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Trégua não é vitória

CDC/James Gathany
Avaliação considera a possibilidade de aumento da proliferação do mosquito Aedes aegypti e da transmissão de dengue, chikungunya e zika vírus

A queda de cerca de 70% nos casos prováveis de dengue no país em 2026 é uma boa notícia, mas não autoriza relaxamento. O próprio levantamento do Ministério da Saúde mostra a contradição: entre os 3.732 municípios que enviaram dados ao governo federal, 49,2% estavam em situação de alerta ou risco para presença do Aedes aegypti. Além disso, mais de 40% dos criadouros identificados estavam em vasos, garrafas e pequenos recipientes do cotidiano. A redução da doença, portanto, convive com ampla circulação do mosquito, cenário que pode mudar rapidamente com a combinação de calor e chuvas.

Ribeirão Preto oferece um exemplo claro dessa necessidade de cautela. Até 16 de setembro, o município havia registrado 380 casos de dengue e nenhuma morte em 2026, contra 21.455 casos e 11 óbitos no mesmo período de 2025. Em 2024, a cidade enfrentou a pior epidemia de sua história, com 44.630 casos confirmados. A melhora atual é expressiva e reflete ações de vigilância, assistência e combate ao vetor, mas o passado recente mostra como o quadro pode se deteriorar de uma temporada para outra. Entre janeiro e junho deste ano, mais de 313 mil imóveis foram vistoriados e 14.468 focos eliminados, sinal de que a baixa incidência não ocorreu por acaso.

A cidade também começa neste mês a implantação do método Wolbachia em 16 bairros das zonas Norte e Oeste, alcançando mais de 141 mil moradores. A tecnologia, conduzida em parceria com a Fiocruz e o Ministério da Saúde, reduz a capacidade do mosquito de transmitir dengue, zika e chikungunya e representa avanço importante. Mas inovação não substitui o básico. Coleta adequada de resíduos, fiscalização de imóveis, eliminação de criadouros, abastecimento de água regular e manutenção urbana precisam funcionar continuamente. Transferir toda a responsabilidade ao morador seria simplificar um problema que depende também da capacidade do poder público de organizar e cuidar da cidade.

O maior risco agora é transformar a queda dos casos em sensação de vitória definitiva. O Ministério da Saúde já alertou para condições climáticas associadas ao El Niño que podem favorecer novo aumento das arboviroses, e projeções do InfoDengue/Fiocruz indicam possibilidade de forte recrudescimento em 2027. Dengue não se combate apenas quando hospitais lotam e mortes aparecem nas estatísticas. O momento de menor transmissão deveria ser justamente o período de maior preparação. Ribeirão Preto aprendeu, de maneira dura, quanto custa reagir tarde. Manter a vigilância quando os números melhoram é menos visível politicamente, mas é exatamente o que impede que a próxima epidemia comece.

 

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