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Educar é preparar para o imprevisível

Foto: Arquivo

José Eugenio Kaça *
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O fim da idade medieval foi impulsionado por movimentos que colocavam a razão e o pensamento como ferramentas para combater obscurantismo religioso e os privilégios absolutistas. O Renascimento, substituiu o teocentrismo colocando em seu lugar o antropocentrismo, que colocava o ser humano e a razão no centro das decisões. Na mesma direção veio o movimento Humanista, e completando a trinca veio o movimento Iluminista, que colocou a ciência em detrimento da fé e da tradição. Estes movimentos através dos tempos ajudaram a humanidade a se desenvolver as tecnologias e a relação humana, apesar das guerras que nunca deixaram de acontecer.

Neste contexto a educação desempenhou um papel fundamental, pois foi através dela que os conhecimentos foram transmitidos de geração a geração, sendo a educação um processo pelo qual o ser humano exercita sua capacidade de aprender e ensinar.  No Brasil a educação básica pública, sempre; por conta do entreguismo arraigado na “elite” do poder, nunca conseguiu (apesar dos grandes pensadores) atingir o patamar de excelência que se espera de uma Nação. E sem uma educação básica pública de qualidade para todos, o pensamento crítico fica comprometido.

E sem uma educação básica pública libertadora, que construa a cidadania, não se tem uma Nação. E uma população sem pensamento crítico é facilmente manipulada, pois tem sempre um malandro engravatado de plantão esperando a oportunidade. Está havendo uma pandemia no ocidente, que cega as pessoas, fazendo com que elas se sintam atraídas pelas tradições de um passado longínquo, querendo trazer de volta a idade medieval, e com isso aniquilar todas as conquistas e evoluções que aconteceram nas relações humanas.

Em um passado recente, as pessoas tinham vergonha de expor ideias retrógadas, com medo do isolamento social, entretanto, essa pandemia escancarou o que a de pior no ser humano, e com a proliferação das redes sociais, quanto mais ódio melhor. Eu vi uma declaração de uma mulher (pra variar de extrema direta) em um podcast, onde ela afirmava que vivíamos melhor no passado, o entrevistador perguntou em que época? E ela respondeu tranquilamente: “a Idade Média, pois havia mais religião”. Isso mostra o nível de contaminação dessa gente, e isso é contagioso.

O ataque terrorista ao jornal Charlie Hebdo em 2015 em Paris por motivos religiosos, despertou um sentimento de revolta mundo a fora contra a religião mulçumana, que a violência não pode ser usada em nome da fé. Entretanto, a violência religiosa está entre nós. Os extremistas de direita falam o tempo todo em doutrinação esquerdista na educação, mas a prática cotidiana mostra quem são os doutrinadores. A perseguição as religiões de matriz africana acontecem há séculos no Brasil, mesmo a Constituição garantindo e protegendo os templos religiosos, as violações continuam, e nem a escola básica pública escapa.

A perseguição é escancarada, em Salvador (Bahia) a doutrinação alcançou as vendedoras de acarajé, que foram convencidas pelo cristianismo, que a sua religião e suas vestimentas eram coisas do demônio, e com isso muitas abandonaram seus ornamentos tradicionais – quanta violência. Agora a doutrinação chegou as forças de segurança pública. Em Manaus, uma equipe de policiais militares, invadiu um centro religioso de matriz africana, e aprendeu os instrumentos musicais usados na cerimônia religiosa, alegando que o som estava alto, isso sem um medidor de decibéis – eu nunca fiquei sabendo que a polícia invadiu uma igreja pentecostal para aprender aparelhos de som.

Em São Paulo, uma equipe de policiais militares armados de metralhadoras, invadiu uma escola de educação infantil, para questionar a figura de Iansã, que fazia parte da aula de história da cultura afro-brasileira, um absurdo incomensurável. O que aconteceu em Paris em 2015, está se repetindo agora, só que não são os mulçumanos – agora é o cristianismo, usando as mesmas ferramentas que tanto combateram.A história para boi dormir, que só vamos evoluir se tivermos um Estado mínimo é o modo de iludir da extrema direita, para tentar criar um Estado teocrático.

Só a educação básica libertadora poderá nos livrar do obscurantismo.

* Pedagogo, líder comunitário e ex-conselheiro da Educação

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