Pantera vive mais um ano de luta contra rebaixamento, mas escapa
Por Hugo Luque
O Botafogo encerrou 2025 com a exaustão de quem correu uma maratona. Às vésperas da São Silvestre, o Tribuna Ribeirão relembra os momentos que marcaram a corrida do Pantera para fugir do rebaixamento no Campeonato Paulista e na Série B do Campeonato Brasileiro.
No fim, deu tudo certo. Talvez tenha sido uma resposta do elenco à resiliência apresentada por um dos seus: o jovem atacante Pedro Severino, envolvido em um grave acidente de trânsito em março.
O atleta lutou pela vida durante meses e venceu. O Tricolor, dentro de campo, fez o mesmo, ainda que, agora, inicie 2026 com uma justificável desconfiança de parte da torcida.
Com Claudio Tencati no comando, a expectativa é de uma nova era no Estádio Santa Cruz/Arena Nicnet. O treinador tem acesso à elite nacional no currículo e o novo grupo botafoguense entrou na reta final de preparação para a nova temporada.
Paulistão de expectativas frustradas
Após um 2024 marcado pela briga contra o descenso durante todo o ano, a nova jornada do Botafogo começava com as esperanças nas mãos e na mente de Márcio Zanardi. Contratado depois de um bom trabalho no São Bernardo e uma passagem relativamente curta pelo Goiás, o comandante tinha a missão de reerguer o time.
Não aconteceu
A campanha no Paulistão foi ruim e a primeira vitória demorou para sair. Veio apenas na oitava rodada, diante do Velo Clube, seguida de outro triunfo, desta vez contra o Red Bull Bragantino.
Antes disso, todavia, a chave já havia virado. Contra a Portuguesa, no Pacaembu, uma derrota por 3 a 2 definida ainda no primeiro tempo, mas marcada pela reação dos ribeirão-pretanos na etapa complementar. Em seguida, um empate com gosto de vitória diante do Santos, em plena Vila Belmiro, na reestreia de Neymar pelo clube do litoral, com um a menos em campo.
“Jogar na Vila contra o Santos sempre é muito difícil e complicado, principalmente agora com a atmosfera do Neymar, um clima de festa. Não é fácil. Falei para os meus atletas que a gente viria para uma festa, mas que não fomos convidados. Viemos para fazer nosso jogo e era importante ser resiliente, suportar e saber sofrer”, disse Zanardi após a batalha contra o Peixe.
Era tarde para buscar a classificação ao mata-mata, mas pelo menos a queda para a Série A2 não veio. Apesar de derrotas para Palmeiras e Novorizontino nas rodadas derradeiras, o Pantera “renovou” seu passaporte na elite do estado de São Paulo, onde está, ininterruptamente, desde 2009.
A luta pela vida
Enquanto planejava a intertemporada entre o estadual e o nacional, o Botafogo recebeu uma triste notícia na madrugada de 4 de março. O atacante Pedro Severino, então com 19 anos, recentemente emprestado pelo Tricolor ao Red Bull Bragantino, lutava pela vida.
O carro onde estava o jovem, filho do ídolo Lucas Severino, bateu na traseira de uma carreta na Rodovia Anhanguera, na altura de Americana (SP), quando Pedro viajava para seu primeiro treino com a nova equipe. Também formado pelo Botafogo, o volante Pedro Castro era outro ocupante do veículo e estava no banco de trás, mas não sofreu ferimentos graves. O motorista dormiu no volante.
Pedro Severino foi o mais afetado pela colisão. Ele foi internado às pressas em estado muito grave, passou por cirurgia e chegou a ter o protocolo de morte cerebral iniciado pelos médicos. Porém, o ribeirão-pretano reagiu e foi transferido para sua cidade natal. A história foi destaque na imprensa nacional e até mesmo internacional, que repercutiu o ocorrido.
Foram 98 dias internado e uma reabilitação marcada por muita emoção e força por parte dele e da família, além de apoio vindo de várias partes do país. Pedro teve boa parte do crânio reconstruído, precisou reaprender a falar e a andar, mas recebeu alta em junho. Desde então, o jogador se recupera com uma equipe multidisciplinar. Em alguns dos vídeos publicados nas redes sociais, Pedro mostrou que já voltou até mesmo a praticar esportes e chutar bolas no gol. Mais importante, retomou sua independência.

(Raul Ramos)
Copa Paulista
A Copa Paulista do Botafogo foi de frustração. Seja com Ivan Izzo ou Régis Angeli, o “time B” designado para o torneio pouco apresentou dentro de campo.
O resultado foi uma eliminação precoce na primeira fase, no Grupo 2, com apenas nove pontos em dez partidas, na quinta colocação entre seis times na chave – os quatro primeiros foram ao mata-mata.
Os pontos mais baixos da curta campanha botafoguense na competição foram as derrotas para o arquirrival Comercial, as primeiras em uma década. No primeiro turno, revés por 1 a 0 no Palma Travassos. No segundo, resultado ainda mais amargo: 2 a 0 em pleno Santão.
Drama na Série B
O desejo do Botafogo era mudar o cenário durante a Série B. Para reforçar o plantel, chegaram nomes como o volante Wesley Dias e o atacante Jefferson Nem, destaque do Velo Clube no Paulista. Entretanto, mais um início ruim assombrou a equipe.
Com quatro derrotas nas sete primeiras rodadas, o Pantera já figurava na zona de rebaixamento. O primeiro triunfo veio de surpresa, fora de casa, diante do Athletico-PR, por 4 a 1. O resultado deu sobrevida a Zanardi no cargo, mas a sequência do técnico durou pouco. Derrotas por 3 a 0 para Athletic-MG e Operário-PR derrubaram o comandante.
Liderada por Toninho Cecílio, a diretoria agiu rápido e trouxe Allan Aal, ex-Noroeste e Guarani. O “fato novo” mexeu com o vestiário botafoguense e o time reagiu. Na 13ª rodada, o Tricolor finalmente saiu da zona de rebaixamento. Era hora de buscar outras disputas na segunda divisão.
“Esse perfil tem de ser durante o campeonato todo. As equipes que trabalhei sempre tiveram essas características de lutar, entregar e buscar o resultado positivo. É fundamental criar essa identidade que vai trazer e valorizar nosso trabalho dentro de campo, além de deixar o torcedor feliz. A resposta que precisávamos dar era essa”, comentou Aal naquele momento.
Como tem sido regra nos anos recentes, a felicidade não durou. O Botafogo voltou a oscilar e viu a janela de transferências do meio de ano como uma inimiga. Deixaram o clube nomes importantes como o volante Sabit e o centroavante Alexandre Jesus. O resultado foi uma derrota por 5 a 0 para o Avaí – a maior goleada recente sofrida pelo time – e a lanterna da Série B na virada do turno.
Mais uma vez, um esboço de reação possibilitou a permanência de um treinador. Contra rivais mais fortes, o Bota se mostrava “ligado”, o que resultou em resultados favoráveis sobre América-MG, Vila Nova e o então líder Goiás, fora de casa. Porém, uma sequência negativa culminou na saída de Allan Aal.
O momento era de crise. As chances de rebaixamento beiravam os 80%, de acordo com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e um novo técnico definitivo não foi anunciado. A diretoria apostou alto e deu uma chance ao auxiliar da casa, Ivan Izzo, como interino.
Izzo havia comandado a equipe em alguns jogos da Copa Paulista, mas não conseguiu bons resultados. No Brasileiro, a situação foi diferente. O estilo de jogo pragmático, mas efetivo, garantiu ao Tricolor fundamentais pontos. O técnico interino iniciou sua trajetória com três vitórias e três empates no comando do elenco principal.
“O elenco está fechado com o Botafogo. A gente defende um clube de tradição, com camisa e história. A gente tem, no mínimo, de deixar o Botafogo onde a gente encontrou”, afirmou Izzo após a fundamental vitória sobre o Volta Redonda, na 35ª rodada.
Além da mudança no banco de reservas, a diretoria também foi alterada. Toninho Cecílio, criticado por parte da torcida, deixou o comando do futebol e deu lugar a André Leite e ao ex-volante Fillipe Soutto.
Com a derrota para o Criciúma na penúltima rodada, o Botafogo chegou à 38ª partida ainda assombrado pelo fantasma do rebaixamento. Bastava vencer o Avaí, que apenas cumpria tabela. Não faltou drama.
O Santa Cruz registrou seu maior público na Série B e o segundo maior do ano (10.953 pessoas) no jogo, que contou com promoção de ingressos. O empate por 0 a 0 não saiu do marcador e o Pantera dependeu de outros resultados para ficar na divisão.
A equipe chegou a figurar a zona de rebaixamento por cerca de um minuto, mas contou com a sorte e evitou o pior resultado. Ainda assim, a última saída de campo do plantel foi marcada por vaias, apesar do alívio com a 16ª posição.
Nova era
Ivan Izzo ajudou a salvar o Botafogo da queda, mas não permaneceu no cargo. O ex-goleiro retornou ao posto de auxiliar da casa. O técnico tricolor no início de 2026 será Claudio Tencati, que ostenta um currículo com projetos de longo prazo e um acesso à Série A com o Criciúma, em 2023. Na elite, chegou a treinar o Juventude por um curto período de tempo em 2025.

(Raul Ramos
Uma verdadeira reformulação no elenco está em andamento desde a reta final da Série B. Além das mudanças na direção, diversos jogadores foram contratados, vínculos de peças importantes (como o goleiro Victor Souza e o atacante Jefferson Nem).
Vários atletas também passaram pela porta de saída, entre eles nomes que estavam há mais tempo no clube. Foram os casos do lateral-esquerdo Jean Victor, ídolo recente do Bota, e do ponta Robinho, que enfrentou altos e baixos com lesões.
Agora, o objetivo da agremiação em 2026 é seguir exemplos de Mirassol e Novorizontino para atingir outro patamar, longe da luta contra o descenso nas duas principais competições da temporada. A temporada terá início em 11 de janeiro, às 17h, no Benitão, contra o Velo Clube, pelo Paulistão, em formato diferente, com turno único de oito rodadas seguido de mata-mata. Antes, o sub-20 faz seus primeiros jogos na Copa São Paulo de Futebol Júnior. A Série B está programada para começar no fim de março.

