Elson de Paula *
“Dance, ande, dance, ande, e vamos brincar
É a dança das cadeiras, vamos logo brincar,
Mas não se esqueça, procure uma cadeira
E vá logo se sentar…”
O assunto aqui não é a cadeirada que Datena deu em Pablo Marçal nas eleições de 2024, e embora faça a citação, muito menos me refiro a brincadeira infantil em que crianças caminham em torno de um número de assentos inferior à sua quantidade, e ao aceno de um líder, todas se acomodam, e uma delas (ou mais) vai sobrar em pé.
Me refiro à troca de gestores públicos em cargos de primeiro escalão, durante uma gestão pública municipal, principalmente os secretários de uma pasta de uma prefeitura, sempre determinada por seu chefe maior, o prefeito.
Esse troca-troca é comum em todas as instâncias da gestão pública no Brasil, e muitas vezes é uma ação necessária, noutras é explícita e obrigatória, noutras é por capricho mesmo, ou então por desinteligência politiqueira.
Falando especialmente das prefeituras, em muitas delas, essa “brincadeira da dança das cadeiras” às vezes acontece em ritmo acelerado, noutras, mais lento, mas seus efeitos são inevitáveis, bons ou não.
Falando no âmbito da Assistência Social, os efeitos desse troca-troca de representantes sempre são muitos, se bons ou não só o tempo vai dizer, mas afetam diretamente na vida dos assistidos, dos usuários de uma ou mais redes, e isso é fato que ninguém pode discordar.
O problema muitas vezes é que em se tratando da assistência social para estes usuários, que na maioria se enquadram em condições de vulnerabilidade quase extrema, ou extrema, esperar que os ajustes provocados pela mudança de uma nova chefia é tarefa difícil demais.
O sociólogo e ativista dos direitos humanos Betinho, certa vez disse: “Há mudança no Brasil. Ela não corre, mas anda. Não corre, mas ocorre”.
Essa frase do Betinho reflete que a mudança social é gradual (não corre, anda), mas é real (ocorre). Ele proferiu essa frase em 1993, quando lançou no Brasil a campanha do seu projeto Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida.
Essa campanha mobilizou o país inteiro, de norte a sul, quando organizações religiosas, sociais, empresariais e institucionais moveram-se unidas no combate à fome. O resultado foi muito bom.
Mas não podemos deixar de lembrar que Betinho também disse naquela ocasião: “Quem tem fome, tem pressa”; lembrando-nos que o combate à fome, à falta de alimentos e de tudo que é essencial à vida digna e humana, não é pra hoje, é pra ontem.
No último dia 13 de março, a Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto anunciou a saída do cargo de Secretário de Assistência Social do Sr.Júlio Balieiro que estava à frente da pasta desde janeiro de 2025, e anunciou como seu substituto o Secretário da Saúde Dr.Maurício Godinho, que assume a SEMAS de forma interina, acumulando a gestão das duas pastas ao mesmo tempo.
Lembrando que a justificativa anunciada pelo Poder Público foi que o próprio Júlio pediu para sair da gestão por motivos pessoais, pergunto:
O que os usuários da Secretaria de Assistência Social que vivem no município perdem (ou ganham) nessa dança?
Só saberemos com o tempo, até porque, se a gestão que se retira não atuou conforme o desejado e os benefícios aos assistidos não são plenos, a troca será justa, e então, a missão daquele que assume a pasta será essencial para retomar a mudança social, permitindo que ela não só ande como diz Betinho, mas que corra e ocorra, e que permaneça como legado bom para aqueles que mais necessitam dessa plenitude sejam contemplados.
Assim, em nome dos munícipes mais vulneráveis viventes nessa cidade, tão carentes de Políticas Públicas eficazes e plenas, especialmente as crianças e adolescentes, as mulheres, os idosos e as pessoas em situação de rua, desejo que o novo Secretário Municipal de Assistência Social de Ribeirão Preto se debruce sobre a pasta, e incansávelmente, permaneça nela por um longo período, a tempo de fazer a diferença em sua mudança social, para que ela ocorra verdadeiramente, para melhor!
Pensemos nisso!
* Jornalista, representante técnico do Movimento Nacional de Luta na Defesa da População em Situação de Rua( MNLDPSR) cofundador do Fórum de Defesa da População em Situação de Rua de Ribeirão Preto e vice-presidente do Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS)

