Tribuna Ribeirão
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O ensino de neurociências no desenvolvimento acadêmico de estudantes do ensino superior

Rosemary Conceição dos Santos*

 

O ingresso de estudantes no ensino superior é uma etapa da vida cerceada de descobertas, remodelações de perspectivas e enfrentamento de vulnerabilidades. Neste contexto, a autoeficácia, compreendida como crença na capacidade de alcançar metas acadêmicas, mostra-se positivamente relacionada ao desempenho acadêmico, motivação e resiliência dos mesmos. No entanto, uma dissertação, recentemente defendida no Programa de Pós-graduação em Psicobiologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, mostra que desafios acadêmicos também podem afetar a saúde mental de estudantes e enfatiza a importância da autoeficácia na prevenção desses problemas. De acordo com seus pesquisadores, o conhecimento em neurociência é fator que influencia a percepção de eficácia e motivação dos alunos para obter sucesso acadêmico. Investigando o impacto da exposição prévia dos estudantes a conceitos de neurociências, bem como após a participação dos mesmos em um curso específico sobre o tema, analisou-se, em três etapas, o desenvolvimento acadêmico dos graduandos priorizando-se indicadores de vivências acadêmicas, autoeficácia e saúde mental.

Na primeira etapa, através da exposição de alunos a conteúdos de neurociências, avaliou-se o nível de conhecimento dos alunos, identificando preditores demográficos que influenciam a autoeficácia. Na segunda, através do levantamento de demandas de temas em neurociências entre estudantes da graduação, buscou-se compreender quão confiante os alunos eram em aplicar esses conhecimentos e identificar tópicos relevantes para futuras intervenções educacionais. Na terceira etapa, através da aplicação de um curso de neurociências on-line, avaliou-se seu impacto nas vivências acadêmicas, na autoeficácia e nos indicadores de saúde mental desses estudantes. Os resultados foram discutidos orientados pela perspectiva de aprimorar a compreensão das necessidades dos alunos em relação ao ensino de neurociências, contribuindo para a formação de um currículo adaptado às demandas dos estudantes e potencializando seu desenvolvimento acadêmico, de modo que a exposição às neurociências, seja por meio de experiências anteriores ou por meio de um curso virtual, funcionasse como uma ferramenta para o aprimoramento da autoeficácia, para vivências acadêmicas mais positivas e para a melhoria do estado mental dos alunos.

Observou-se que a participação em cursos extracurriculares e disciplinas relacionadas à neurociência é um preditor de autoeficácia no ensino superior. Ao participar de atividades do gênero, a familiaridade com princípios neurocientíficos fortalece a crença dos estudantes em suas capacidades acadêmicas. Na sequência, a identificação de tópicos de interesse e percepções sobre a confiança na aplicabilidade da neurociência contribuiu para o delineamento da intervenção. Por adição, a frequência no curso on-line de neurociências indicou um efeito positivo na adaptação dos graduandos ao ensino superior, com melhorias nas dimensões de estudo e bem-estar pessoal. Os participantes relataram maior capacidade de manter e aprimorar estratégias de estudo, bem como mais habilidade para lidar com estresse e ansiedade em períodos de alta demanda acadêmica. Também foi observado um aumento significativo na autoeficácia geral e em suas diferentes dimensões (acadêmica, regulação da formação, ações pró-ativas e gestão acadêmica), indicando maior percepção de competência frente às exigências do contexto universitário. Embora não tenham sido identificadas mudanças significativas em sintomas de depressão, ou nas interações sociais, a redução nos níveis de estresse e ansiedade sugeriu haver potencial da neuroeducação como recurso de apoio à saúde mental. A eficácia do curso foi confirmada tanto pelo aumento no conhecimento em neurociências quanto pela avaliação positiva dos participantes em relação à metodologia e à relevância do conteúdo.

Concluiu-se, então, pela relação consistente entre a exposição a conteúdos de neurociência, o fortalecimento da autoeficácia e a promoção do bem-estar acadêmico, sustentando a hipótese de que a neuroeducação constitui não apenas um campo de investigação, mas, principalmente, uma ferramenta relevante para o desenvolvimento acadêmico e pessoal de estudantes universitários, promovendo autoeficácia, adaptação acadêmica e diminuição de sintomas de ansiedade e estresse junto aos discentes.

Para investigações futuras, sugeriu-se examinar os efeitos de longo prazo da neuroeducação sobre a autoeficácia e o desempenho acadêmico, bem como comparar diferentes modelos e metodologias de ensino com o objetivo de identificar abordagens mais eficazes. Adicionalmente, recomendou-se a replicação dos estudos em contextos culturais e educacionais diversos, a fim de avaliar a generalização dos resultados. Os alcances obtidos na dissertação “Ensino de neurociências como ferramenta no desenvolvimento acadêmico dos estudantes do ensino superior”, da pesquisadora Ana Julia Ribeiro, sob orientação do Prof. Dr. Fernando Eduardo Padovan Neto, fornecem uma base sólida para compreender a relevância da neuroeducação no ensino superior, evidenciando relações entre autoeficácia, adaptação acadêmica e saúde mental.

USP / FAPESP*

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