Rui Flávio Chúfalo Guião *
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A UNESCO – Organização das Nações Unidos para a Educação, a Ciência e a Cultura – acaba de conferir à culinária italiana seu reconhecimento como Patrimônio Imaterial da Humanidade, justa decisão premiando um conjunto gastronômico único no mundo, que se espalha por todos os cantos da Terra, notadamente pelas Américas.
Descendente de italianos, com muito orgulho, sempre tive um profundo respeito pela terra de meus ancestrais, seus valores, sua arte, sua literatura, sua viticultura e sua gastronomia. Nesta idade já octogenária, tive o privilégio de visitar a Itália várias vezes. E sempre me entusiasmo quando nela me encanto com suas cidades, suas vilas, seus vinhedos, seus monumentos e seus museus. É-me particularmente agradável passear pelas ruas , imaginando que por ali marcharam as legiões romanas, os Papas, os escultores, os literatos, os artistas, os nobres, bem como os homens do povo, como meus avós, bisavós, trisavós e assim por diante.
Roma bem merece o nome de Cidade Eterna. Nela nasceu o primeiro grande império que se espalhou pelo mundo, é sede da maior Igreja que hoje existe, seus monumentos testemunham sua glória e o Direito Romano nela gestado serviu de base para o moderno Direito dos homens. Seus oradores, escritores e poetas deixaram vasta obra que orienta a produção literária de muitos povos.
Florença sedia a grande transformação do Renascimento, traz o homem como centro do mundo, produziu o Iluminismo e pavimentou o caminho para a nossa modernidade, além de ser sede da região da Toscana, com seus vinhos maravilhosos.
Já Veneza, bela, misteriosa, envolvente, com seus canais e suas pontes, por onde se perde em andanças sem rumo, é uma cidade única. Se você não a conhece não consegue imaginar como ela existe, foi construída e mantém sua aura que seduz a todos.
São tantos os sabores da culinária italiana, que nossas memórias se perdem em detalhes, mas guardam sua riqueza e sua experiência. Todos vivemos várias estórias ligadas à comida daquele país.Uma das minhas vivências vem dessa mesma Veneza. Estávamos minha esposa e eu passeando num domingo pelas inúmeras vielas, quando localizamos charmosa tratoria, que nos convidava para o almoço. Bela pasta ao pesto, ótima garrafa de Vermentino. Ao nosso lado, grande mesa abrigava família que acabava de batizar uma menina, envolta em belíssimo manto amarelo. Discretamente, a mãe molhava a chupeta da criança no vinho branco servido e dava para a batizanda.
Nesta mesma Veneza, manhã de domingo, sentados no restaurante externo e flutuante do Cipriani, duas surpresas: a grande corrida internacional de barcos e gôndolas, com suas tripulações uniformizadas como há séculos, exibindo-se no Canal Grande, principal via marítima da cidade. Tudo acompanhado de flutes de Franciacorta, o espumante da Lombardia, que não conhecíamos e que passou a ser nossa bebida branca preferida.
Perdidos na àrea de São João de Latrão, a catedral do Bispo de Roma, deparamo-nos com simpático restaurante. Repeti a fórmula que uso sempre: “Siamobrasiliani, oriundi, vogliamomangiare bene e beremeglio”.( Somos brasileiros, descendentes de italianos, gostaríamos de comer bem e beber melhor ) Amplo sorriso do garçom que nos traz a pasta e ceci, massa com grão de bico, alecrim, legumes e parmesão, tudo regado com um ótimo Frascati, da região. Solicitado por meu filhos a repetir o prato, o garçom não tem dúvida: deixa a travessa inteira na mesa.
Em Ravena, famosa por seus desenhos sacros em pastilhas douradas, que já foi sede do Império Romano do Ocidente, dirigimo-nos para Il Gallo, tratoria centenária da cidade. Um cartazete anunciava: “Chiuso per Matrimonio ”( fechado para casamento ). Chateados pela surpresa ruim, eis que a porta se abre e surge um senhor, a quem dirijo a palavra, anunciando que tínhamos vindo do Brasil para provar a comida da casa, estávamos de passagem, iríamos dormir em outra cidade. Ele esclarece que é casamento da filha, mas, nos convida para participar da festa, que se desenrola na varanda do restaurante, debaixo de parreiras de uvas. Lembro dos ravioli de zucca( abóbora ), molhados em suave molho branco e acompanhado pelo vinho da casa, um branco discreto, sensacional.
E, com estas lembranças, presto minha homenagem à grande Itália e à sua gastronomia única, ansiando por um Aglianico, um Brunello, um Barolo, um Amarone…
* Advogado e empresário, é presidente do Conselho da Santa Emília Automóveis e Motos e secretário-geral da Academia Ribeirãopretana de Letras

