O vaivém na suspensão da venda de lotes de produtos da marca Ypê pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por risco de contaminação microbiológica, esquentou as discussões sobre reputação corporativa. Analistas da área ouvidos pelo Estadão apontam que o episódio pode representar um “risco significativo” para a marca, principalmente em relação ao desafio de lidar com impactos negativos na percepção dos consumidores em relação à transparência da empresa e à rapidez em corrigir o problema.
“A companhia esclarece que está colaborando integralmente com a Anvisa e conduzindo todas as ações necessárias com máxima prioridade, responsabilidade e transparência. A Ypê vem realizando análises técnicas e avaliações complementares, incluindo testes e laudos independentes, que seguem sendo apresentados às autoridades competentes, reforçando o compromisso da empresa com a qualidade, a segurança e a conformidade regulatória dos seus produtos, e se compromete a incorporar imediatamente eventuais aprimoramentos e recomendações regulatórias da agência ao seu Plano de Ação e Conformidade Regulatória, desenvolvido em conjunto com a Anvisa desde dezembro de 2025”, informou em nota.

Na quinta-feira, 7, a Anvisa determinou o recolhimento de diversos produtos da marca com lote final 1, incluindo suspensão de fabricação, comercialização, distribuição e uso dos itens. Em nota, a reguladora explicou que a medida foi tomada após uma inspeção realizada na fábrica de Amparo (SP) indicar falhas que comprometem “o atendimento aos requisitos essenciais de Boas Práticas de Fabricação de saneantes e indicam risco à segurança sanitária dos produtos, com possibilidade de ocorrência de contaminação microbiológica”.
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No dia seguinte, a Ypê obteve, via recurso, a suspensão dos efeitos de proibição impostos pela Anvisa. A marca informou, porém, que manteve suspensas de forma voluntária as linhas de produção de lava-roupas líquido, lava-louças líquido e desinfetantes de número de lote final 1, com o objetivo de “acelerar o cronograma e a conclusão de medidas apontadas pela Anvisa durante a última fiscalização”.
Mesmo com o efeito suspensivo, a Anvisa manteve a recomendação de que os consumidores não usassem os produtos indicados, por segurança. Em novembro do ano passado, a Ypê passou por uma ação de suspensão semelhante, determinada pela Anvisa.
A coordenadora do Centro de Estudos em Ética, Transparência, Integridade e Compliance da Fundação Getúlio Vargas (FGVethics), Lígia Maura Costa, considera que está havendo um “dano reputacional” à marca, que pode ser pontual ou permanente de acordo com a capacidade de resposta da empresa às demandas de confiança de seus consumidores.
Ela pondera que a resposta inicial da Ypê “parece estar na direção correta, ao colaborar com a Anvisa, comunicar recolhimento dos lotes e orientar consumidores”. Entretanto, segundo ela, em crises reputacionais que envolvem produtos de consumo, “o padrão precisa ser mais alto do que o cumprimento de exigências regulatórias”.
“Reputação corporativa não é comunicação, slogan ou marketing. O dano reputacional de um problema desse porte, que pode afetar a saúde dos consumidores, depende também da percepção deles em relação à transparência, rapidez e capacidade para corrigir (o problema) pela empresa.”

Do ponto de vista da governança corporativa, segundo a analista, a questão central é como a empresa reage. “A reputação corporativa não é destruída apenas por um incidente isolado, mas pela percepção de como a empresa reage diante dele. Um desgaste reputacional momentâneo pode se tornar permanente se a percepção dos consumidores for de que a empresa não deu uma resposta rápida ou houve falta de transparência na resposta.”

