Foro Argentina Andina reuniu lideranças empresariais e institucionais em Tucumán e abriu uma agenda de cooperação entre o setor sucroenergético brasileiro e o Norte da Argentina
A experiência brasileira na transformação da indústria sucroenergética ganhou destaque na segunda edição do Foro Argentina Andina, realizada em 1º de outubro, em San Miguel de Tucumán. O encontro reuniu autoridades, diplomatas, empresários e especialistas para discutir mineração, energia, infraestrutura, investimentos e desenvolvimento produtivo nas províncias do Norte argentino.
Promovido pela Fundación Federalismo y Libertad, juntamente com a Fundação Friedrich Naumann e o International Republican Institute, o fórum teve como objetivo incentivar políticas públicas capazes de aumentar a competitividade regional, atrair investimentos e fortalecer setores estratégicos. A agenda incluiu minerais críticos, petróleo e gás, energias renováveis, bioetanol, infraestrutura, segurança jurídica e integração regional.
“A Argentina tem uma oportunidade histórica no Norte.” A declaração de José Guillermo Godoy, presidente da Fundación Federalismo y Libertad, sintetiza o propósito do encontro: colocar o potencial produtivo das províncias do Norte no centro da agenda nacional e aproximar autoridades, empresas, investidores, especialistas e instituições capazes de transformar recursos naturais em desenvolvimento regional.
A participação brasileira foi articulada em parceria com a KLEEK Soluções Integradas, consultoria especializada em gestão e estratégia para o setor sucroenergético. Seu diretor-presidente, Gabriel Sustaita, moderou o painel “Macroeconomia, investimentos e bioetanol: oportunidades para o desenvolvimento energético federal”, conectando a experiência brasileira aos desafios produtivos e energéticos da Argentina.
A iniciativa aproximou duas regiões fortemente vinculadas à cana-de-açúcar: o polo sucroenergético do estado de São Paulo e a província de Tucumán, principal produtora açucareira argentina. A proposta foi posicionar essa cooperação para além de uma simples transferência de tecnologia, construindo uma visão compartilhada sobre eficiência industrial, bioeletricidade, biocombustíveis, formação profissional e novos modelos de negócio para a agroindústria regional.
A experiência do Grupo Viralcool
Um dos destaques do painel foi Antonio Eduardo Tonielo Filho, diretor-superintendente do Grupo Viralcool, que apresentou a trajetória de crescimento, modernização e diversificação energética do grupo brasileiro.
Tonielo explicou que, há cerca de 30 anos, a geração e a comercialização de eletricidade ainda eram consideradas atividades distantes da função tradicional das usinas. Atualmente, a energia elétrica tornou-se um dos principais produtos do Grupo Viralcool, enquanto o bagaço ganhou valor como insumo energético para diferentes cadeias industriais.
A experiência demonstra que essa transformação não depende apenas da instalação de novos equipamentos. Ela exige eficiência térmica, melhor gestão do vapor, planejamento industrial, contratos adequados, estabilidade regulatória e uma visão integrada dos mercados de açúcar, etanol e eletricidade.
A dimensão do Grupo Viralcool tornou a comparação particularmente relevante. Sua escala projetada de moagem é semelhante à de toda a província de Tucumán. O caso apresentado, portanto, não corresponde a uma experiência distante ou impossível de ser reproduzida, mas a uma referência empresarial de dimensão comparável à principal região canavieira argentina.
Potencial de 1,45 TWh de bioeletricidade por ano
Ao projetar os indicadores brasileiros sobre a realidade argentina, o painel dimensionou o potencial existente na modernização das usinas. Considerando uma moagem da ordem de 20 milhões de toneladas de cana e uma eficiência de exportação próxima de 72 kWh por tonelada, a indústria poderia alcançar aproximadamente 1,45 TWh de bioeletricidade por ano.
Esse volume representa uma potência média equivalente próxima de 355 MW durante uma safra de 170 dias, ou cerca de 165 MW médios quando a geração anual é distribuída ao longo de todo o ano. O investimento estimado para modernizar caldeiras, turbogeradores e sistemas industriais foi apresentado na ordem de US$ 320 milhões, com possibilidade de implementação em um período de 18 a 24 meses.
Além do impacto energético, a modernização permitiria criar novas fontes de receita, aumentar a competitividade das usinas, fortalecer fornecedores locais e ampliar a capacidade de investimento de uma atividade com forte presença econômica, territorial e social no Norte argentino.
Energia renovável para acompanhar a mineração
O tema ganha relevância diante do avanço da mineração de lítio, cobre e outros minerais críticos no Noroeste argentino. Se esses minerais são fundamentais para baterias e para a transição energética mundial, o fórum colocou uma questão estratégica: por que não atender parte da demanda elétrica incremental da mineração com energia renovável produzida na própria região?
A bioeletricidade da cana apresenta vantagens particulares. Trata-se de uma geração renovável, térmica e administrável, com maior previsibilidade de despacho que as fontes solar e eólica. Sua produção durante a safra também pode complementar a geração hidrelétrica em períodos de menor disponibilidade hídrica.
Com maior eficiência industrial, formação de estoques de bagaço e integração com a produção de etanol, existe ainda a possibilidade de prolongar a cogeração para além do período tradicional de moagem.
Nesse contexto, as usinas podem evoluir para verdadeiras plataformas bioenergéticas, capazes de produzir açúcar, etanol de cana e de grãos, eletricidade, levedura e outros produtos de maior valor agregado, reduzindo simultaneamente seu consumo de gás natural.
Formação profissional e cooperação tecnológica
Também integrou a agenda brasileira Gilmar Galon, gestor do Centro de Excelência em Cana-de-Açúcar do Sistema FAESP/SENAR-SP, em Ribeirão Preto.
O Centro atua na capacitação de produtores e trabalhadores, na formação profissional e na difusão de tecnologia para toda a cadeia sucroenergética. Sua participação abriu novas possibilidades de intercâmbio técnico entre São Paulo, Tucumán e outras províncias produtoras do Norte argentino.
Essa aproximação complementa articulações já iniciadas pela UDOP – União Nacional da Bioenergia, inclusive com a Estación Experimental Agroindustrial Obispo Colombres (EEAOC), instituição de referência em pesquisa, inovação e desenvolvimento tecnológico para a agroindústria de Tucumán.
A UDOP já reúne usinas associadas na Argentina e trabalha para ampliar sua rede de relacionamento no país, oferecer melhores soluções ao setor e criar condições para novos encontros, intercâmbios e eventos técnicos em território argentino.
A combinação entre a experiência institucional da UDOP, o conhecimento científico da EEAOC, a capacidade de formação do Sistema FAESP/SENAR-SP e casos empresariais como o do Grupo Viralcool pode aproximar pesquisa, capacitação, tecnologia, gestão e aplicação prática.
Do diálogo a uma agenda concreta
A partir do diálogo iniciado em Tucumán, a KLEEK Soluções Integradas colocou-se à disposição para contribuir com o relacionamento entre os diferentes atores dos ecossistemas sucroenergéticos brasileiro e argentino.
Mais do que reproduzir diretamente o modelo brasileiro, a proposta é compartilhar experiências, tecnologias e modelos de gestão que possam ser adaptados às características produtivas, econômicas e regulatórias da Argentina.
O próximo passo poderá ser a construção, juntamente com a Fundación Federalismo y Libertad, de uma agenda institucional e empresarial no estado de São Paulo, com visitas técnicas e encontros com usinas, empresas de tecnologia, produtores, entidades representativas e centros de formação da região de Ribeirão Preto.
Essa agenda poderá fortalecer as iniciativas que a UDOP já desenvolve com o setor argentino, ampliar a participação de usinas locais em sua rede e criar oportunidades para programas de capacitação, intercâmbios, estudos conjuntos e novos eventos no país.
O Foro Argentina Andina deixou, assim, uma mensagem estratégica: o crescimento da mineração no Norte argentino exigirá mais energia e infraestrutura, mas também poderá impulsionar a modernização de cadeias produtivas já instaladas no território.
A cooperação com o ecossistema sucroenergético brasileiro pode contribuir para transformar esse desafio em uma agenda concreta de investimentos, inovação e desenvolvimento regional, somando capacidades institucionais, conhecimento tecnológico e experiências empresariais dos dois países.
Encontro reuniu a experiência institucional da UDOP, o conhecimento científico da EEAOC, a capacidade de formação do Sistema FAESP/SENAR-SP e casos empresariais como o do Grupo Viralcool – Fotos: Divulgação





