Rodrigo Gasparini Franco *
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Pelas minhas andanças pelos sebos encontrei uma obra-prima de um autor muito pouco conhecido no Brasil, conhecido como Pitigrilli, pseudônimo de Dino Segre, um autor italiano da década de 1920. Explicava Dino Segre que adotou esse pseudônimo porque fazia questão de colocar todos os pingos nos “is”. Ao abrir A virgem de 18 quilates, o leitor se depara com uma prosa afiada, irreverente e recheada de humor ácido – qualidades que tornam o livro, mais do que um romance, um espelho cortante da sociedade europeia do entre-guerras.
O romance acompanha, com ritmo ágil e observações mordazes, personagens que encarnam os vícios e hipocrisias do seu tempo. Pitigrilli não se detém apenas em descrever acontecimentos: ele comenta, julga e zomba. As tiradas espirituosas surgem quase a cada parágrafo, como quando afirma que se fazem lazaretos para os coléricos, manicômios para os loucos, prisões para os delinquentes, e não há um asilo fechado para os imbecis, que são muito mais perigosos do que os coléricos, do que os loucos e do que os criminosos. Esse tipo de frase resume bem a intenção do autor: desnudar as aparências sociais por meio de uma sagacidade que mistura escárnio e perspicácia.
A construção dos personagens é outro trunfo da obra. São figuras que transitam entre a comédia e a caricatura, mas sem perder a humanidade – aliás, é essa ambiguidade que alimenta a força crítica do livro. Pitigrilli observa com compaixão e desprezo simultâneos, descreve seduções e fraquezas, convertendo episódios aparentemente triviais em pequenos estudos de caráter. A protagonista central, cujo destino se entrelaça com o símbolo do título, serve de pretexto para explorar temas como desejo, vaidade, reputação e o mercado moral da sociedade burguesa.
Estilisticamente, a narrativa é econômica quando necessário e expansiva quando quer satirizar. A linguagem de Pitigrilli é ao mesmo tempo coloquial e literária: ele sabe quando pisar no acelerador do sarcasmo e quando refrear o tom para permitir uma observação mais sutil. Essa oscilação mantém o leitor atento – ora provocado por uma frase de efeito, ora surpreendido por um insight quase filosófico sobre as relações humanas. Não é pouca coisa encontrar, em um romance de 1920, reflexões que ainda soam atuais sobre fama, aparência e a indústria do escândalo.
O contexto histórico também confere pistas sobre o singular temperamento do autor. Escrito na Europa de entreguerras, o livro respira um ar de transição: a moral vitoriana já se dissolve, mas novas convenções ainda não se firmaram. Pitigrilli explora essa zona cinzenta como cenário ideal para suas ironias, mostrando como a modernidade traz novas formas de hipocrisia. Nesse sentido, A virgem de 18 quilates funciona tanto como crônica social quanto como fábula moral invertida – nela, os valores se declaram e se contradizem em cada página.
Apesar do tom celebratório que por vezes permeia o texto, não falta ao autor um posicionamento crítico. Ele não se limita a zombar por esporte; suas sátiras têm alvo: a complacência da opinião pública, a pressa em julgar sem entender, e a facilidade com que escândalos se transformam em espetáculo. Ao narrar situações de prazer e humilhação, Pitigrilli mostra como a sociedade consome os corpos e as reputações como se fossem mercadorias de fácil negociação.
A recepção da obra fora da Itália ilustra uma contradição curiosa: Pitigrilli foi, em seu tempo, celebrado por alguns como cronista espirituoso e condenado por outros como provocador imoral. Hoje, encontrá-lo num sebo brasileiro evoca essa mistura de brilho literário e mau nome que acompanha tantos escritores inovadores. Ler A virgem de 18 quilates é, portanto, aceitar um convite a rir e a desconfiar – rir das contradições alheias e desconfiar das próprias certezas.
Para leitores brasileiros, a experiência traz ainda a oportunidade de resgatar uma voz européia que pouco circulou por aqui, mas que, não obstante a distância temporal e linguística, fala diretamente das pequenas e grandes misérias humanas. Pitigrilli, com seu pseudônimo tão deliberadamente transparente, põe os pingos nos “is” e convida à leitura crítica: cair na tentação de espetacularizar erros alheios é, afinal, comportamento tão humano quanto digno de escárnio. A virgem de 18 quilates permanece, assim, um texto que incomoda e diverte – exatamente o tipo de livro que se encontra nos cantos dos sebos e resiste a ser esquecido.
* Advogado e consultor empresarial de Ribeirão Preto, mestre em Direito Internacional e Europeu pela Erasmus Universiteit (Holanda) e especialista em Direito Asiático pela Universidade Jiao Tong (Xangai)

