André Luiz da Silva *
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Para os amantes do futebol, o fim de dezembro e o início de janeiro costumam trazer uma sensação incômoda: a ausência dos grandes jogos dos clubes brasileiros. É o período em que o calendário desacelera e o torcedor precisa buscar alternativas para manter acesa a chama da paixão. Uma delas, para mim, foi acompanhar a Copa Africana das Nações. A cada edição, a competição revela sua impressionante evolução, expondo talentos que logo despertam o interesse de clubes europeus e de outros grandes centros do futebol mundial.
Entre uma partida e outra, algo além das quatro linhas me capturou por completo. Com entusiasmo, assisti a alguns jogos e logo me encantei com uma homenagem singular protagonizada por um torcedor da República Democrática do Congo, KukaMuladinga. Ele se comportava como uma verdadeira estátua durante os 90 minutos das partidas de sua seleção. Imóvel sobre um pequeno banco, com um braço erguido, recriava a pose icônica do falecido líder Patrice Lumumba — símbolo poderoso da independência congolesa e do orgulho nacional.
Vestindo um terno nas cores da bandeira da República Democrática do Congo, Kuka representava Lumumba, primeiro-ministro do país entre junho e setembro de 1960. A homenagem era dirigida a uma das figuras mais importantes não apenas da história congolesa, mas de toda a África. Lumumba foi decisivo no processo de independência do país e acabou assassinado em 1961, aos 35 anos. Seu fim trágico teve a participação dos governos dos Estados Unidos e da Bélgica, antiga potência exploradora da região, sob a alegação de uma possível ligação com a então União Soviética.
Dentro de campo, entre tantas narrativas emblemáticas, a partida final merece destaque especial. O confronto reuniu os donos da casa, Marrocos, liderados por Mohamed Salah e Brahim Díaz, diante do Senegal de Sadio Mané. O jogo caminhava para o empate quando, após indicação do VAR, o árbitro assinalou um pênalti a favor de Marrocos.
Inconformado, o técnico senegalês Pape Thiaw pediu que sua equipe deixasse o gramado em protesto contra o que considerava uma injustiça. Parte do elenco obedeceu e seguiu para o vestiário. O caos se instalou: torcedores revoltados, confrontos nas arquibancadas e a ameaça real de a partida ser interrompida definitivamente. Mas Sadio Mané permaneceu sozinho em campo. Ele se recusou a aceitar a desistência. Correu até o vestiário, confrontou os companheiros e, aos gritos, lançou o desafio que mudaria a história do jogo: “Vamos jogar como homens!”.
Com calma e determinação, Mané convenceu o time a retornar ao gramado — contrariando, inclusive, a orientação do próprio treinador. Após cerca de quinze minutos de tensão, a partida foi retomada. Brahim Díaz cobrou o pênalti com uma cavadinha displicente, facilmente defendida por Édouard Mendy.
O jogo seguiu para a prorrogação e, depois de uma jogada iniciada por Mané, Pape Gueye marcou o gol da vitória do Senegal, silenciando o Estádio Príncipe MoulayAbdellah, em Rabat. Era o segundo título da seleção senegalesa, que já havia sido campeã em 2021.
Sadio Mané encerrou a Copa Africana das Nações como o melhor jogador do torneio — pela segunda vez na carreira. Ídolo em seu país também pelas inúmeras obras assistenciais que realiza, consolidou-se como herói nacional. Mais do que salvar a imagem de sua seleção e do futebol africano, ofereceu ao mundo uma lição de dignidade, liderança e perseverança. Um continente historicamente explorado, onde o esporte também enfrenta adversidades, mostrou mais uma vez que é capaz de unir nações, superar desafios e jamais se entregar.
Na África, o futebol não é apenas um jogo. É pilar da cultura, da economia e da política; força de coesão social e instrumento de desenvolvimento. E, graças às modernas tecnologias de comunicação, o planeta pode conhecer seus heróis — seja nos palcos da política, seja nos gramados onde a história continua sendo escrita.
Viva, Kuka Muladinga! Viva, Sadio Mané!
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

