Luís César Zaccaro *
@dr.luiszaccaro
A inteligência artificial não substituirá o médico. Mas é inegável que já está transformando profundamente a forma como exercemos a medicina.
Essa mudança não pertence mais ao campo das projeções futuristas. Ela acontece agora, nos consultórios, nos centros cirúrgicos e nas rotinas hospitalares. Levantamento divulgado em 2025 pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), em parceria com a Associação Brasileira de Startups de Saúde e Healthtechs (ABSS), mostrou que, já em 2023, 62,5% das instituições de saúde no Brasil utilizavam inteligência artificial em suas operações. Outro estudo, de 2024, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), revelou que 17% dos médicos brasileiros já incorporavam ferramentas de IA à prática profissional.
Ou seja, a tecnologia deixou de ser promessa e passou a integrar a realidade cotidiana da assistência médica.
Na urologia e, de forma particular, na uro-oncologia, área em que atuo, a inteligência artificial já auxilia na interpretação de exames com maior precisão, organiza grandes volumes de dados clínicos, antecipa riscos e oferece análises que tornam o raciocínio mais ágil e mais seguro.
Uma das áreas em que mais percebemos seu impacto é o diagnóstico assistido. Algoritmos conseguem analisar milhares de imagens em segundos, identificar padrões imperceptíveis ao olho humano e apontar alterações precoces em tecidos e órgãos. Em determinados cenários, estudos apontam ganhos de acurácia que variam entre 5% e 10% quando comparados à análise isolada.
Isso não reduz o papel do médico. Ao contrário: amplia sua capacidade de decisão e contribui para reduzir margens de erro.
Na medicina personalizada, a IA também assume papel relevante. Ao cruzar histórico clínico, dados genéticos e variáveis individuais, ela permite direcionar terapias mais específicas, com maior probabilidade de sucesso e menor incidência de efeitos adversos. O cuidado torna-se mais centrado no paciente – um avanço tecnológico que, paradoxalmente, reforça a humanização.
Na cirurgia robótica, tecnologia com a qual convivo diariamente, a inteligência artificial contribui para maior precisão de movimentos, análise de dados em tempo real e estabilidade dos procedimentos. Estudos internacionais já demonstram redução significativa de complicações quando sistemas inteligentes são integrados às plataformas cirúrgicas. Ainda assim, a regulamentação brasileira exige a presença de dois cirurgiões – um ao lado do paciente e outro no console -, além de equipe completa em sala. A tecnologia potencializa o ato médico, mas a responsabilidade permanece integralmente humana.
O debate sobre essa revolução tecnológica já ocupa espaços institucionais relevantes, como o Fórum do Conselho Federal de Medicina sobre Inteligência Artificial, realizado em 2025. Entre especialistas, o entendimento é claro: a IA reorganiza fluxos, otimiza recursos e amplia capacidades técnicas. Mas não substitui o julgamento clínico, a ética profissional, a escuta qualificada e a sensibilidade diante da complexidade humana.
O que permanece insubstituível é a capacidade de interpretar nuances, entender contextos, acolher dúvidas e assumir a responsabilidade final pelas decisões.
O futuro da medicina não será marcado pela substituição do médico pela máquina. Será caracterizado pela integração inteligente entre tecnologia de ponta e atuação humana qualificada.
A inteligência artificial é ferramenta.O médico continua sendo direção.E direção, em saúde, exige conhecimento, responsabilidade e humanidade.
* Urologista, uro-oncologista e cirurgião robótico, delegado da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU-SP) e diretor do GEURP – Grupo de Estudos em Uro-Oncologia de Ribeirão Preto

