Tribuna Ribeirão
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O GPS da Alma e o Segredo dos Anos

José Aparecido Da Silva*

 

Numa manhã ensolarada de domingo, daquelas em que o café passa sem pressa e a brisa convida à leitura, é inevitável não filosofar um pouco sobre a passagem do tempo. Olhamos ao redor e percebemos uma curiosa ironia da vida: enquanto algumas pessoas chegam aos oitenta anos sentindo o peso do esquecimento, outras alcançam a mesma idade com uma vivacidade de dar inveja, desfiando memórias com a precisão de quem conta um causo de ontem.

Durante muito tempo, acreditou-se que o envelhecimento da mente era uma conta matemática exata e inflexível. No entanto, a neurociência descobriu um segredo fascinante que os poéticos já desconfiavam: o cérebro não é uma máquina que apenas se desgasta, mas um jardim que se adapta. A esse fenômeno, a ciência deu o nome de Reserva Cognitiva.

Para entender essa ideia sem complicações, imagine o cérebro como um mapa rodoviário. Ao longo dos anos, é natural que algumas estradas principais sofram obras ou fiquem bloqueadas pelo envelhecimento habitual. Quando isso acontece em um cérebro que pouco navegou, o trânsito para e o esquecimento aparece. Mas, quando a pessoa passou a vida construindo atalhos — lendo livros, aprendendo coisas novas, conversando, fazendo amigos e enfrentando desafios —, o cérebro ganha um GPS inteligente. Ele simplesmente desvia do bloqueio, encontra uma nova rota e continua funcionando com pleno vigor.

Essa “poupança mental” não é acumulada apenas nos bancos escolares da juventude. Ela é alimentada diariamente, em qualquer fase da vida. Cada conversa estimulante na mesa do almoço, cada palavra cruzada completada, cada instrumento musical ensaiado e até cada caminhada pelo bairro funcionam como tijolos na construção dessa fortaleza invisível. Mais impressionante ainda é o grupo dos chamados “superidosos”. São homens e mulheres de oitenta ou noventa anos que ostentam uma memória e uma rapidez de raciocínio comparáveis às de pessoas trinta anos mais jovens. Quando os cientistas olharam de perto para a rotina desses verdadeiros mestres do tempo, notaram hábitos muito claros: eles mantêm laços afetivos profundos, recusam-se a parar de aprender, movem o corpo e cultivam uma curiosidade insaciável pelo mundo. A mente deles não parou porque eles nunca deixaram de se encantar com o dia de hoje.

A grande lição que a ciência nos presenteia neste domingo é de uma esperança profunda: o destino da nossa mente não está totalmente escrito na biologia. Cada escolha que fazemos hoje conta. Por isso, enquanto você aprecia esta crônica e aproveita o seu domingo de sol, saiba que já está investindo na sua própria reserva. Rir com os amigos, cultivar um bom hobby, apaixonar-se por uma nova ideia ou simplesmente conversar com afeto são maneiras deliciosas de dizer ao tempo que a nossa mente permanece jovem, pronta para o próximo capítulo.

Professor Titular Sênior da USP-RP*

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