Quando 98% das mulheres dizem adotar alguma estratégia para reduzir o risco de sofrer violência, a insegurança deixa de ser apenas uma percepção e passa a interferir concretamente no direito de circular, trabalhar, estudar e ocupar a cidade. A pesquisa dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, feita com 1,5 mil pessoas, é um levantamento de opinião e autorrelato, portanto não deve ser confundida com estatísticas policiais de ocorrência. Ainda assim, seus resultados encontram respaldo em dados oficiais. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado, apontou em 2025 que 34% das brasileiras haviam vivenciado, nos 12 meses anteriores, ao menos uma das 19 situações de violência investigadas e que 79% percebiam aumento da violência contra a mulher.
A violência concreta ajuda a explicar o medo. O Mapa da Segurança Pública registrou 1.459 feminicídios e 71.834 estupros de vítimas do sexo feminino em 2024, além de aumento de 16,1% nas tentativas de homicídio contra mulheres. Há algum sinal positivo mais recente: entre janeiro e julho de 2026, o país contabilizou 848 feminicídios, queda de 3,2% em relação ao mesmo período de 2025. A redução merece ser registrada, mas está longe de autorizar uma leitura confortável diante da dimensão das demais formas de violência e da própria subnotificação.
O aspecto mais inquietante é que o medo passou a organizar escolhas cotidianas. Mulheres deixam de frequentar determinados lugares, evitam sair à noite, alteram trajetos e, segundo a pesquisa, 45% já abriram mão de oportunidades de trabalho ou estudo por receio da violência. Isso transforma segurança pública em questão também de igualdade econômica e cidadania. Parte da população precisa calcular permanentemente horário, transporte, roupa, companhia e caminho, portanto não há igualdade. Iluminação, transporte público seguro, planejamento urbano e canais de denúncia são importantes, mas não substituem investigação eficiente, proteção às vítimas, responsabilização dos agressores e políticas de prevenção.
O Brasil avançou na legislação e vem ampliando instrumentos de monitoramento, como o Sistema Integrado Mulher Segura, criado em 2026 para reunir dados hoje dispersos entre diferentes órgãos públicos. O desafio é transformar normas, bancos de dados e campanhas em proteção perceptível nas ruas e dentro de casa. Não é razoável considerar normal que quase toda mulher desenvolva uma estratégia pessoal para simplesmente reduzir o risco de violência. Quando o medo determina onde alguém pode ir e quais oportunidades pode aceitar, a violência produz efeitos mesmo antes de acontecer. E uma sociedade que naturaliza essas renúncias acaba convertendo insegurança em desigualdade.

