André Luiz da Silva *
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A eliminação do Brasil na Copa de 2026 surpreendeu apenas quem ainda confunde esperança com favoritismo. Para quem acompanha futebol sem a lente do ufanismo, o desfecho já rondava havia muito tempo. O inesperado não foi perder. Foi perder tão cedo.
O futebol tem uma curiosidade: é um esporte em que onze jogam, milhões opinam e quase sempre a culpa recai sobre um só. Basta o atacante perder um gol feito ou errar a cobrança de pênalti e o goleiro aceitar uma bola defensável para nascer um culpado oficial. Enquanto isso, dirigentes continuam aprontando, interesses políticos e econômicos continuam prevalecendo e convocações difíceis de explicar acabam dissolvidas na fumaça da indignação coletiva.
A discussão mais apaixonada da preparação para a Copa talvez nem tenha sido sobre esquema tático ou renovação da equipe. Foi sobre a possibilidade de uma camisa vermelha. Houve quem decretasse que aquilo era uma afronta à história nacional, como se a cor do tecido fosse capaz de alterar o placar. No mesmo torneio, Holanda, França e Japão exibiram uniformes que não trazem as cores de suas bandeiras. A Bélgica, inclusive, entrou em campo com um modelo homenageando o artista surrealista René Magritte. Não consta que a arte tenha atrapalhado ninguém. Nem ajudado. Porque, no fim das contas, continua sendo a bola que precisa entrar.
Também nos convencemos de que um jogador frequentemente lesionado, sem grande brilho nem mesmo no campeonato nacional, reapareceria como herói. O futebol adora milagres, mas eles costumam ser menos frequentes do que as manchetes prometem. Talvez esteja na hora de guardar as cinco estrelas no lugar onde elas realmente pertencem: na história. História serve para inspirar, não para ganhar jogo.
Em compensação, as Copas produzem imagens que valem mais do que estatísticas. Uma delas sempre volta à memória. Em 1958, quando a Suécia abriu o placar na final, Didi caminhou tranquilamente até a rede, pegou a bola e voltou ao meio-campo sem um gesto de desespero. Era como se dissesse aos companheiros que noventa minutos são muito tempo para quem sabe jogar futebol. Vencemos por 5×2. Ele foi eleito o melhor jogador daquela Copa e voltou em 1962 para ser bicampeão. Não é a postura que encontramos nos atletas mais experientes das últimas seleções. A calma também pode ser uma forma de liderança.
Esta Copa teve ainda seus absurdos: decisões incompreensíveis do VAR, cartões que desapareceram como truques de ilusionismo e polêmicas suficientes para abastecer mesas-redondas por muitos anos. Mas isso passa. O futebol sempre encontra um novo motivo para discutir.
O que permanece são as imagens das torcidas. Coreografias, cantos, bandeiras e gente que atravessou oceanos para acompanhar seleções sem tradição de títulos, mas com sobra de identidade. Chamou atenção Michel Mboladinga, da República Democrática do Congo que assistia às partidas imóvel, transformando o silêncio em homenagem a Patrice Lumumba. Há torcedores que gritam. Outros conseguem dizer muito sem abrir a boca.
Talvez o contraste mais bonito tenha aparecido depois da eliminação. Enquanto a delegação brasileira preferiu desaparecer discretamente, jogadores de Cabo Verde, Irã, Japão e Paraguai voltaram para casa recebidos como vencedores. Não porque levantaram a taça, mas porque entregaram tudo o que podiam entregar. Às vezes, o torcedor não exige o título. Exige apenas reconhecer seu time em campo.
Talvez seja esse o problema do Brasil há algum tempo. Não perdemos apenas grandes jogadores. Perdemos um pouco da nossa identidade futebolística. Continuamos apaixonados pelo jogo, e isso dificilmente mudará. Mas paixão também precisa aprender a cobrar. Afinal, camisa pesa, escudo emociona e passado inspira. Quem vence partidas, porém, continua sendo o velho e teimoso futebol bem jogado.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

