Antonio Carlos A. Gama *
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Faltavam pelos menos duas horas para raiar o dia quando ele se levantou com todo o cuidado para não despertar a mulher, que dormia tranquila ao lado.
Teve a cautela de não acender nenhuma luz. Conhecia bem a casa e por ela se movimentava como um gato, ou um gatuno.
Sorrateiro, saiu para o quintal e desceu aos cômodos transformados numa espécie de porão das velhas casas, desde quando os abrigos antinucleares que todos eram obrigados a manter tornaram-se desnecessários.
Não mais havia risco de guerras, tampouco existiam países, estados, raças, moedas, línguas, fronteiras. O Conselho de Sábios governava a todos e a tudo agora, desde a grande unificação.
Tinha consciência de que era terminantemente proibido o que fazia. Não mais se falava em crime, mas em “inadaptação comunal”, “conduta inadequada” e outros eufemismos, contudo as punições eram rigorosas. Podia ficar longo tempo banido, longe da família, submetendo-se ao processo de recondicionamento.
Num canto dos aposentos havia um enorme cofre, que pertencera ao seu avô e que ele dizia guardar como recordação. Um trambolho, segundo a mulher. Ninguém se interessava por aquela geringonça obsoleta, nem mesmo se sabia direito como funcionava.
Mas ele sabia. Girou o pequeno disco para a esquerda e para a direita, detendo-se rapidamente em algumas das ranhuras numeradas, e por fim puxou a tranca. A pesada porta se abriu com um estalido.
No fundo de uma das divisões, camuflado entre diversos objetos inocentes e sem serventia, estava aquilo que buscava.
Sentou-se no chão, abriu a caixa que o acondicionava, retirou o veludo que o recobria e o aproximou dos olhos. Tinha uma pequena lanterna, mas nem era preciso vê-lo na claridade. Sabia perfeitamente como era. A capa azul com o título em letras douradas. A lombada. As páginas que repassava uma a uma. Lembrava-se do que se achava escrito em todas elas, menos na última, que jamais leu exatamente para não chegar ao fim, para não terminar nunca.
No dia anterior, seu filho mais novo, que era muito diferente dos outros, curioso, perspicaz, investigativo, sempre o acompanhava para todo o lado e tinha muita afinidade com ele, havia lhe perguntado de chofre:
“Pai, o que é um livro?”
Ele se arrepiou, pegou o menino e o levou para um canto.
“Quem te falou sobre isso? Não pergunte nunca mais a respeito disso, a ninguém, você promete? Isso é uma coisa que existiu há muito tempo, não serve para nada, é uma droga que viciava as pessoas, deixava elas enlouquecidas, inquietas, vendo e imaginando coisas. Por isso foi proibida pelo Conselho de Sábios.”
Assustado, o menino prometeu que nunca mais voltaria ao assunto.
A palavra “livro” fora apagada do vocabulário e todos os livros tinham sido confiscados e destruídos. Tudo o que era preciso saber estava no ciberespaço, e podia ser acessado por todos a qualquer momento e de qualquer lugar.
Ele era um homem de bem, não podia continuar mantendo aquela coisa, mas não conseguia se livrar dela, das lembranças da biblioteca do seu avô, dos outros tantos livros que havia lido desde criança. Mais dia, menos dia, porém, teria de acabar com isso.
Quando percebeu pela claraboia que a escuridão da noite começava a se dissipar, apressou-se a recolocar o livro no cofre, que em seguida trancou.
Enquanto subia as escadas para retornar ao interior da casa, um pensamento e uma esperança assomaram, acelerando-lhe o coração.
Quem sabe o menino…
* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

