José Eugenio Kaça *
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“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Esse é um provérbio africano afirmando que a educação de uma criança é um compromisso coletivo, e não apenas responsabilidade dos pais. É um provérbio muito bonito, que mostra que o ser humano um dia sonhou com um mundo melhor.O ser humano criou a linguagem para transferir os conhecimentos para as novas gerações, pois é através dela que a herança cultural acumulada é transmitida aos indivíduos e a sociedade. As escolas foram criadas para ser o ambiente onde o conhecimento e a herança cultural fossem transmitidos para as novas gerações. E neste ambiente de troca de experiência, a convivência harmoniosa seria a ferramenta de evolução dos seres humanos, e os problemas viciosos do cotidiano seriam discutidos e aperfeiçoados, para que a cada nova geração surgisse um ser humano melhor.
Acontece que os dogmas religiosos estão sempre levando a humanidade para o caminho do confronto, e a eterna luta do bem contra o mal acaba prevalecendo, não permitindo a evolução de um mundo de paz e harmonia. Chegamos ao século 21, que segundo os otimistas seria o século em que a humanidade finalmente seria humana, entretanto, a Idade Média voltou com força. e aquela escola, que iria modificar o cotidiano, acabou sendo engolida por ele. A coisa se inverteu, e a escola acabou absorvendo as mazelas do cotidiano, e o sonho da escola formadora da cidadania se esvaiu. Projetos para a formação da cidadania que começam nas escolas públicas são boicotados e deturpados, pois seguem caminhos opostos ao que foi planejado, e com o tempo são abandonados. O Projeto Mais Educação, que era um teste para se implantar o ensino de tempo integral nas escolas públicas, foi boicotado e desmontado pelos governos estaduais e municipais, e acabou virando fumaça.
Ao invés da escola modificar o cotidiano são a mazelas do cotidiano que tumultua o ambiente escolar. O radicalismo religioso que corre solto na sociedade, contaminou o ambiente escolar. As políticas públicas para tornar o ambiente escolar, um ambiente de convivência e solidariedade e de troca de experiência são combatidas com o ódio dos fundamentalistas. A educação sexual, que é uma ferramenta imprescindível de orientação para as crianças e adolescentes, foi criminalizada pelo fundamentalismo religioso, e a laicidade escolar prevista em lei é ignorada. Os pais, por ignorância e desconhecimento são facilmente enganados por esta camarilha. A mamadeira de piroca, o banheiro unissex e a doutrinação comunista são mentiras vis que conturbaram o ambiente e criminalizam as pedagogias progressistas.
O ambiente degradador que vemos no cotidiano penetrou no ambiente escolar, e as escolas públicas das periferia pobres estão virando hospícios, pois absorvam as mazelas da sociedade. Proteger o ambiente escolar das interferências externas danosas é a função das autoridades, porem, as atitudes tomadas aprofundam as crises. O senhor governador, afirmou que diploma não tem relevância para o mercado de trabalho, que o mercado valoriza as habilidades práticas – um absurdo. Este tipo de comentário desqualifica a educação formal, e cria na nossa juventude um clima de desesperança, e compromete o futuro das novas gerações.
O Censo Escolar 2025 revelou uma queda expressiva nas matriculas do ensino médio público no Brasil, com cerca de 425 mil alunos a menos em relação a 2024, um absurdo para um País que já se intitulou “Pátria Educadora”. As reformas feitas na rede estadual de educação de São Paulo, o sucateamento das estruturas prediais da escolas, associada a fala desatinada do governador do Estado, desdenhando o Diploma escolar, resultaram na maior queda nacional de matriculas do ensino médio, cerca de 60%. A educação básica pública vive o eterno drama que é: sai da UTI, e vai para a sala de recuperação, mas sofre uma recaída e volta para a UTI. O princípio da aldeia pode reativar o sonho de uma humanidade melhor. Minha esperança é necessária, mas não é suficiente. Ela, só, não ganha a luta, mas sem ela a luta fraqueja e titubeia. (Paulo Freire).
* Pedagogo, líder comunitário e ex-conselheiro da Educação

