Uso não convencional de medicamentos pode revolucionar tratamentos
José Moacir Marin *
Estamos vivendo dias ainda incertos logo após um período tenebroso da história mundial. Durante a crise provocada pela Covid-19 a humanidade parece ter retornado à ‘Idade Média’, recriando as Fogueiras da Inquisição, quando a razão, o bom senso e o conhecimento foram sepultados em benefício da verdade absoluta de uma pandemia fabricada. Fechar os olhos para ciência vai além: pode dificultar até mesmo cura do câncer!
Foi durante pandemia que a desinformação se espalhou mais rapidamente nas redes sociais, na mídia e, inclusive, em reconhecidas instituições como o FDA (Food and Drug Administration) que escondeu o “off label use” (uso fora da bula ou uso não convencional) de drogas conhecidas há muitos anos, anunciando a ivermectina como uma droga veterinária e ignorando que esta droga vem sendo utilizada no tratamento em humanos como antiparasitário de amplo espectro, porém com efeitos comprovados na desorganização da replicação de diferentes vírus.
Em uma situação de desinformação absurda, influenciadores de redes sociais e pseudocientistas desconhecidos se transformaram em arautos da verdade, foi o auge da “Sienssia”, enquanto verdadeiros pesquisadores com sólidas carreiras científicas foram silenciados, ridicularizados e perseguidos.
O reposicionamento de fármacos ou o “off label use” é evento comum, como publicado pelo Jornal da Universidade de São Paulo, em setembro de 2021, relatando que pesquisadores estavam testando 14 moléculas no uso não convencional (tratamento de tuberculose, asma, entre outros) e tendo como objetivo combater a enzima 3 chemotrypsin-like protease (3CL pro) que é a principal protease do SARS-CoV2, sendo essencial para que o vírus consiga se replicar dentro da célula humana.
Agora outra droga também começou a chamar muito a atenção, o Fenbendazole (FZ), um composto do grupo do benzimidazole amplamente utilizado para o tratamento de helmintos em porco, gato, e animais de laboratório (ratos e camundongos), também utilizado para o tratamento em humanos. A droga ganhou destaque quando acidentalmente foi verificado que ela eliminou células cancerosas em camundongos.
O FZ age por se ligar a B tubulina, desarticulando a formação de microtúbulos que são formações essenciais para a correta divisão celular, desta maneira exercendo uma eficiente atividade anti-proliferativa de células de um modo geral e especialmente em células cancerosas, que se dividem rapidamente e em condições especiais. Além deste papel anti-proliferativo, FZ também enfraquece a função proteossomal (um complexo proteico responsável pela degradação de proteínas dentro da célula cancerosa), também inibe a captação de glicose pela célula, alterando a expressão da hexoquinase (HK-I) uma enzima glicolítica chave que a maioria das células cancerosas utiliza para captar glicose, fator fundamental para a proliferação de células de câncer.
Agentes desestabilizadores dos microtúbulos tem sido amplamente utilizados no tratamento do câncer como a vincristina e a vimblastina, os quais apresentam efeitos colaterais adversos.
Os benzimidazoles anti-helmínticos apresentam uma pobre absorção (baixa biodisponibilidade), ampla distribuição pelo corpo, extenso metabolismo hepático, sendo excretado pela urina e fezes. A absorção oral do Albendazole (outro benzimidazole que também exibe um efeito anti tumor) é de 1 a 5% em humanos, sendo esta a sua maior limitação de uso.
O FZ possui baixo grau de toxicidade e tem sido muito utilizado desde a sua introdução na década de 1960. Entretanto já foi usado de forma não usual e não adequada para o tratamento de câncer em humanos com alguns relatos positivos (Anticancer Research 44: 3725-3735,2024). Pelo acima exposto fica evidente que a droga é promissora no tratamento do câncer, mas está sendo utilizada de forma não adequada, necessitando de estudos clínicos controlados para mostrar o seu real valor. Nesse sentido as agências financiadoras de pesquisa brasileiras podem exercer um papel fundamental no reposicionamento deste composto.
* Professor aposentado de Genética e Biologia Molecular da USP/ Campus Ribeirão Preto.

