André Luiz da Silva *
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No universo católico, a escolha de um novo Papa sempre é cercada por expectativas. O mundo deseja saber como o novo pontífice pensa, de que forma enxerga a sociedade à luz do Evangelho e quais serão as orientações para os mais de 1,4 bilhão de fiéis espalhados pelo planeta.
Assim ocorreu quando o cardeal Robert Francis Prevost foi eleito e assumiu o nome de Papa Leão XIV. Inspirado pelo legado de Francisco, mas imprimindo características próprias ao seu pontificado, Leão XIV rapidamente demonstrou firmeza ao cobrar das lideranças mundiais compromisso com a paz, a redução das injustiças sociais e a defesa da dignidade humana.
Recentemente, o Papa lançou “Magnifica Humanitas”, sua primeira encíclica. Já na introdução, o texto impressiona pela profundidade ao afirmar que a “magnífica humanidade criada por Deus encontra-se hoje diante de uma escolha decisiva: erguer uma nova Torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos”.
Em um tempo marcado por discursos alarmistas que tentam apresentar a tecnologia como inimiga da humanidade, Leão XIV propõe uma reflexão equilibrada e madura. O Papa recorda que cada geração recebe a missão de dar forma ao seu próprio tempo, fazendo da história um espaço onde a dignidade humana seja preservada, a justiça promovida e a fraternidade fortalecida.
No momento oportuno e no tom correto, o pontífice nos convida a refletir sobre o uso das tecnologias modernas, especialmente da chamada inteligência artificial. Seu alerta não é contra o progresso, mas contra a ausência de valores éticos capazes de orientar esse progresso.
Leão XIV chama a atenção para estratégias de poder que buscam dominar mercados, influenciar sociedades e manipular consciências por meio de ideologias sedutoras e narrativas cruéis. Para ele, não podemos ser conduzidos pelos algoritmos, mas sim pelo Evangelho, a verdadeira bússola moral da humanidade.
O Papa também não se omite ao denunciar as novas formas híbridas de guerra: ataques cibernéticos, manipulação de informações, campanhas de influência e automatização de decisões estratégicas. Com lucidez, destaca que a mesma inteligência artificial capaz de curar doenças e ampliar o conhecimento humano também pode ser utilizada para controlar, matar e destruir.
Da mesma forma, cobra responsabilidade das plataformas digitais, defendendo que cooperem de maneira ética com autoridades e com a sociedade civil para impedir que instrumentos de comunicação, pagamento e definição de perfis se transformem em ferramentas de exploração, manipulação e recrutamento de vítimas.
Ao invocar os princípios da Doutrina Social da Igreja — dignidade da pessoa humana, bem comum, solidariedade, subsidiariedade e justiça —, Leão XIV oferece critérios claros para avaliar se as tecnologias realmente servem à humanidade ou acabam por escravizá-la.
Independentemente da fé professada, todos aqueles que desejam um mundo mais justo e humano são convidados a ler, refletir e se inspirar na nova encíclica papal. Afinal, convivemos diariamente com computadores, smartphones e inteligências artificiais que transformam nossas relações, nosso trabalho e nossa forma de viver.
No entanto, não podemos esquecer que a mesma cultura digital que multiplica conexões e cria novas possibilidades de encontro também pode ampliar o isolamento, enfraquecer vínculos humanos e afastar as pessoas daquilo que lhes é mais essencial: a capacidade de olhar o outro com empatia, responsabilidade e espírito de fraternidade.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

