Por: Adalberto Luque
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) do Estado de São Paulo divulgou, na última semana, os índices estatísticos de criminalidade relativos ao mês de dezembro de 2025. Dessa forma, os dados anuais puderam ser fechados.
A constatação foi que, no ano passado, todos os índices de crimes contra o patrimônio (roubos, roubos de veículos, roubos de carga, furtos e furtos de veículos) tiveram redução. No caso dos crimes contra a vida, também houve queda nos casos de homicídio doloso, tentativa de homicídio e latrocínio.

Contudo, os casos de estupro registraram o maior número desde o início da série histórica divulgada pela Secretaria, em janeiro de 2001. Ribeirão Preto contabilizou 60 casos de estupro em 2025, contra 58 em 2024, alta de 3,4%.
Já os casos de estupro de vulnerável foram os que mais subiram. Em 2024, foram 117 registros, contra 171 casos no ano passado, alta de 46%. O estupro de vulnerável ocorre quando há conjunção carnal ou qualquer outro ato libidinoso com menor de 14 anos, independentemente de consentimento; pessoa que, por enfermidade, deficiência mental ou outra condição, não tem discernimento para o ato; ou pessoa que, por qualquer motivo, não pode oferecer resistência.
No total, foram registrados 177 casos de estupro em Ribeirão Preto durante 2025. Isso significa que, a cada dois dias de 2025, uma pessoa foi estuprada na cidade. Mulheres e vulneráveis foram as maiores vítimas dos crimes.
Crimes contra a vida
Os casos de homicídio tiveram uma pequena redução em 2025. Foram 33 casos em 2024 e 31 no ano passado, queda de 6%. Os registros de tentativa de homicídio recuaram 31,6%, de 60 casos em 2024 para 41 em 2025.
Já os casos de latrocínio diminuíram 75% estatisticamente. Foram quatro roubos seguidos de morte das vítimas em 2024, contra apenas um em 2025.
Crimes contra o patrimônio
A maior redução dos chamados crimes contra o patrimônio ocorreu nos roubos em geral. Houve queda de 31,9% nos casos em 2025. Foram 1.808 roubos em 2024, contra 1.230 no ano passado. Diferentemente do furto, que ocorre quando um bem é levado geralmente sem violência e sem que a vítima perceba, o roubo é caracterizado pela grave ameaça à vítima para subtrair o bem, como nos casos de uso de armas de fogo ou armas brancas.

Os roubos de veículos tiveram redução de 12,9% em Ribeirão Preto. Foram 216 casos em 2024, contra 188 no ano passado. Roubos de carga também apresentaram queda: dos 10 casos ocorridos em 2024 para oito em 2025, redução de 20%.
Os furtos, que tanto preocuparam os ribeirão-pretanos nos anos de 2023 e 2024, finalmente apresentaram índices de queda. Os 9.262 casos registrados em 2024 caíram para 7.920 em 2025, uma diminuição de 14,5%.
Os furtos de veículos demonstraram queda de 8,5%, recuando de 1.450 para 1.327 no ano passado. Ainda assim, os números preocupam. Somados os casos de roubos e furtos em Ribeirão Preto, foram 10.673 ocorrências, uma média de 30 por dia.
Por regiões
Apesar da redução nos números da cidade, nem todas as regiões, definidas pelos Distritos de Polícia (DPs), apresentaram a mesma tendência. Algumas, pelo contrário, registraram alta em determinados indicadores. A redução geral se explica porque, em algumas delegacias, o número de casos de certos crimes foi muito inferior em 2025 em relação ao ano anterior.
As regiões do 5º DP e do 2º DP foram as que registraram maior alta em alguns dos indicadores de criminalidade da SSP. No 5º DP, que atende o Ipiranga e outros bairros da zona Norte, houve aumento significativo no total de estupros, saltando de 37 em 2024 para 54 no ano passado. Os casos de estupro de vulnerável também cresceram na região, de 25 para 38 registros. Já os roubos de carga totalizaram cinco casos em 2025; em 2024, não houve nenhum crime dessa natureza.
No 2º DP, responsável por Campos Elíseos e outros bairros da zona Norte, inclusive a região do Parque Permanente de Exposições da Feapam, os casos de homicídio e tentativa de homicídio aumentaram. Os homicídios passaram de sete em 2024 para 11 no ano passado. As tentativas subiram de nove para 11. O 2º DP, que historicamente registra o maior número de furtos, manteve essa posição. Contudo, houve queda de 20,5%.
Os furtos de veículos diminuíram em várias regiões da cidade, mas, na área do 4º DP, que atende boa parte da zona Sul, houve crescimento. O número saltou de 404 veículos furtados em 2024 para 413 no ano passado, o maior volume entre todas as delegacias. Um veículo furtado a cada 21 horas.
Mesmo com índices em queda, nunca é demais manter atenção e medidas de prevenção contra crimes contra o patrimônio. Já nos casos de estupro, pode-se considerar que as notificações aumentaram nos últimos anos, inclusive em razão de campanhas que incentivam o registro de crimes sexuais. Ainda assim, há muito a ser feito, pois é inaceitável que, a cada dois dias, uma pessoa seja vítima desse tipo de crime hediondo em Ribeirão Preto.
Aumento de estupros
No Anuário Brasileiro de Segurança Pública (ABPS) 2025, as pesquisadoras Beatriz Schoeder, Isabella Matosinhos, Manoela Miklos e Melissa Londres relatam sobre o aumento dos números de casos de estupro e estupro de vulnerável no Brasil.
Segundo elas, a centralidade desses crimes nas estatísticas de violência sexual não se explica apenas pelo volume de registros, mas pelo papel simbólico que exercem na lógica de dominação sexual e controle dos corpos. O estupro é apontado como o tipo penal que mais expressa a articulação entre violência de gênero e poder sexual, sendo compreendido como forma extrema de reafirmação da ordem patriarcal.

O relatório também destaca o caráter relacional desses crimes, especialmente no estupro de vulnerável, já que, com frequência, os autores são familiares, conhecidos ou pessoas próximas às vítimas. Embora parte das vítimas seja do sexo masculino — 7,5% dos registros de estupro e 13,8% dos de estupro de vulnerável no ABPS —, o crime permanece marcado por relações de poder e dominação.
Mesmo quando a vítima não é mulher, a prática reproduz lógicas de humilhação e controle sobre corpos percebidos como vulneráveis, havendo ainda a possibilidade de subdimensionamento dos casos masculinos devido às barreiras sociais e simbólicas à denúncia. Em 2024, a taxa de estupro contra mulheres foi 1,8 vez superior à taxa geral.
No estupro de vulnerável, apesar de mais de 11 mil vítimas do sexo masculino registradas, o número de meninas vitimadas se aproximou de 56 mil, o que representa uma proporção de cinco meninas para cada menino. Considerando o total de estupros, incluindo os de vulnerável, a taxa chegou a 41,2 casos por 100 mil habitantes, crescimento de 0,9% em relação ao ano anterior. Em números absolutos, foram registradas 87.545 vítimas, o maior volume desde 2011, sendo 76,8% referentes a estupro de vulnerável.
O anuário ressalta a subnotificação como fator relevante, já que muitos casos, especialmente os que envolvem crianças, adolescentes e pessoas em situação de vulnerabilidade, não chegam às autoridades.
Lei penal permissiva
Consultor e especialista em segurança pública, o coronel aposentado da Polícia Militar Marco Aurélio Gritti explica que a tendência de redução dos índices criminais em Ribeirão Preto pode ser percebida desde o final do primeiro semestre de 2025. “Até então, os dados já apontavam redução que poderia chegar à casa dos dois dígitos, a exemplo dos crimes patrimoniais. Embora vislumbrada essa tendência, implica reconhecer que o crime muitas vezes é imprevisível e pode contrapor as tendências estatísticas, razão pela qual o Gestor de Segurança Pública, atualmente, analisa em tempo real o cenário social que se apresenta sob sua circunscrição”, aduz Gritti.
Ele comenta que a redução segue reflexo no Estado de São Paulo que, na atual gestão, experimenta diminuição histórica em crimes que afetam diretamente a vida das pessoas.
“Penso que a redução dos índices patrimoniais resulta do planejamento de ações direcionadas, de inteligência e integradas aos demais órgãos do sistema de justiça e à comunidade, aliado ao amplo investimento em tecnologia. Essa estratégia impactou, por exemplo, na significativa redução de furto e roubo de celulares e de carga. Ressalto que este último era um problema crônico no Estado, mas que com o programa Muralha Paulista foi possível efetivar bons resultados.

Em relação aos crimes contra avida, a persistência das reduções, segundo Gritti, é fruto das ações de prevenção, resposta rápida e repressão imediata, com apuração, que trazem eficiência. “Não obstante verificar há árduo caminho a se enfrentar, pois que tão difícil quanto reduzir índices e mantê-los em estáveis ou em redução, notadamente frente a atual legislação penal permissiva e favorável aos criminosos reincidentes.”
O coronel lamenta que a redução em Ribeirão Preto não tenha alcançado os índices de estupro, apesar de ações estratégicas de polícia lançadas para esse combate. “Esse crime é complexo e de difícil prevenção, pois que muitas vezes é praticado por criminoso próximo à vítima e contra pessoas vulneráveis, o que também reflete na dificuldade em denunciar (e por consequência, se apurar)”, adianta.
Segundo Gritti, as leis não inibem a ação dos criminosos sexuais. “A atual legislação penal não é capaz de produzir o efeito proibitivo que se espera, por exemplo: recentemente divulgou-se na mídia o estupro e morte de adolescente, cujo criminoso era reincidente por duas vezes no mesmo crime, e com passagem também por homicídio. Ou seja: como prevenir crimes frente a tão permissiva lei penal, que sequer retira do convívio social criminosos covardes e reincidentes, que assolam as famílias do bem”, conclui o especialista em segurança.
Enfrentamento ao crime é prioridade
Em nota, a SSP-SP informou que todo caso notificado é rigorosamente investigado pela Polícia Civil, com o objetivo de esclarecer os crimes. Destacou que as forças policiais monitoram constantemente os índices criminais e adotam estratégias de enfrentamento a todas as modalidades de crime nas regiões com maior incidência, incluindo ações preventivas contra roubos e furtos.
“Como resultado do trabalho integrado das forças de segurança, a cidade de Ribeirão Preto apresentou redução de 14,49% dos furtos, no período de janeiro a dezembro de 2025. No mesmo intervalo, os roubos em geral também apresentaram queda, de 31,97%. As ações desenvolvidas ainda possibilitaram a prisão e apreensão de 5.473 infratores no município.”
A pasta ressaltou que o enfrentamento aos crimes contra a vida é tratado como prioridade permanente e integra o programa SP Vida, que realiza a análise contínua de todas as ocorrências de homicídio doloso para subsidiar ações operacionais, investigativas e de prevenção.
Prevenção, proteção e resposta rápida
Em relação à violência contra a mulher, a SSP destaca que o tema é prioridade do Governo de São Paulo.” Ainda em 2023, o Estado criou de forma pioneira a Secretaria de Políticas para a Mulher, pasta transversal responsável pela estruturação de uma política integrada e permanente para prevenção, proteção e resposta rápida às vítimas em conjunto principalmente com a Secretaria de Segurança Pública”, cita a nota, listando as seguintes ações implementadas:
- Monitoramento de agressores com tornozeleiras eletrônicas. “Desde 2023, 1,1 mil foram tornozelados, dos quais 112 homens foram presos por descumprimento das medidas protetivas. Essa medida foi implantada de forma pioneira em São Paulo e impede, em tempo real, a aproximação das vítimas”;
- Grandes operações policiais para prender agressores. “Apenas nos últimos 2 meses, foram presos mais de 1,1 mil homens em flagrante e mais de 800 condenados por crimes contra mulheres”;
- App SP Mulher Segura para conectar, 24 horas por dia, mulheres em risco com a polícia. “São 45 mil usuárias e 7 mil acionamentos do botão do pânico, com envio imediato de policiais via georreferenciamento. O App também monitora automaticamente a localização dos agressores tornozelados”;
- Ampliação em 54% dos espaços especializados de atendimento às vítimas de violência, “São 142 Delegacias de Defesa da Mulher (DDM) e 170 Salas DDM 24h. Os atendimentos resultaram em um crescimento de 21% de medidas protetivas”;
- Inauguração de 20 Casas da Mulher Paulista e construção de outras 16 unidades, para acolhimento a vítimas;
- Criação do auxílio-aluguel, que já apoia 4 mil mulheres vítimas de violência doméstica em 582 municípios;
- Movimento SP por Todas: criado para dar visibilidade e facilitar o acesso das mulheres à rede de proteção e acolhimento;
- Capacitação de mais de 135 mil profissionais de bares, restaurantes e shows para ações de prevenção com o Protocolo Não se Cale.

