Antonio Carlos Augusto Gama *
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Aproximamo-nos de Machado de Assis com certa desconfiança.Não pretendemos perturbá-lo na sua glória, cutucá-lo, invadir a sua intimidade, despi-lo: seria falta de educação.
Não vamos fazer-lhe perguntas impertinentes. Afinal de contas, ele tem metade de sangue português, por parte da mãe, e metade de negro, do pai. E a fisionomia do Machadinho da mocidade, assíduoaos camarins das atrizes, pouco a pouco se refinou, se aristocratizou, embranqueceu, aquela barba e bigode grisalhos, o “pince-nez”, a casaca, o colarinho alto, a cartola, a gravata.
Lá está ele, no fundo da Livraria Garnier, sentado, escutando uns e outros, falando com eles pausadamente, e até conversando em francês com o velho livreiro. É um burocrata grave, diretor de secretaria, oficial de gabinete de ministros, recebeu a comenda de cavaleiro e depois oficial da Ordem das Rosas, e ia ser agraciado como Conselheiro.
De tipógrafo, passou a revisor, jornalista parlamentar, poeta, crítico literário, cronista, romancista, teatrólogo, tradutor, contista, e se casou com mulher branca, portuguesa, um pouco mais velha do que ele.
Chegou a chefe incontestável da literatura brasileira, e presidente perpétuo da Academia Brasileira de Letras. Os seus amigos eram gente nobre, inteligente, culta ou notáveis do Império e da República: Joaquim Nabuco, José Veríssimo, o Visconde de Taunay, Quintino Bocaiúva, José de Alencar, Pedro Luís Pereira de Sousa, Francisco Otaviano de Almeida Rosa, Ferreira de Araújo.
Pelas barbas de Machado de Assis! Este cavalheiro está nos escondendo alguma coisa. “Eu, senhor? Não tenho segredo nenhum, a não ser o trabalho, trabalhei muito, nunca deixei de trabalhar. Mas convivo com os pobres e os humildes, ainda tomo o bonde no Largo de São Francisco, para Cosme Velho. Carruagem? Sim, rodei em algumas, mas o meu veículo era o bonde, e o tílburi.”
As personagens explicam o autor? É o que pretendem alguns críticos, mas é duvidoso. Por que não o autor explica as personagens?
Machado de Assis, porém, não explica. Deixa que o leitor busque a explicação, entre ambiguidades, reticências, malícia, ironia e humor. Afinal, há uma boa dose de loucura em todos nós, e ele debruçou-se sobre os loucos, há muitos loucos em sua obra, Quincas Borba, Rubião, e todos os loucos de Itaguaí, internados na Casa Verde pelo alienista Simão Bacamarte, que afinal os libertou e ali encerrou a si mesmo, sozinho.
Nós, os loucos mansos, os maníacos, circulamos. Somos avarentos, pródigos, supersticiosos, ciumentos, adúlteros, crentes e descrentes, hipocondríacos, e a flor amarela da melancolia desabrocha em nossos jardins. E afinal, por que a borboleta preta não era azul?
O relativismo dos conceitos nos faz a todos, ao mesmo tempo, doidos e pessoas sensatas. Qual seria o padrão da verdade? A pulga atrás da orelha, daí por diante, ataca o Senhor Machado de Assis, como a Bento Santiago e todos nós.
Numa das páginas de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, este dialoga com o médico que trata do louco Quincas Borba. E lhe pergunta: “Também eu?” Ao que o médico responde: “Também o senhor”.
* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

