Quando pensamos nos diversos ramos da Medicina, quase sempre recorremos aos estereótipos. Talvez nenhum seja tão injusto quanto o do médico ortopedista. Basta observar alguns dos instrumentos utilizados em cirurgias: martelos, osteótomos, serras, furadeiras, parafusos e placas metálicas. Para quem desconhece a profissão, a impressão é de um trabalho marcado pela força bruta.
Mas essa imagem está longe de revelar a essência desses profissionais.
Na infância, normalmente encontrávamos um ortopedista depois de alguma travessura. Uma queda de bicicleta, um jogo de futebol ou uma escalada em árvore terminavam com um braço ou uma perna imobilizados. Curiosamente, o gesso era exibido como um troféu, logo coberto pelas assinaturas dos amigos.
Com o passar dos anos, a relação muda. Já não são as peraltices que nos levam ao consultório, mas os sinais do tempo. A coluna reclama, os joelhos protestam, os ombros limitam os movimentos. Aos poucos, o ortopedista deixa de ser o médico dos acidentes e passa a ser um companheiro da maturidade.
Tenho o privilégio de conhecer dois deles que extrapolaram os limites da Medicina para deixar uma contribuição igualmente valiosa à educação e à cultura.
Refiro-me a Camilo André Mércio Xavier, nascido em Ribeirão Preto em 1927 e formado pela Faculdade de Medicina de Porto Alegre, e a Nelson Jacinto, nascido em Barretos, em 1939, graduado pela Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. Dois verdadeiros patrimônios vivos de nossa cidade.
Além da Ortopedia e da Traumatologia, ambos cultivam um profundo amor pela literatura. Camilo é um dos idealizadores da Incubadora Cultural, projeto que mobiliza milhares de estudantes da rede pública. Nelson coordena o Grupo de Médicos Escritores e Amigos e o Departamento Cultural do Centro Médico. Os dois são autores de diversos livros e demonstram que ciência e sensibilidade podem caminhar lado a lado.
Conversar com eles é sempre uma experiência enriquecedora. Impressionam pela simplicidade, pela generosidade e pela permanente disposição para aprender. Recentemente, tive a alegria de apresentá-los às possibilidades da inteligência artificial aplicada à música. Transformei alguns de seus poemas em canções e ambos se encantaram ao ouvir seus versos ganhando voz e melodia.
Vivemos tempos em que a Medicina, muitas vezes, parece ceder à lógica do mercado e pacientes acabam reduzidos a números. Ao mesmo tempo, também parece diminuir nossa capacidade de nos encantar com as pequenas maravilhas da vida: o canto de um pássaro, o voo de uma borboleta, uma folha caindo ou um jardim florescendo.
Talvez por isso a convivência com Camilo e Nelson seja tão valiosa. Eles provaram que é possível envelhecer sem perder a curiosidade, exercer a ciência sem abandonar a sensibilidade e construir um legado que vai muito além dos consultórios.
Suas obras circulam por bibliotecas, escolas e centros culturais. Seus poemas ecoam em saraus e, agora, também em canções. Seus exemplos mostram que a verdadeira grandeza de um médico não está apenas em cuidar dos ossos, mas também em fortalecer o espírito humano.
Já não sou o menino que exibia orgulhoso um braço engessado. Hoje, às vezes, preciso recorrer aos analgésicos, aos anti-inflamatórios e aos suplementos para aliviar as dores da idade. Mas aprendi que existem remédios que nenhuma farmácia vende.
Para a alma, poucas terapias são tão eficazes quanto uma boa conversa, uma roda de poesia e a companhia de dois ortopedistas que, depois de ajudarem milhares de pessoas a sustentar o corpo, continuam ajudando uma cidade inteira a sustentar sua cultura.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

