobby tenha a tendência de ficar cada vez mais nichado, com menos interessados, o colecionador aposta no “fator coração” que um álbum de figurinhas toca em cada apaixonado por futebol que já foi, algum dia, uma criança ansiosa para ver a bola rolar no maior palco do futebol.
“Para mim continua sendo uma diversão de criança. Vem daquele sonho de garoto de querer ser jogador e ter seu rosto num álbum. Eu me divirto, converso e troco figurinha com criança, adulto e idoso. O álbum não tem idade”, diz ele, com um entusiasmo que sobrepõe a análise financeira.
Para o entusiasta, o que vale o investimento é a recordação física de um momento histórico. De acordo com ele, o álbum não vale a pena, no aspecto financeiro, para a maioria das pessoas. Mas, em questão de sentimento e nostalgia, é item inestimável.
“O álbum da Copa é muito mais no sentido do convívio do que de querer gastar rios de dinheiro. É sobre se relacionar, que é muito mais legal do que necessariamente completar”, finaliza.

