Tribuna Ribeirão
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A Colômbia e sua Literatura (59): Fernando Vallejo

Rosemary Conceição dos Santos*

 

De acordo com especialistas, Fernando Vallejo, escritor colombiano radicado no México desde 19712, é autor de uma extensa obra que inclui romances, ensaios e biografias. É um dos sete filhos do ex-Ministro de Estado Aníbal Vallejo Álvares, advogado conservador e importante figura política colombiana, em especial na Antioquia. Em 2007, quando o escritor obteve a nacionalidade mexicana, renunciou à nacionalidade colombiana, o que provocou reações indignadas em todos os cantos da Colômbia, principalmente em razão da carta aberta redigida pelo escritor em seis de maio de 2007, quando dispara todo o ressentimento que lhe fez abandonar o país em que nasceu. Todavia, cinco meses depois, Vallejo declarou que estava iniciando os trâmites para recuperar a nacionalidade colombiana. De acordo com Vallejo, o principal motivo para a troca de nacionalidade foi seu artigo, publicado na revista SoHo, ser considerado pela sociedade civil um insulto sem medidas à Fé Católica.

Tornado célebre em virtude de uma obra literária que explora temas como a violência, o narcotráfico e a homossexualidade em um tom considerado autobiográfico pela crítica, não raro descamba para uma retórica que beira o conservadorismo e o higienismo, de verve modernizante e com elementos neocoloniais. As idas e vindas com relação à sua nacionalidade colombiana, por exemplo, têm rendido especulações sobre a própria desterritorialização das premissas estéticas mobilizadas por Vallejo em sua literatura. O primeiro livro publicado por Vallejo, entretanto, não foi uma obra ficcional. Trata-se de “Logoi: una gramática del lenguaje literário” (1983), obra que destoa das abordagens sobre estilística e filologia tradicionais, destacando-se na teoria literária do século XX por abordar a literatura como o uso inteligente dos clichés e convenções, bem como, por esta dialogar com a valorização da autorreferencialidade.

Por sua vez, Vallejo também se dedicou à biografia e aos ensaios. Em “La tautología darwinista y otros ensayos” (2002), porexemplo, o autor se coloca contra o evolucionismo de Darwin e a seleção natural, defendendo que a evolução dá-se unicamente por mutações ao longo da cadeia do DNA celular, sem nenhuma interferência  do  meio  no  processo  evolutivo. Em 2013, publica “Peroratas”, uma compilação dos seus artigos de opinião, conferências e discursos (entre os quais, o polêmico discurso proferido em 2003 por ocasião do recebimento do Prêmio Literário Rómulo Gallegos, quando aproveitou a ocasião para fazer um furibundo discurso em defesa dos  direitos dos animais, única causa social defendida pelo escritor).

A estreia de Valejo como escritor de ficção inicia-se com a série de romances de fundo marcadamente autobiográfico que posteriormente ficou conhecida como “El río del tempo”. Em “Los días azules”, também autobiográfico, Vallejo retrata inúmeros episódios de sua infância, passada entre a fazenda de seus avós e o tradicional bairro Boston, em Medellín, capital da província de Antioquia. Em “El fuego secreto”, o autor narra, já em sua adolescência, os caminhos explorados nos meandros das drogas e da homossexualidade entre Medellín e Bogotá, ao passo que, em “Los caminos a Roma”, rememora suas vivências do período em que passou vivendo na Itália após sua formação em Biologia, onde estudou cinema (na prestigiada Escola Experimental de Cinecittá). Em “Años de indulgencia” volta a narrar suas experiências familiares; ao mesmo tempo que discorre sobre suas experiências vividas em New York, rememora suas relações com seus pais e seus irmãos. Finalmente, em “Entre fantasmas”, o quinto volume de “El río del tempo”, Vallejo escreve sobre suas recordações da Colômbia e, concomitantemente, faz o inventário dos mortos que tiveram papéis representativos ao longo de sua vida, como que fazendo piada frente à Morte, que desde então já lhe parece uma presença constante e seu destino inevitável. Discute também, nesse volume, suas recordações da vida que leva no México, país que adotou como residência a partir de 1971.

A exemplo de outros romancistas sul-americanos, Vallejo faz parte de uma geração de escritores que conseguiu colocar a mídia e o escândalo a seu favor na divulgação de seu trabalho como escritor, marcando posição e incomodando as elites latino-americanas com suas declarações furibundas contra a Igreja Católica e contra a vida na Colômbia, chegando mesmo a renunciar à sua nacionalidade, adotando a nacionalidade mexicana.

 

Professora Universitária*

 

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