Rui Flávio Chúfalo Guião *
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Há um livro muito interessante que trata das bebidas de uso universal, “A História do Mundo em Seis Goles “, já comentado nesta coluna e que coloca a cerveja como a primeira delas, a bebida alcoólica mais antiga da Humanidade. Sua origem é antiquíssima. Estima-se que surgiu entre 7.000 a 6.000 anos a.C. na Mesopotâmia, talvez por acaso, quando grãos estocados em contato com a água e leveduras naturais fermentaram dando origem à bebida.
Sabe-se que no Egito Antigo a bebida era parte da dieta de crianças e adultos e também usada como pagamento aos escravos que construíram as grandes obras do Império, notadamente as pirâmides.
Por volta de 1750 a.C., o grande código de Hamurábi, uma das primeiras legislações produzidas no mundo, tratava de regras para a produção e venda da cerveja.
Mas, foi na Idade Média que a cerveja evoluiu para sua fórmula atual, em virtude da Quaresma. Naquele tempo, o período de quarenta dias era enfrentado com jejum absoluto. O que se mastigasse não poderia ser comido. Entretanto, o que se podia beber não era considerado rompimento da regra.
Os conventos e mosteiros floresceram nessa época em toda a Europa, retendo e propagando os grandes ensinamentos da Cristandade.
Principalmente nos estabelecimentos alemães, os monges começaram a considerar a cerveja como pão líquido (Flüssiges Brot ), que poderia ser ingerida a todo tempo. Foram melhorando sua fórmula para conter mais cereais, muitas calorias, pouco gás e baixo teor alcoólico em alguns casos.
Há uma lenda dizendo que monges bávaros, em dúvida sobre se a cerveja poderia ou não ser bebida na quaresma, enviaram um generoso barril da mesma ao Papa. Com a demora do percurso, o líquido se deteriorou e quando o Sumo Pontífice o provou teria dito: “Beber isto é penitência. Está liberado o uso.”
No século XVII, nos mosteiros de Munique, popularizou-se a cerveja criada pela cervejaria Paulaner, até hoje uma das mais importantes da Alemanha, chamada Doppelbock, muito maltada, escura, encorpada, calórica, mais forte do que as existentes e que atendia bem as necessidades de alimento, na quaresma.
Foi somente no século XIX que os estudos de Louis Pasteur indicaram que a fermentação da cerveja dava-se pela ação de microorganismos vivos. Até então, ela era um processo desconhecido, que dava certo ou não, não sabendo o cervejeiro o porquê da sua ocorrência.Com esta descoberta, a fermentação pode ser controlada, aperfeiçoando-se muito a fabricação da bebida.
A cerveja passou a ser um produto tão importante para a Alemanha, que, desde 1516, a famosa Lei da Pureza,
Reinheitgebot determina que ela só pode ser produzida com água, malte e lúpulo. Fermento foi acrescido no século XIX e estas determinações são seguidas por todos os fabricantes das verdadeiras cervejas.
Alguns países, Brasil inclusive, permitem o uso de cereais não maltados, como arroz e milho, o que aumenta o volume produzido. Mas, o mercado já está selecionando este tipo de cerveja, dando preferência às de malte puro, dentro da Lei da Pureza. Alemã. Cervejas puro malte já representam trinta por cento de nossa produção.
O Brasil é um dos maiores consumidores de cerveja do planeta. Mas, poucos sabem que o líquido que bebemos só chegou até nós graças aos monges da idade média, que enfrentando a fome da quaresma, tornaram a bebida seu pão líquido.
* Advogado e empresário, é presidente do Conselho da Santa Emília Automóveis e Motos e secretário-geral da Academia Ribeirãopretana de Letras

