Aguinaldo Rodrigues da Silva *
Presidente do Sindtur e do Observatório Econômico e Turismo de Ribeirão Preto e Região
O desafio de Ribeirão Preto talvez não seja criar uma cidade turística do zero. É conectar aquilo que a cidade já possui.
Um dado da pesquisa realizada pelo Observatório durante a Agrishow 2026 ajuda a dimensionar essa oportunidade. Entre os participantes entrevistados, 88,7% afirmaram não ter realizado atividades turísticas em Ribeirão Preto durante sua permanência na cidade.
O visitante já estava aqui.
Não era necessário convencê-lo a viajar centenas de quilômetros até Ribeirão Preto. Ele já havia chegado. O desafio era fazer com que permanecesse algumas horas a mais, realizasse uma refeição,conhecesse um equipamento cultural, visitasse um atrativo, consumisse em um estabelecimento local ou, quem sabe, permanecesse mais uma noite.
Imagine o impacto econômico se uma parcela desses visitantes incorporasse ao compromisso principal uma experiência turística na cidade.
Uma visita ao Theatro Pedro II, ao Quarteirão Paulista ou aos museus. Uma parada no Pinguim. Uma experiência gastronômica. Uma visita a uma cervejaria. Uma tarde de compras. Um passeio pelo patrimônio histórico. Ou ainda uma experiência regional integrada aos municípios do entorno.
Não se trata necessariamente de inventar novos atrativos. Trata-se de apresentar, organizar e conectar os que já existem.
Ribeirão Preto conquistou, em agosto de 2025, o título de Município de Interesse Turístico (MIT), uma conquista inédita para a cidade. O reconhecimento representa também uma mudança de perspectiva: o município passa a olhar para o turismo não apenas como consequência de sua força econômica, mas como uma atividade capaz de gerar emprego, renda, consumo e desenvolvimento.
Com mais de 700 mil habitantes, uma economia regional de grande influência e uma estrutura robusta de serviços, Ribeirão Preto já possui muitos dos elementos necessários para disputar espaço como destino turístico do interior paulista.O que ainda falta é transformar fluxo em permanência.
3. E, para isso, informação é fundamental.
Durante muito tempo, Ribeirão Preto não contou com uma série histórica municipal suficientemente estruturada para medir sua demanda turística. O próprio Conselho Municipal de Turismo já apontava a necessidade de pesquisas de demanda e de acompanhamento sistemático da ocupação dos meios de hospedagem.
Essa realidade começa a mudar.
O levantamento realizado pelo Observatório do Turismo, com 54 dos 59 hotéis ativos, representa um avanço na compreensão do setor. Os dados mostram uma hotelaria movimentada por negócios e eventos, mas também por saúde, compras, educação e outras motivações.
Isso muda a pergunta.
Talvez não seja mais necessário perguntar simplesmente “quantos turistas Ribeirão Preto recebe?”. É preciso perguntar: quem são essas pessoas, por que vêm, quanto tempo permanecem, onde gastam, o que fazem durante a estadia e o que poderia fazê-las ficar mais tempo?
É nesse ponto que a comparação com Olímpia pode ser mais produtiva.
Olímpia ensina que é possível transformar uma vocação em produto turístico, criar uma identidade e comunicar essa identidade de maneira consistente. Ribeirão Preto, entretanto, não precisa copiar o modelo olimpiense.
Pode construir o seu próprio.
A cidade tem condições de trabalhar um turismo integrado, reunindo negócios, eventos, saúde, cultura,gastronomia, compras, patrimônio, entretenimento e turismo regional. Em vez de depender de um único grande atrativo, pode transformar a diversidade em sua principal força.
A grande questão não é saber se Ribeirão Preto tem turismo.
Tem.
A questão é quanto desse turismo ainda permanece invisível.
Se os visitantes já chegam à cidade, se os hotéis estão estruturados, se os eventos movimentam milhares de pessoas e se existe uma ampla oferta de serviços, o próximo passo é criar estratégias para que esse fluxo se transforme em experiência turística e impacto econômico.
Olímpia mostrou ao interior paulista a força de uma cidade que sabe vender seu principal produto turístico.
Ribeirão Preto pode mostrar outra possibilidade: a de uma cidade que transforma sua própria diversidade em destino.
Talvez, no fim das contas, a pergunta não deva ser “o que Olímpia tem que Ribeirão Preto não tem?”.
4. Talvez seja: o que Ribeirão Preto já tem, mas ainda não aprendeu a transformar em turismo?

