Rodrigo Gasparini Franco *
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Vladimir Lênin, em um de seus arroubos mais imaginativos, afirmou: “Quando formos vitoriosos em escala mundial, creio que usaremos o ouro para construir banheiros públicos nas ruas de algumas das maiores cidades do mundo”. A frase, à primeira vista hiperbólica, revela muito mais do que um simples desprezo revolucionário pelos símbolos da riqueza burguesa. Nela se condensa um programa simbólico: rebaixar o ouro, transformar o ícone máximo da acumulação em matéria-prima para a necessidade mais banal e fisiológica.
No limite, Lênin sugere um mundo em que o valor social do ouro – e, por extensão, do dinheiro – estaria tão desmoralizado que poderia ser literalmente pisado, manuseado sem reverência, confundido com o que tradicionalmente se quer esconder.
Esse gesto imaginário encontra um eco curioso no célebre dilema formulado por Jacques Lacan: “a bolsa ou a vida”. Na fórmula clássica do assaltante, é oferecida à vítima uma escolha que, na prática, não é escolha alguma. Ao escolher a bolsa, perde-se a vida.
Lacan insiste que, diante desse ultimato, o sujeito revela o que verdadeiramente o estrutura: o quanto está identificado ao objeto, ao ter, ao patrimônio. A bolsa é, aqui, mais que um saco de dinheiro; é símbolo daquilo que a subjetividade moderna passou a confundir com sua própria consistência. A decisão forçada explicita um ponto delicado: até que ponto estamos dispostos a sacrificar a vida concreta – a nossa e a dos outros – para preservar a integridade dos nossos bens?
Se Lênin fantasiava um futuro em que o ouro fosse rebaixado a cerâmica de luxo em banheiros públicos, o presente parece caminhar em direção oposta. Nunca se viu tamanha reverência global aos bens materiais. Da especulação financeira em alta frequência às filas por lançamentos de smartphones, passando por “drops” de tênis, bolsas e relógios que se esgotam em minutos, o objeto de consumo ocupa o lugar do fetiche absoluto.
Não é apenas uma questão de necessidade; é uma operação simbólica: comprar para existir, possuir para se sentir real. O brilho que Lênin queria ver dissolvido nas paredes de um sanitário hoje se condensou nas vitrines digitais, nos feeds das redes sociais e no mercado financeiro, onde cada oscilação de centavos é acompanhada como se fosse questão de vida ou morte.
Esse fetichismo exacerbado, que Lênin denunciava no ouro e Lacan reencontra na “bolsa”, assume no século XXI formas ainda mais sofisticadas. Não se trata só de possuir coisas; trata-se de possuir signos, marcas, tokens de pertencimento. A bolsa de grife, o carro esportivo, o relógio de luxo, mas também o número de seguidores, os likes, as curtidas – todos operam como equivalentes modernos da antiga barra de ouro. A promessa é sempre a mesma: segurança, reconhecimento, um lugar garantido no imaginário social.
O dilema lacaniano renasce, disfarçado: quantos não sacrificam a saúde, o tempo afetivo, a integridade psíquica – a própria vida – para não abrir mão da “bolsa”, agora entendida como carreira, status, patrimônio, imagem pública?
Enquanto isso, o projeto leninista de dessacralizar o ouro parece cada vez mais distante. Em vez de ver metais preciosos recobrindo paredes de banheiros públicos, assistimos a cidades em que, muitas vezes, nem o saneamento básico é assegurado, ao mesmo tempo em que edifícios de luxo erguem piscinas suspensas e fachadas espelhadas.
A desigualdade extrema torna gritante a contradição: o que deveria ser apenas matéria – ouro, ações, ativos digitais – torna-se fim em si; e o que deveria ser fim – a vida humana, sua dignidade elementar – vira meio descartável para alimentar a máquina da acumulação.
É nesse cenário que o diagnóstico de Zygmunt Bauman sobre a “modernidade líquida” ganha contornos quase didáticos. Para o sociólogo, vivemos em um mundo em que nada é estável: relações, identidades, empregos, valores, tudo se dissolve rapidamente, como líquidos que não mantêm forma própria.
Paradoxalmente, quanto mais tudo se torna fluido, mais buscamos ancorar nossa existência em objetos de consumo e em aparências monetizáveis. A obsessão com a “bolsa” – seja ela o ouro de Lênin, o patrimônio do investidor ou a marca ostentada nas redes – aparece como tentativa desesperada de solidificar algo em meio ao fluxo. No entanto, lembra Bauman, essa estratégia está condenada ao fracasso: no regime líquido, até o ouro escorre pelos dedos.
E talvez seja justamente aí que a provocação de Lênin retome sua pertinência: enquanto não formos capazes de relegar o fetiche material ao lugar de simples matéria – mesmo que de banheiro público – continuaremos a trocar, dia após dia, nossa vida pela bolsa.
* Advogado e consultor empresarial de Ribeirão Preto, mestre em Direito Internacional e Europeu pela Erasmus Universiteit (Holanda) e especialista em Direito Asiático pela Universidade Jiao Tong (Xangai)

