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Para onde foram os vagalumes?

Rui Flávio Chúfalo Guião *
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Na minha infância, um dos meus brinquedos favoritos era ficar no quintal escuro da minha casa  e pegar um dos inúmeros vagalumes que voavam baixo, na escuridão. Depois, era colocá-lo num vidro de pêssego, abrir  uns furinhos na tampa que o fechava, para garantir o oxigênio e curtir o pisca-pisca do inseto. Depois de algumas horas, devolvia o bichinho à natureza, certo de que, na noite seguinte, repetiria a operação.

Hoje, as nossas escuridões não são mais cortadas pela luz verde dos pirilampos, que desapareceram de nossas casas.

O que aconteceu? Acabaram-se os sonhos de nossa infância materializados na luz piscante? Os vagalumes foram extintos?

O vagalume é um tipo de inseto, na realidade um besouro, parente próximo dos demais besouros, mas, o único que consegue produzir luz. Isto acontece devido a um fenômeno chamado bioluminescência, que gera luz no abdome através de uma reação química muito eficiente, que gera luz, mas não calor. O vagalume produz assim uma luz fria.

O fenômeno se dá através de uma substância química encontrada no corpo do besouro, chamada luciferina, que se agrega à enzima luciferase e, em contato com o oxigênio, produz a luz, que pode ser verde, amarelada ou levemente azulada.

O vagalume produz o pisca-pisca para atrair as fêmeas. Interessante notar que cada espécie tem um padrão especial de piscada. Também ele usa a luz para confundir os predadores, insinuando que o besouro é tóxico ou com gosto ruim.

Algumas fêmeas têm a capacidade de imitar a luz, atraindo elas os machos. E mesmo as larvas do besouro emitem uma luz constante.

O desaparecimento dos vagalumes de nossos jardins e quintais pode ser explicado por vários motivos, sendo a mudança do ambiente o principal.

Eles dependem de áreas úmidas, matas e vegetação nativa, que vão se extinguindo com a expansão urbana. Além disto, seu pisca-pisca não se destaca na iluminação das cidades, afastando-os para lugares mais distantes.

O uso intenso de agrotóxicos não só mata os vagalumes, como também elimina suas presas, pequenos insetos e moluscos. E a mudança climática afeta o seu ciclo de vida, que é bastante sensível.

As pequenas luzes piscantes na escuridão noturna provocaram várias lendas e interpretações: nossos povos originários acreditavam que eram as almas das pessoas mortas, vagando pela noite. Ou espíritos protetores defendendo as matas. No Japão acreditava-se que os vagalumes eram as almas dos samurais mortos e símbolos de amor e saudade. E na Europa mensageiros de fadas ou espíritos da noite, trazendo bons augúrios aos que os vissem.

Há um lenda indígena dizendo que nos primeiros tempos, o homem tinha medo do escuro que se produzia depois do por do sol. Com a conquista da arte de fazer fogo, esta escuridão começou a ser vencida. Em determinado dia, um besouro roubou as chamas de uma fogueira e recebeu o castigo de continuar brilhando em toda sua descendência, nascendo daí os vagalumes.

No Brasil, o tempo dos vagalumes é na primavera e verão, se o clima está úmido, a temperatura está elevada e o lugar é bastante escuro.

Como as nossas cidades não proporcionam estas condições, se quisermos reviver as alegrias da infância, só indo para um campo que reúna as condições acima descritas.

O sonho infantil não acabou. Só se tornou mais difícil de ser revivido.

* Advogado e empresário, é presidente do Conselho da Santa Emília Automóveis e Motos e secretário-geral da Academia Ribeirãopretana de Letras

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