Conceição Lima *
A Inteligência Artificial, celebrada como a grande promessa tecnológica da década, pode estar enfrentando um problema inesperado: lapsos cognitivos semelhantes aos humanos. Pesquisadores canadenses identificaram sinais de “demência digital” em alguns dos principais modelos de linguagem, levantando dúvidas sobre a ideia de uma IA infalível.
Essa “novidade” pegou-nos de surpresa. O que se cogitava era se e quando a IA conseguiria superar os humanos em suas aptidões intelectuais. A possibilidade de qualquer declínio cognitivo das máquinas era impensável. Novos estudos, entretanto, descobriram que,assim como os idosos, as versões mais antigas dos chatbots também apresentam esquecimento e confusão. Ou seja, a IA perde a memória com o passar do tempo.
Em 2024, Roy Dayan, Benjamin Uliel e Gal Koplewitz submeteram sistemas como ChatGPT (versões 4 e 4o, da OpenAI), Claude 3.5 Sonnet (Anthropic) e Gemini (Alphabet/Google) ao teste clínico Montreal Cognitive Assessment (MoCA), usado para avaliar memória, atenção, linguagem e habilidades visuoespaciais em pacientes humanos. As instruções foram idênticas às aplicadas em consultórios médicos e a pontuação foi conduzida por um neurologista.
O ChatGPT 4o obteve a maior pontuação, seguido pelo ChatGPT 4 e Claude. O Gemini 1.0 apresentou o pior desempenho, com falhas graves em memória de evocação tardia.Todos os modelos apresentaram dificuldades em tarefas visuoespaciais/executivas, padrão semelhante ao observado em pacientes com atrofia cortical posterior, uma variante do Alzheimer.
A descoberta desafia a crença de que a IA substituirá médicos com precisão absoluta. Em vez de soberanos digitais, os modelos podem se tornar “pacientes virtuais”, sujeitos a lapsos e vulnerabilidades.“Se até sistemas avançados demonstram fragilidades cognitivas, como confiar-lhes a responsabilidade exclusiva pelo cuidado humano?”, questionam os pesquisadores.
Talvez esse experimento tenha jogado por terra a nossa vã esperança de uma Inteligência Artificial infalível e soberana. A crença de que a IA substituirá os médicos em breve, com precisão absoluta e autonomia total, parece agora comprometida. Em vez disso, os resultados sugerem uma perspectiva mais humilde e inquietante: os próprios modelos de IA podem se tornar “pacientes virtuais”, exibindo sinais de declínio cognitivo que refletem limitações intrínsecas e vulnerabilidades inesperadas.
Essa metáfora da “IA indo ao psiquiatra” não é mera ironia, mas um convite à reflexão profunda sobre a natureza da Inteligência Artificial. A soberania da IA, antes imaginada como inevitável, revela-se uma construção frágil, sujeita a falhas e imperfeições que nos lembram da complexidade da mente humana.
Ao invés de temer ou idolatrar a IA como substituta dos humanos, devemos reconhecê-la como uma entidade que, embora poderosa, está sujeita às suas próprias formas de vulnerabilidade. A verdadeira revolução talvez resida não na substituição, mas na colaboração entre humanos e máquinas, onde a consciência das limitações mútuas promova um cuidado mais ético, eficaz e compassivo.
Em última análise, a “IA indo ao psiquiatra” simboliza a necessidade de humildade epistemológica diante das tecnologias que criamos, um lembrete de que a inteligência, seja artificial ou natural, é sempre um território de desafios, incertezas e aprendizado contínuo.
* Doutora em Letras, com pós-doutorado em Linguística, escritora, conferencista e palestrante, membro eleito da Academia Ribeirãopretana de Letras e da Academia membro fundador da Academia Feminina Sul-Mineira de Letras

