Tribuna Ribeirão
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A força das palavras

Antonio Carlos A. Gama *
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Parece que não existe nenhum outro modo de pensar, sem usar as palavras.

Até mesmo com a matemática, para somar números, multiplicar, dividir, extrair a raiz quadrada, resolver as equações, raciocina-se com o emprego das palavras. Digam-me os matemáticos, porque não sou um especialista.

Não sentimos também através das palavras? Quando nos cai um peso no dedão do pé, agarramo-lo, rodopiamos, e nos brota da boca uma interjeição, ou um palavrão.

Amamos com as palavras e odiamos com as palavras. Filosofamos com as palavras.

Bem, há a música, a dança, a pintura, a escultura. Mas a música, não raro, vem acompanhada da letra, isto é, das palavras.

A dança é gestual, é movimento, é ritmo, segue a música, mas também a interpretamos com as palavras.

A pintura expressa-se através das cores, das figuras, da composição. Todavia, vemo-la com as palavras, com os sentimentos despertados pelas palavras. Igualmente, a escultura.

Nem há paisagem sem as palavras. As próprias árvores, os pássaros, têm nomes.

Somos palavrosos, emendamos uma palavra a outra, narramos, planejamos, inventamos, debatemos, escrevemos, recordamos, oramos e morremos com as palavras.

Pretendem que uma fotografia ou imagem vale por mil palavras. Todavia, Millôr Fernandes, que além de escritor, tradutor, era um artista gráfico, respondia: “Diga isso sem palavras”.

A fotografia de um grupo de pessoas, ou qualquer outra, só a assimilamos com as palavras que a explicam. Com palavras lembramos quando foi batida a chapa, quem é aquele sujeito à esquerda, aquele outro à direita, o do meio, o lugar, a data, qual fora o propósito da reunião, o que comemorávamos, o que dissemos uns aos outros.

Há as estórias mudas, em quadrinhos. É, porém, a situação dos desenhos, a sua sequência, que lhes dá sentido, e traduzidas com palavras, para lhes dar significação. E as estórias em quadrinhos, quase sempre, não dispensam o balão, com palavras.

É impossível imaginar um mundo inteiramente silencioso, sem mesmo o rumor do vento, do mar, do canto dos pássaros. E tudo isso é transformado em palavras.

Quando dizem que as palavras chegaram ao fim, e que agora é a vez da imagem nas telas de televisão, dos celulares, e em todas essas máquinas modernas, estão dizendo tolices. E até para isso usam as palavras para dizê-lo.

O que está acontecendo é o abuso das palavras. O seu uso equívoco, a impregnação nelas da mentira, da fraude. Principalmente na política e na publicidade, corrompem-se as palavras. Esses hipócritas falam ou escrevem (e como falam e escrevem mal!) para enganar. Torcem as palavras, dão-lhes significados dúbios.

Quando havia comícios, e os oradores sucediam-se no palanque, a maioria do povo não os entendia. Mas exclamava: “Como este homem fala bonito!”

Falar bonito, com ornamento, é um modo de ludibriar, ou seduzir. E o que é preciso é restaurar a dignidade das palavras. Não as usar em vão.

* Promotor de Justiça, aposentado, professor de Direito, advogado e escritor

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