Por Hugo Luque
A quarta e última edição do guia da Copa do Mundo de 2026 do Tribuna Ribeirão traz como destaque a seleção brasileira. Em busca do tão sonhado – e adiado – hexacampeonato, a Canarinho terá a missão de superar a desconfiança acumulada após um ciclo turbulento, pouco organizado e marcado por uma campanha aquém das expectativas nas Eliminatórias Sul-Americanas.
Ainda assim, o Brasil é o país que mais vezes ergueu o troféu: cinco. Desde o primeiro título, em 1958, o mundo conhece o potencial do futebol verde e amarelo e, em outras situações semelhantes, de esperança moderada, boas campanhas foram feitas.
Por conta de sua tradição, dos talentos individuais e do renomado técnico italiano Carlo Ancelotti, o primeiro estrangeiro a comandar o time num Mundial, a seleção aparece como sexta equipe com mais chances de título segundo a Opta, maior provedora de dados e análises esportivas do planeta, com 6,7% de probabilidade. Estão à frente somente Espanha (16,45%), França (12,78%), Inglaterra (11,35%), Argentina (10,36%) e Portugal (6,94%).
No ranking oficial da Fifa, a seleção brasileira também aparece na briga com os lusitanos pelo quinto lugar, mas longe dos conjuntos que brigam ponto a ponto pela liderança: Argentina, Espanha e França.
A posição é fruto de um período de muita instabilidade entre 2022 e 2026. No Mundial do Catar, o Brasil foi comandado por Tite. Na primeira fase, passou na liderança do Grupo G sem convencer e empatado em pontos com a Suíça. No mata-mata, goleou a Coreia do Sul nas oitavas de final e, nas quartas, sofreu uma dura eliminação nos pênaltis para a Croácia – o gol de empate dos europeus foi marcado nos minutos finais da prorrogação.
Desde o título mais recente, em 2002, o time nacional viveu repetidos traumas em mata-mata. Em 2006, na Alemanha, caiu para a França nas quartas de final. Já em 2010, na África do Sul, o algoz foi a Holanda, também nas quartas. O único ano em que a queda não foi no antepenúltimo estágio foi em 2014, em campanha que terminou com o quarto lugar após o histórico 7 a 1 para a Alemanha, na semifinal, no Mineirão. Em 2018, na Rússia, mais uma queda nas quartas, diante da Bélgica. Tite também era o técnico naquela ocasião.
Assim, o profissional gaúcho encerrou seu ciclo após duas Copas consecutivas e o então presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ednaldo Rodrigues, chegou a acordo com Ancelotti, à época no Real Madrid, para substituí-lo. No aguardo pelo treinador, o dirigente manteve interinos no posto. Primeiro foi Ramon Menezes e, em seguida, Fernando Diniz. Contudo, o italiano decidiu não assumir o comando, e o escolhido de forma definitiva foi Dorival Júnior, campeão da Copa do Brasil pelo São Paulo, numa tentativa de estabilização.
Não funcionou. Foram sete vitórias, sete empates e duas derrotas em 16 partidas com o técnico. No caminho, a eliminação nas quartas de final da Copa América para o Uruguai, nos pênaltis, após uma primeira fase decepcionante, marcada pela classificação na segunda posição do Grupo D, atrás da Colômbia.
A passagem de Dorival pela seleção terminou pouco mais de um ano depois do início, em 28 de março de 2025, três dias depois da goleada por 4 a 1 sofrida no clássico com a Argentina, em Buenos Aires. Foi a maior goleada sofrida pelo Brasil na história das Eliminatórias e o pior revés para seu principal rival em mais de seis décadas.
Mas não era só a comissão técnica que passava por instabilidade. Na presidência da CBF desde 2021, inicialmente como interino, Ednaldo Rodrigues enfrentou problemas jurídicos a partir de dezembro de 2023, quando o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro promoveu sua destituição do cargo por considerar inválido o Termo de Ajuste de Conduta (TAC) celebrado em 2022 com o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). O TAC alterava as regras das eleições, que eram questionadas pelo MP desde a Assembleia de 2017 que pavimentou a eleição de Rogério Caboclo. Após um mês de afastamento, Ednaldo retornou ao poder por decisão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
No início de 2025, o STF e a Justiça legitimaram a eleição vencida por Rodrigues em 2022. Em março, ele antecipou o pleito e conseguiu a reeleição. No entanto, veio à tona uma acusação de fraude em um acordo anterior que dava sustentação à sua permanência, no qual a assinatura do dirigente Coronel Nunes foi contestada por suspeita de falsificação e incapacidade cognitiva do signatário. Em 15 de maio de 2025, o Tribunal de Justiça do Rio determinou uma nova destituição de Ednaldo Rodrigues do cargo. Fernando Sarney assumiu a presidência interinamente e, dez dias depois, Samir Xaud foi eleito para mandato até 2029.
Três dias antes da saída de Rodrigues, Carlo Ancelotti havia sido anunciado como o novo treinador da seleção. Ele iniciou o trabalho de 26 de maio e encerrou as Eliminatórias com o Brasil na frustrante quinta posição com 28 pontos, dez atrás da líder Argentina.
Foi a primeira vez que a Canarinho disputou as Eliminatórias e não ficou na primeira colocação desde a disputa por vaga no Mundial de 2002. Essa é apenas uma das semelhanças com a campanha do penta. Naquele ano, a seleção também enfrentava forte desconfiança, justamente pela campanha decepcionante no torneio da Conmebol, além do vice-campeonato em 1998 diante da França e as mudanças no comando técnico.
Assim como ocorreu com Neymar na convocação de 2026, o treinador da seleção naquela ocasião, Felipão, teve de tomar uma difícil decisão: chamar ou não o veterano Romário, de 36 anos, que fazia espetacular temporada com a camisa do Vasco. O Baixinho acabou de fora da lista há 24 anos, enquanto Neymar, que convive com problemas físicos no Santos, foi chamado por Ancelotti.
Além de Neymar, outros destaques da seleção brasileira nesta convocação são os atacantes Vinícius Júnior, do Real Madrid, e Raphinha, do Barcelona, os volantes Casemiro, do Manchester United, e Bruno Guimarães, do Newcastle, assim como os zagueiros Gabriel Magalhães, do Arsenal, e Marquinhos, do Paris Saint-Germain, escolhido como capitão do grupo.
A estreia do Brasil na Copa do Mundo será no sábado (13), às 19h (de Brasília), contra o Marrocos. No Grupo C, a seleção fará toda a primeira fase nos Estados Unidos. O primeiro confronto está agendado para o MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey. Em seguida, a equipe, que treina no CT do New York Red Bulls, também em Nova Jersey, encara o Haiti no Lincoln Financial Field, na Filadélfia, Pensilvânia, dia 19, às 21h30. O último duelo é contra a Escócia, em 24 de junho, às 19h, no Hard Rock Stadium, em Miami Gardens, Flórida.
A Canarinho tem uma variedade de possíveis cenários pela frente. Caso avance na liderança, fará duelo, na segunda fase, com o vice-líder do Grupo F (Holanda, Japão, Suécia ou Tunísia). Se ficar em segundo, enfrenta o primeiro dessa chave. Se a classificação vier com o terceiro lugar, os brasileiros encaram o líder do Grupo A, E ou I.
Maior campeão da história, o Brasil também é o único país a disputar todas as edições de Mundial. São cinco títulos (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002), dois vices (1950 e 1998), dois terceiros lugares (1938 e 1978) e dois quartos lugares (1974 e 2014). O retrospecto da seleção é de 114 jogos, com 74 vitórias, 19 empates, 19 derrotas, 237 gols marcados e 108 sofridos.
Curiosidades da Copa
Além da seleção brasileira e de outras potências já detalhadas pelo guia nas últimas semanas, outras equipes vão aos Estados Unidos, México e Canadá para seu primeiro Mundial. Os estreantes são Cabo Verde (Grupo H, com Espanha, Arábia Saudita e Uruguai), Curaçao (Grupo E, ao lado de Alemanha, Equador e Costa do Marfim), Jordânia (Grupo J, com Argentina, Argélia e Áustria) e Uzbequistão (Grupo K, enfrenta Portugal, Congo e Colômbia).
A classificação desses times é consequência da mudança de regulamento. Pela primeira vez na história, 48 equipes disputarão o troféu. O aumento de 16 times provocou alterações na estrutura do torneio, que agora terá 12 grupos e uma fase a mais de mata-mata, antes as oitavas de final, com 32 times e 16 embates. Avançam ao estágio eliminatório os dois primeiros de cada chave e os oito melhores terceiros colocados na tabela geral.
Será também a primeira Copa disputada em três países diferentes. Palco da final, a maior quantidade de sedes pertence aos Estados Unidos: MetLife Stadium (East Rutherford, Nova Jersey), SoFi Stadium (Inglewood, Califórnia), AT&T Stadium (Dallas, Texas), Gillette Stadium (Foxborough, Massachusetts), Arrowhead Stadium (Kansas City, Missouri), Mercedes-Benz Stadium (Atlanta, Geórgia), NRG Stadium (Houston, Texas), Hard Rock Stadium (Miami Gardens, Flórida), Lincoln Financial Field (Filadélfia, Pensilvânia), Levi’s Stadium (Santa Clara, Califórnia) e Lumen Field (Seattle, Washington). O México terá jogos em três campos: Azteca (Cidade do México), Estádio BBVA (Monterrey) e Estadio Akron (Guadalajara). Por fim, o Canadá terá duelos no BC Place (Vancouver) e no BMO Field (Toronto).

